Este livro foi digitalizado e corrigido por
Maria Fernanda da Conceio Pereira

Ttulo original: Cry, Beloved Country

Traduo de A. dos Santos Matias

Capa: estdios P. E. A.

(c) Charles Scribner's Sons

Nenhuma parte desta publicao pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma ou por qualquer processo, electrnico, mecnico ou fotogrfico, incluindo fotocpia,
xerocpia ou gravao, sem autorizao prvia e escrita do editor. Exceptua-se naturalmente a transcrio de pequenos textos ou passagens para apresentao ou crtica
do livro. Esta excepo no deve de modo nenhum ser interpretada como sendo extensiva  transcrio de textos em recolhas ontolgicas ou similares donde resulte
prejuzo para o interesse pela obra. Os transgressores so passveis de procedimento judicial

Editor: Francisco Lyon de Castro

PUBLICAES EUROPA-AMRiCA, LDA.

Apartado 8

2726 M EM MARTINS CODEX

PORTUGAL

Edio n." 140953/4079

Execuo tcnica: Grfica Europam, Lda., Mem Martins


minha mulher

e ao amigo de longos anos

Jan Hendrik Hofmeyr
NOTA SOBRE O AUTOR

Alan Stewart Paton nasceu em 1903 na frica do Sul, em Pietermaritzburg, e ali desenvolveu a sua actividade como professor e director de um reformatrio para jovens
de raa negra.

A publicao de CHORA, TERRA BEM AMADA, em 1948, verdadeiro best-seller mundial, valeu-lhe a celebridade no campo das letras. Quatro anos depois, numa produo inglesa,
o livro  levado ao cinema pelo realizador Zoltan Korda, tendo como intrpretes Canada Lee, Sidney Poitier e Charles Carson.

Premiado em 1960 com o "Freedom Award", o autor deslocou-se a Nova Iorque para receber o prmio. No seu regresso  frica do Sul, a polcia confiscou-lhe o passaporte.

Do mesmo autor, e na coleco "Os Livros das Trs Abelhas, Publicaes Europa-Amrica editou tambm, h j uns largos anos, uma colectnea de contos, O VALE DA IRA.



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 encantador o
caminho que vai de Ixopo at aos montes. Montes cobertos de relva ondulante e to belos que no h palavras para os descrever. O caminho sobe por eles duas lguas,
at Carisbrooke. Daqui, se no h nevoeiro, pode ver-se, l em baixo, um dos vales mais maravilhosos de toda a frica.  nossa volta h ervas e fetos e pode ouvir-se
o grito da titihoya, uma das aves do veld. Em baixo fica o vale de Umzimkulu, na sua jornada das montanhas do Drakensberg para o mar; para l do rio, montes e mais
montes; mais para l ainda, por detrs dos montes, as montanhas de Ingeli e do East Griqualand.

A erva, to farta e entranada que esconde o cho, conserva a chuva e o nevoeiro, que penetram na terra e vo alimentar os riachos que se despenham por todas as
ravinas. Est bem conservada, to escasso  o gado que a come, e os poucos incndios que sofre no chegam a pr o solo a nu. Descalai-vos para a pisar, porque o
solo  sagrado, tal como veio da mo do Criador. Conservai-a, guardai-a, cuidai dela, porque ela sustenta os homens, protege os homens, cuida dos homens. Destru-a,
e o homem ser destrudo.

No lugar onde estamos, a erva  forte e entranada; no se pode ver o cho. Mas os montes, dum
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verde-vivo, desmoronam-se. Caem para o vale e, ao cair, modificam-se, porque se tornam vermelhos e nus, j no seguram a chuva e o nevoeiro e os riachos esto secos
nas encostas. Animais sem conto devoram a erva, terrveis incndios a consomem. Pisemo-la calados, porque ela  grosseira e spera e as pedras agudas podem cortar
os ps. J ningum a conserva ou trata, ningum cuida dela, porque tambm ela no sustenta o homem, no o guarda, no cuida dele. A titihoya j aqui no canta.

Os grandes montes vermelhos tm um ar de desolao e a terra est dilacerada como se fosse carne. Os raios fulminam-nos, as nuvens abrem-se-lhes em cima, os riachos
mortos revivem, cheios do sangue vermelho da terra. Em baixo, nos vales, mulheres esgaravatam a terra que ficou e o milho no chega a atingir a altura dum homem.
So vales de velhos e de velhas, de mes e de crianas. Os homens foram-se; os rapazes e as raparigas foram-se tambm. A terra no pode conserv-los mais.
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A rapariguita, com a carta na mo, corria cheia de importncia na direco da igreja de madeira e lata. Junto da igreja havia uma casa, a cuja porta bateu com timidez.
O reverendo Stephen Kumalo levantou os olhos da mesa onde escrevia e disse:

- Entra!

A rapariguita, com a preocupao de quem receia faz-lo sem o respeito devido a uma casa to importante, abriu a porta e deu acanhadamente alguns passos.

- Trago aqui uma carta, umfundisi.

- Uma carta, hem? Onde  que ta entregaram, minha filha?

- Na loja, umfundisi. O homem branco pediu-me que lha trouxesse.

- Que boa rapariga tu s! Vai com Deus, pequenita.

Mas ela no mostrou pressa de sair. Coava os ps descalos um no outro e esfregava um dedo na borda da mesa do umfundisi.

- Talvez tenhas fome, pequena.

- Muita fome, no, umfundisi.

- Talvez um pouquinho de fome...

- Sim, um pouquinho de fome, umfundisi.

- Vai l dentro ter com a me ento. Talvez ela tenha qualquer coisa para comer.

- Muito obrigada, umfundisi.

Caminhou suavemente, como se receasse que os seus ps causassem qualquer dano quela casa to grande, uma casa com mesas e cadeiras, um relgio na parede, uma planta
num vaso e muitos livros, mais livros ainda do que havia na escola.

Kumalo olhou para a carta. Estava suja, principalmente em volta do selo. Tinha andado por muitas mos, sem dvida. Vinha de Johannesburg. Ora em Johannesburg estavam
muitos dos seus. Seu irmo Joo, que era carpinteiro, l estava e tinha negcio por sua conta em Sophiatown, prximo de Johannesburg; sua irm Gertrudes, vinte e
cinco anos mais nova que ele, nascida j na velhice dos pais, para l fora com o filho pequeno,  procura do marido, que nunca mais voltara das minas; o seu nico
filho, Absalo, para l partira  procura da tia Gertrudes e nunca mais regressara. E, da mesma forma, muitos outros parentes, embora no to chegados como

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aqueles, l estavam. Era difcil saber quem enviara a carta, pois havia tanto tempo que nenhum escrevia que era impossvel reconhecer a letra.

Voltou-a, mas nem sinal do remetente. Hesitava em abri-la, porque desde que se abre uma carta  difcil fech-la novamente. Perguntou  mulher:

- A pequena j se foi embora?

- Est a comer, Stephen.

- Ento deixa-a comer. Trouxe uma carta. Sabes alguma coisa a este respeito?

- Eu?! Como hei-de saber, Stephen?

- Tens razo... Toma!

Ela pegou na carta, apalpou-a, mas nada havia nela que mostrasse, pelo tacto, de quem podia vir. Leu em voz alta o endereo, devagar, cuidadosamente:

Reverendo Stephen Kumalo,

Igreja de So Marcos,

Ndotsheni,

Natal.

Chamou a si toda a coragem e disse:

- No  do nosso filho.

- No - disse ele, suspirando. - No  do nosso filho.

- Talvez lhe 'diga respeito - tornou ela.

- Sim - respondeu o marido. - Pode ser que
sim.

- No  da Gertrudes - continuou a mulher.

- Talvez do meu irmo Joo.

- No  do Joo - afirmou ela. Ficaram silenciosos. Depois ela exclamou:

- Desejvamos tanto uma carta, e agora, que chegou, tanto medo temos de a abrir!

- Quem  que tem medo ? Abre-a.

Ela abriu-a cuidadosa e lentamente, pois no estava habituada a abrir cartas. Desdobrou-a e comeou a ler, to devagar e com tanto cuidado que ele no percebia o
que ela dizia.

- L alto! - pediu.

Ela leu alto, como um zulu l o ingls:

Casa da Misso, Sophiatown, Johannesburg,
25/9/46.

Meu caro irmo em Cristo:

Aconteceu-me ter encontrado uma mulher nova aqui em Johannesburg. Chama-se Gertrudes Kumalo e sei que  irm do Rev. Stephen Kumalo, da Igreja de So Marcos de Ndotsheni.
Est muito doente, e por isso lhe peo que venha com urgncia a Johannesburg. Dirija-se ao Rev. Tefilo Msimangu, Casa da Misso, em Sophiatown, onde lhe darei informaes.
Arranjar-lhe-ei acomodao pouco dispendiosa. Peo que aceite, meu caro irmo em Cristo, os cumprimentos de

Tefilo Msimangu

Quedaram-se ambos num longo silncio, que ela, por fim, rompeu:

- Ento?

- Que ?

- Esta carta, Stephen, que ouviste ler.

- Sim, ouvi. No  uma carta agradvel.

- No  agradvel, no. Que pensas fazer?
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- A pequena j comeu?

Ela foi  cozinha e voltou com a criana.

- J comeste, minha filha?

- J, umfundisi.

- Ento vai em bem. Muito obrigado por trazeres a carta e agradece por mim ao homem branco da loja.

- Pois sim, umfundisi.

- Ento vai em bem, minha filha.

- Fique em bem, umfundisi. Fique em bem, me.

- Vai em bem, minha filha.

E a criana caminhou suavemente para a porta, fechou-a atrs de si, deixando correr o trinco devagar, como quem receia deix-lo fechar de repente.

Quando a criana se foi, ela voltou a perguntar-lhe:

- Que pensas fazer, Stephen?

- A respeito de qu, mulher?

- A respeito desta carta, Stephen - volveu ela com doura.

Ele suspirou e disse:

- Traze-me  o   dinheiro  do   Seminrio   de   So Carlos.

Ela saiu e voltou com uma caixa de lata, daquelas que se compram cheias de caf ou de cacau, e entregou-lha.

Ele conservou a lata na mo, examinando-a, como se esperasse ver nela uma resposta, at que, por fim, ela lhe disse:

- Tem de ser, Stephen.

- Como posso eu faz-lo ? - replicou ele. - Este dinheiro era para mandar Absalo para So Carlos.

- Absalo j no ir para So Carlos.

- Porque dizes isso ? - exclamou ele com aspereza. - Porque dizes semelhante coisa?

- Ele  est  em   Johannesburg- respondeu  ela, numa voz cheia de tristeza. - E quando algum vai para Johannesburg, no volta mais.

- Tu o disseste - replicou ele. - E agora est dito. Abriste uma porta e, porque a abriste, somos obrigados a passar por ela. E s Tixo sabe onde iremos ter.

- No fui eu quem a abriu - exclamou ela, ferida pela acusao. - Estava h muito tempo aberta, mas tu no querias ver.

- Tnhamos um filho - disse ele com amargura. - Os Zulus tm muitos filhos, mas ns tnhamos s um. Foi para Johannesburg e, como tu afirmaste, quando algum vai
para  Johannesburg, no volta mais. Nem sequer volta a escrever. Eles no vo para So Carlos para adquirir os conhecimentos sem os quais o homem negro no pode
viver. Vo para Johannesburg e por l se perdem, sem que se oua mais falar deles. E este dinheiro...

Mas ela no tinha nada para lhe responder e ele prosseguiu:

- ...est aqui nas minhas mos. Ela continuou calada e ele repetiu:

- ...est aqui nas minhas mos.

- Ests a mortificar-te - disse ela.

- A mortificar-me? A mortificar-me,  eu? Eu no me mortifico; eles  que me mortificam! O meu filho, a minha irm, o meu irmo! Foram-se e nunca mais escreveram!
Talvez julguem que no nos fazem sofrer! Talvez isso lhes no importe!

A voz tornou-se-lhe alterosa e colrica:

--Vai l acima e pergunta ao homem branco se

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no haver l cartas. Talvez cassem para debaixo do balco ou estejam escondidas no meio das mercadorias. Procurem-nas nas rvores, que talvez para l voassem com
o vento. Ela lastimou-se:

- Tambm me ests a mortificar!

Ele recomps-se e disse-lhe humildemente:

-  coisa que no devo fazer. Deu-lhe a lata e disse-lhe:

- Abre-a!

Com as mos trmulas, ela pegou na lata e abriu-a, esvaziando o contedo sobre a mesa: algumas notas velhas e sujas e uma torrente de moedas de prata e de cobre.

- Conta-o - disse ele.

Ela contou-o meticulosamente, virando de ambos os lados as notas e as moedas para melhor se certificar do seu valor.

- Doze libras, cinco xelins e sete dinheiros.

- Eu levo oito libras e os midos.

- Leva tudo, Stephen. Pode haver mdicos, hospitais e outras complicaes. Leva tudo. Leva tambm a caderneta dos Correios, que tem dez libras; leva-as tambm.

- Tinha economizado esse dinheiro para te comprar o fogo - retorquiu ele.

- No  h  outro   remdio - respondeu   a  mulher. - Tambm o outro dinheiro, embora o tivssemos juntado para So Carlos, tinha-o eu destinado para ti, para te
comprar um fato preto, um chapu preto e colarinhos brancos.

- Sim, tambm no h remdio para esse.
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  deixa-me ver. vou ento...

- Amanh - concluiu ela. - De Carisbrooke.

- vou escrever ao bispo e dizer-lhe que no sei quanto tempo me demoro.

Levantou-se lentamente e aproximou-se dela.

- Desculpa ter-te magoado - disse. - vou para a igreja rezar.

Saiu, e ela, atravs da pequena janela, ficou a v-lo caminhar vagarosamente em direco  porta da igreja. Depois sentou-se  mesa, apoiou nela a cabea e ficou
silenciosa, naquela resignao dolorosa das mulheres negras, na resignao dolorosa dos bois e de todos os seres mudos.

Todos os caminhos vo dar a Johannesburg. Atravs da noite longa passam comboios para Johannesburg. As luzes trmulas das carruagens iluminam as trincheiras da linha,
as ervas e as pedras duma terra adormecida. Felizes os olhos que podem fechar-se.
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 O comboio, pequeno como um brinquedo, trepa  pela sua linha estreita do vale do Umzimkulu para  os montes. Trepa at Carisbrooke e, quando l pra,  pode sair-se
por um momento e olhar para baixo,  para o grande vale.

 No  provvel que o comboio abale e nos deixe  em terra, porque ali h pouca gente e todos sabem  quem ns somos. Ainda que isso acontecesse, porm, [no era caso
para aflio: a menos que se seja coxo ou muito velho, pode-se sempre dar uma corrida e  apanh-lo-ia
Se houver nevoeiro, nada se pode ver do grande vale. O nevoeiro remoinhar  nossa volta, por baixo de ns, e comboio e passageiros formaro um pequeno mundo  parte.
Muita gente no gosta do nevoeiro; acha que  frio e triste. Outros gostam e encontram nele mistrio e fascinao, preldio de aventura, solicitao para o desconhecido.
O comboio atravessa um mundo de fantasia e poderia ver-se, atravs das vidraas embaciadas, encostas de um verde sombrio cheias de erva e de fetos. A, na estao
prpria, crescem o agapanto-azul, a watsnia selvagem, o tritoma cor de fogo e, uma vez por outra, pode ver-se, de relance, o rum nos vaies estreitos. Por detrs
destes, sempre a escura parede das mimosas, como fantasmas na nvoa.

 interessante esperar o comboio em Carisbrooke, enquanto ele trepa, vindo do grande vale. Os da regio sabem dizer, a cada apito, em que ponto ele se encontra,
em que estrada, em que quinta, em que rio vai a passar.

Mas Stephan Kumalo, embora j ali estivesse h uma boa hora quando ele chegou, no prestava ateno a estas coisas.

Era uma jornada bem longa a fazer e um ror de dinheiro a gastar. Quem sabia da gravidade da doena da irm e do dinheiro que teria de despender? E, se tivesse de
a trazer, quanto custaria isso tambm? Depois, Johannesburg  uma grande cidade, com tantas ruas que uma pessoa podia levar a vida inteira a caminhar por elas sem
nunca passar duas vezes pela mesma.

 preciso tambm tomar os autocarros, mas no
 como aqui, onde o nico que passa  sempre o
20  que nos leva ao nosso destino. Porque l h uma
quantidade de autocarros e somente um em cada dez, um em vinte,  o que nos serve. Se se toma um errado, l se vai dar, sem dvida, a outro lugar. Dizem que  perigoso
atravessar as ruas e, contudo, deve ser preciso atravess-las. Por isso, a mulher de Mpanza, de Ndotsheni, quando foi l ver o marido, que estava moribundo, viu
morrer-lhe o filho na rua. Tinha doze anos e a sua agitao impeliu-o para o perigo, enquanto ela, hesitante, se deixou ficar no passeio. E, debaixo dos seus olhos,
um grande camio esmagou-lhe o filho.

E o grande receio, tambm... o maior receio, visto que to poucas vezes se falava dele. Onde estava o seu filho? Porque nunca mais escrevera?

Um ltimo apito e o comboio aproxima-se por fim. O padre voltou-se para o companheiro:

- Amigo, obrigado pela tua ajuda.

- Tive muito prazer em lhe ser til, umfundisi. O senhor no poderia trazer isto tudo;  o saco    pesado.

O comboio est agora mais perto, em breve parar na estao.

- Umfundisi.

- Meu amigo.

- Tenho um favor a pedir-lhe, umfundisi.

- Dize l, ento.

- Conhece Sibeko?

- Conheo.

- Pois bem, a filha de Sibeko trabalha para o branco Smith, em Ixopo. quando
Smith se casou e foi viver para Exopo.
A filha de Sibeko
tambm foi com eles. A direco  a
de casa da  patroa. Mas Sibeko h "

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seis meses que no tem notcias da filha e ele pede que o senhor a procure.

Kumalo pegou no papel sujo e amarrotado e leu: "Springs."

- J ouvi falar deste lugar. Mas no  em Johannesburg, embora digam que  perto. Meu amigo, c est o comboio. Farei o que puder.

Guardou o papel na carteira e puseram-se ambos a observar o comboio. Como todos os comboios rurais da frica do Sul, vinha cheio de passageiros negros. Poucos havia
nele de outra raa, pois os brancos da regio tm automveis, raramente viajando agora de comboio.

Kumalo subiu para uma carruagem de no-europeus, j cheia do humilde povo da sua raa, uns usando estranhas combinaes do vesturio dos brancos, outras - todas
mulheres, visto os homens j no viajarem com os seus trajos primitivos - com cobertores a tapar a seminudez do rudimentar vesturio tradicional.

O dia estava quente e havia um forte odor na carruagem. Mas Kumalo era um homem humilde e no fez caso. E eles repararam no seu colarinho sacerdotal e apertaram-se
para dar lugar ao umfundisi.

Kumalo olhou em volta, na esperana de descobrir algum com quem pudesse conversar, mas no descobriu ningum com quem parecesse poder faz-lo. Voltou-se para a
janela para dizer adeus ao amigo.

- Porque  que Slbeko no veio ter comigo? -
22  perguntou.

- Teve acanhamento, umfundisi.  Ele  no  pertence  nossa igreja.

- Mas no pertence ao nosso povo? Quando um homem est aflito, s se deve dirigir aos da sua prpria igreja?

- Eu digo-lhe, umfundisi.

Kumalo ergueu a voz, como fazem as crianas, ou, antes, como fazem os adultos quando querem que os ouam:

- Diz-lhe que, quando chegar a Johannesburg, tratarei de ir a Springs.

E, apalpando a carteira, onde guardara o papel, continuou:

- Assegura-lhe que procurarei encontrar a rapariga. Mas diz-lhe que terei l muito que fazer; tenho muitas coisas a tratar em Johannesburg.

Afastou-se da janela, dizendo, como que dirigindo-se a si prprio, mas na inteno de ser ouvido pelos outros:

- Como, afinal, sucede sempre que l vou.

- Muito obrigado por ele, umfundisi.

O comboio apitou e deu um solavanco. Kumalo esteve prestes a cair. Seria mais seguro e mais digno tomar o seu lugar.

- Fica em bem, meu amigo.

- V em bem, umfundisi.

Sentou-se e os circunstantes olharam com interesse e respeito para o homem que ia tantas vezes a Johannesburg.

O comboio acelerou a marcha, arrastando-se pelas cristas dos montes, debruando-se sobre os precipcios, deixando para trs os fetos e as flores para entrar na obscuridade
das plantaes de mimosas e passou Stainton, em direco a Ixopo.

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4
A viagem comeara. E agora voltava de novo o medo, o medo do desconhecido, o medo da grande cidade onde as crianas eram mortas ao atravessarem as ruas, o medo da
doena de Gertrudes. Medo mais profundo por causa do filho. Medo profundo de um homem que vive num mundo que no foi feito para si, cujo prprio mundo vai fugindo,
morrendo, sendo irrevogvelmente destrudo.

J se dobram os joelhos do homem que h um momento patenteava a sua pequena vaidade, proferira a sua pequena mentira, diante daquele povo respeitoso. O homem humilde
tirou do bolso o livro sagrado e comeou a ler. Somente este era o mundo verdadeiro.

O comboio-brinquedo trepa de Ixopo para outros montes, os verdes e ondulantes montes de Lufafa, Eastwolds, Donnybrook. De Donnybrook havia larga corrida para o grande
vale de Umkomaas, onde vivem tribos e a terra  doente, quase sem cura. Sobe o vale, depois de passar Hemu-hemu, at Elandskop. Desce o comprido vale de Umsindusi,
passa Edendale, com as suas choas miserveis, e chega a Pietermaritzburg, a bela cidade. Aqui h transbordo para o maior de todos os comboios, o de Johannesburg.
Eis uma das maravilhas do homem branco: um comboio sem mquina, somente com uma gaiola de metal  frente, tirando a fora de cordas de ferro esticadas por cima.
Trepa at Hilton e Lion River, Balgowan, Rosetta e Mooi River, atravs de montes cujo encanto no h palavras que o traduzam. Trovoada durante a noite, nos campos
de batalha de outrora.
24 Sobe o Drakensberg, corre nos seus planaltos.

O acordar na carruagem oscilante ao dealbar da madrugada. A mquina ferve outra vez; j no tem cordas de ferro por cima da cabea.

Agora  uma paisagem nova, uma estranha paisagem, ondulando sempre at onde a vista alcana. H nomes novos aqui, nomes difceis para um zulu que se instruiu em
ingls. Nomes naquela lngua chamada Afrikaans, uma lngua que ele ainda no ouvira falar.

- As minas, as minas! - gritaram os indgenas, pois muitos deles iam para l trabalhar.

- Aqueles montes brancos e achatados l ao longe  que so as minas?

Pode perguntar  vontade, porque agora no h aqui nenhum dos que o ouviram na vspera.

- Aquilo so as rochas que saram das minas, umfundisi. Delas  que tiraram o ouro.

- Descemos  mina e cavamos, umfundisi. E, quando  difcil cavar, retiramo-nos e os homens brancos fazem-nas rebentar com bombas. Depois voltamos outra vez para
limpar as pedras rebentadas; carregamo-las numa carreta que vem para cima numa gaiola, por uma chamin comprida, to comprida que no lhe sei dizer de que tamanho.

- Mas como  que ela sobe?

-  puxada por uma roda grande. Espere, que eu lhe mostro uma.

Calou-se, e o corao comeou a bater-lhe apressadamente, de excitao e medo.

- Ali est a roda, umfundisi. L est ela!

Uma grande construo de ferro elevava-se no ar e, sobre ela, uma enorme roda girava to rapidamente que os raios enganavam a vista.

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Edifcios grandiosos, vapor a sair de canos e homens afadigados por toda a parte. Um grande monte branco e uma fila sem fim de carretas trepando por ele, l muito
para o alto. Em baixo, automveis, camies, camionetas, uma confuso enorme.

- Isto  que  Johannesburg?- perguntou.

Mas eles riem, cheios de si. Alguns deles so velhos operrios.

- Isto no  nada - disseram. - Em Johannesburg h prdios to altos... - mas calam-se por no terem palavras para os descrever.

- Irmo -disse um deles -, lembras-te daquele monte levantado a pique por detrs do kraal de meu pai? Pois so to altos como ele.

O outro acenou afirmativamente, mas Kumalo no conhecia o tal monte.

E agora os edifcios eram sem fim, edifcios, e montes brancos, e grandes rodas, e ruas sem conto, e automveis, camies e nibus.

- Agora  que  Johannesburg - arriscou ele. Mas os outros riram de novo.   Comeavam   a

enfadar-se.

- No, no  Johannesburg - responderam. Linhas de comboio, linhas e mais linhas, que era

de pasmar. Para a esquerda, para a direita, tantas que era impossvel cont-las.

Um comboio passou por eles com um silvo to agudo que Kumalo deu um salto no banco.

Estaes e mais estaes, tantas como nunca poderia ter imaginado. Centenas de pessoas ali esperavam, mas o comboio fugia velozmente, deixando-as desapontadas.

Os edifcios vo-se tornando mais altos, as ruas

multiplicam-se. Como ser possvel acertar com o caminho em tal confuso?

Anoitece e as luzes vo-se acendendo nas ruas.

Um dos homens dirigiu-se a ele:

- Johannesburg, umfundisi.

V casas altssimas e nelas luzes verdes e vermelhas, quase to altas como as casas. As luzes acendem-se e apagam-se. Sai gua duma garrafa at encher o copo. Depois
as luzes desaparecem. E, quando se acendem de novo, a garrafa est cheia e de p e o copo vazio. E l se inclina outra vez a garrafa. "Branco e preto", l ele, "branco
e preto", apesar de ver vermelho e verde.  de mais para que possa compreender.

Est silencioso, di-lhe a cabea, tem medo.

Eis a estao a aproximar-se, com os seus tneis debaixo do cho.

O comboio pra debaixo dum telheiro enorme onde se vem milhares de pessoas. Degraus penetram no solo, e eis aqui o tnel subterrneo. Gente negra, gente branca,
uns para c, outros para l, tanta gente que o tnel est cheio. Caminha com cuidado para no esbarrar em ningum, apertando com fora o saco contra si. Desemboca
num hall enorme. A corrente humana sobe os degraus, e ei-lo na rua. O barulho  tremendo. Automveis e autocarros uns atrs dos outros, tantos como nunca imaginara.
A corrente precipita-se para a rua, mas ele, lembrando-se do filho de Mpanza, tem receio de seguir. As luzes mudam de vermelho para verde e de novo para vermelho.
J tinha ouvido falar disso. Quando a luz  verde, pode-se passar. Mas quando vai a atravessar, um autocarro enorme corre na sua direco. H qualquer regra a este
respeito que ele
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no conhece e recua. Procura um lugar junto  parede, e assim ter o ar de quem espera algum. O corao bate-lhe como o duma criana e nada pode det-lo.

- Tixo, protegei-me! - diz para consigo. - Tixo, protegei-me!

Um jovem aproximou-se dele e falou-lhe numa lngua que no compreendeu.

- No compreendo - disse.

- O senhor ento  xosa, umfundisi.

- Zulu - respondeu.

- Para onde quer ir, umfundisi ?

- Para Sophiatown, senhor.

- Venha comigo ento, que eu ensino-o.

Ficou cheio de reconhecimento por esta amabilidade, mas tambm cheio de medo.

Ainda bem que o rapaz no se oferecia para lhe levar o saco, mas falara com delicadeza, embora num zulu estranho.

As luzes mudaram para verde e o seu guia disps-se a atravessar a rua. Vinha um automvel na sua direco, mas o guia no se importou e o automvel parou. Isto inspirava
confiana.

No pde reparar nas voltas que deu pelas ruas, debaixo dos altos edifcios, mas, por fim, com o brao a doer do peso do saco, chegaram a um lugar com muitos autocarros.

- Deve pr-se na bicha, umfundisi.   Tem   a   o dinheiro para o bilhete?

Rapidamente, arrebatadamente, como se devesse

mostrar a este rapaz que lhe estava grato pela sua

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   gentileza, pousou o saco e tirou a carteira. Estava
nervoso de mais para perguntar quanto era preciso e tirou uma libra.
- Quer que lhe v comprar o bilhete, umfundisi? Ento no perca a sua vez na bicha enquanto vou  bilheteira.

- Muito obrigado - disse o padre.

O rapaz pegou no dinheiro e caminhou uns passos na direco da esquina. Assim que o viu torne-la, Kumalo comeou a sentir-se inquieto.

A bicha avanava e ele ia com ela, apertando o saco.

A bicha avanava mais, mais ainda, em breve seria a sua vez de entrar para o autocarro e ainda no tinha bilhete. Como se, de repente, se tivesse lembrado de qualquer
coisa, saiu da bicha e dirigiu-se para a esquina. Mas no havia sinal do jovem. Ganhou coragem para se dirigir a quem quer que fosse e aproximou-se dum homem de
idade decentemente vestido.

- Onde  a bilheteira, meu amigo ?

- Que bilheteira, umfundisi?

- Dos bilhetes para o autocarro.

- O senhor compra l mesmo o bilhete. No h bilheteira nenhuma.

O homem parecia pessoa decente e o padre disse humildemente:

- Dei uma libra a um rapaz que me disse que ia  bilheteira comprar o bilhete.

- O senhor foi ludibriado, umfundisi.  capaz de dar com o rapaz? No, no o torna mais a ver. Olhe, venha comigo! Para onde vai? Sophiatown?

- Sim, para Sophiatown; para a Casa da Misso.
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- Ah! Sim ? Eu tambm sou anglicano. Estava  espera de uma pessoa, mas no espero mais. vou consigo. Conhece o reverendo Msimangu?

- Sem dvida. Tenho aqui uma carta dele. Voltaram para o fim da bicha e, na devida altura,
tomaram lugar no autocarro, que, por sua vez, se ps em marcha, embrenhando-se na confuso das ruas. O condutor fumava com um ar indiferente e era impossvel no
admirar tanta coragem.

Rua aps rua, luz aps luz, como se nunca acabassem, por vezes a tal velocidade que o autocarro ia dum lado ao outro da rua, atordoando os ouvidos com o barulho
do motor.
5
Apearam-se numa rua pequena, mas mesmo a se acotovelava um mar de gente. Caminharam durante algum tempo por ruas apinhadas. O seu novo amigo ajudou-o a levar o
saco, mas este inspirava confiana. Por fim, pararam diante de uma casa iluminada e bateram  porta.

Esta abriu-se e um homem novo e alto, vestido com traje sacerdotal, f-los entrar.

- Sr. Msimangu, trago-lhe um amigo, o  reverendo Kumalo, de Ndotsheni.,

- Entrem,  entrem,  meus  amigos.  Sr.  Kumalo, tenho muito prazer em receb-lo.  a primeira vez que vem a Johannesburg?

Kumalo j no podia alardear grandezas. Tinha sido guiado com segurana e fora recebido com cordialidade. Falou humildemente:

- Estou muito confundido e muito grato para com o nosso amigo.

30        - O senhor caiu em boas mos. Este  o  Sr.
Mafolo, um dos nossos grandes homens de negcio e um bom filho da Igreja.

- Mas no cheguei a tempo de evitar que o roubassem - disse o negociante.

E, contada a histria, mais provas de simpatia e conselhos lhe foram dados.

- Mas deve ter fome, sem dvida, Sr. Kumalo? Sr. Mafolo, fique um bocadinho e coma alguma coisa.

Mas o Sr. Mafolo no quis esperar. A porta fechou-se atrs dele e Kumalo sentou-se num cadeiro e aceitou um cigarro, embora no tivesse o hbito de fumar. A sala
era alegre e a grande confuso da cidade ficou isolada l fora. Soprava o fumo como uma criana e sentia-se cheio de reconhecimento.

A longa jornada at Johannesburg findara e ele

  tinha simpatizado com este padre moo, que tanta
 confiana inspirava. Em devido tempo falariam, naturalmente, das razes que o obrigaram a fazer esta
peregrinao. Mas por agora bastava que se sentisse
bem acolhido e em segurana.
- Arranjei-lhe onde dormir, meu amigo. Em casa duma senhora idosa, uma tal Sr.a Lithebe, membro fiel da nossa igreja.  msutu, mas fala bem o zulu. Ser para ela
uma honra hospedar um padre em sua casa.  barato. Apenas trs xelins por semana, e pode l comer com o pessoal da Misso. L tocou a sineta! Quer lavar as mos?

Lavaram as mos numa casa de banho moderna, com um lavatrio branco, gua quente e fria, toalhas
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 j velhas mas muito alvas, alm duma moderna bacia sanitria, junto da qual pendia uma corrente. Ao puxar por esta, a gua precipitava-se pela bacia abaixo com
um rudo tal que parecia que tudo se partia. Era de assustar quem no soubesse de antemo o que eram aquelas coisas.

Entraram para uma sala onde estava posta a mesa e onde ele viu muitos padres, brancos e negros, junto dos quais se sentou para comer. Atrapalhou-se um pouco com
a quantidade de pratos, de facas e de garfos, mas observou como faziam os outros e imitou-os.

Picou junto dum padre chegado de Inglaterra, de faces rosadas, que lhe perguntou donde viera e como era aquilo por l. E um outro padre negro gritou-lhe:

- Eu tambm sou de Ixopo, onde meus pais ainda vivem, no vale de Lufafa. Como est por l aquilo?

E ele falou-lhes daqueles lugares, dos grandes montes e vales daquelas regies distantes. E deve t-lo feito com emoo, pois os outros escutavam-no silenciosos
e com ateno. Falou-lhes tambm da doena da terra, contou-lhes como a erva tinha desaparecido como as dongas corriam dos montes para os vales e dos vales para
os montes; disse-lhes que era uma terra de velhos e velhas, de mes e de crianas, que o milho mal atingia a altura dum homem; que a tribo se desfazia, a casa rua,
os homens falhavam, que, quando se ausentavam, nunca mais regressavam e muitos nem sequer davam notcias. Que tudo isto era assim no s em Ndotsheni, mas tambm
em Lufafa, em Imhlavini, em Umkomaas,
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 em Umzimkulu.

Mas de Gertrudes e de Absalo nada disse. Depois falaram todos da doena da terra, da runa da tribo, da runa da casa, da mocidade, rapazes e raparigas que se ausentaram,
esqueceram as tradies e viviam uma vida de vcio e de indolncia. Falaram dos criminosos infantis, dos criminosos adultos, mais perigosos, do medo que em Johannesburg
inspiravam os criminosos negros. Um deles foi buscar um jornal, o

; Johannesburg Mail, e mostrou-lhe o ttulo de uma
 notcia em grandes letras negras:

UM CASAL DE VELHOS AGREDIDO E ROUBADO NUMA CASA SOLITRIA. QUATRO INDGENAS PRESOS

- Isto acontece quase todos os dias -disse ele.
- E no so s os europeus que andam cheios de medo; ns tambm  temos  medo,  mesmo   aqui  em Sophiatown. Ainda no h muito tempo que uma quadrilha de jovens
criminosos  atacou  uma rapariga africana das nossas, roubando-lhe a mala de mo e o dinheiro. Se no acudissem pessoas das casas vizinhas, t-la-iam violado.

- Tem muito que aprender aqui - disse o padre de faces rosadas. - No  s nos seus stios que h misria. Havemos de voltar a falar. Gostava -de o ouvir contar
mais coisas da sua terra, mas agora tenho de sair.

Despediram-se ento e Msimangu conduziu o hspede at ao seu prprio quarto.
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- Temos muito que conversar - disse. Entraram para o quarto, e, depois de Msimangu
fechar a porta e de se sentarem, Kumalo foi o primeiro a falar:
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- Desculpe a minha pressa, mas estou ansioso por saber o que se passa com a minha irm.

- Sim, sim - tornou o outro. - Compreendo a sua ansiedade e talvez o senhor me julgue descuidado. Mas permita-me que lhe faa primeiro uma pergunta. Porque  que
ela veio para Johannesburg?

Kumalo, embora confuso pela pergunta, respondeu humildemente:

- Veio  procura do marido, que tinha vindo contratado para as  minas e nunca mais  voltou  nem escreveu.   Ento ela pegou no filhinho e veio procur-lo.

E, como Msimangu nada dissesse, perguntou ansiosamente :

- Ela est muito doente? Msimangu respondeu gravemente:

- Sim, ela est muito doente. Mas no  doena das que julga.  outra, a pior das doenas. Chamei-o a si, em primeiro lugar, porque ela  uma mulher e  s e, em
segundo lugar, porque tem um irmo padre. No sei se ela chegou a encontrar o marido, mas agora no est com ele...

Fitou Kumalo e concluiu:

- Ser mais exacto dizer que ela agora tem muitos maridos.

Kumalo exclamou:

- Tixo! Tixo!

- Vive em Claremont, no longe daqui.  um dos piores lugares de Johannesburg. Em seguida a uma rusga da polcia, qualquer pessoa pode ver o lcool a correr pelas
ruas  Por onde quer que se passe, s se sente o cheiro do lcool.

i Na frica do  Sul   proibido  aos indivduos  da  raa
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   negra o consumo ou o comrcio de bebidas alcolicas. (N. T.).

Inclinou-se para Kumalo e continuou:

- Eu costumava beber, mas bebidas ss, como as que os nossos pais faziam. Mas agora jurei no voltar a tocar no lcool. Aqui s h bebidas reles, alcoolizadas, com
toda a casta de ingredientes que o nosso povo nunca usou.   esse o trabalho de sua irm: fabric-las e vend-las. No devo ocultar-lhe nada, embora isso me seja
penoso. Essas mulheres dormem com qualquer homem que lhes pague o que elas pedem. Na casa dela j foi morto um homem. Jogam, bebem e esfaqueiam-se. Ela prpria j
esteve na cadeia por mais de uma vez.

Encostou-se para trs na cadeira e brincou com um livro que estava em cima da mesa.

- So terrveis notcias para si - acabou por dizer.

Kumalo abanou a cabea silenciosamente e Msimangu puxou dos cigarros.

- Fuma?

Kumalo acenou negativamente e respondeu:

- No fumo.

-- s vezes o fumar acalma-nos. Mas deveria haver outra maneira de o homem conseguir tranquilidade, para poder depois fumar e goz-la. Mas aqui em Johannesburg 
difcil, muitas vezes, encontrar tal tranquilidade.

- Em Johannesburg? Em toda a parte  o mesmo. A graa de Deus abandona-nos.

Caram num grande silncio, como se houvesse sido dita uma palavra que tornasse difcil proferir outra.

Por fim, Kumalo perguntou:

- Onde est a criana ?

- A criana est l, mas aquilo no  lugar para
 35
crianas. Foi tambm por isso que lhe pedi que viesse. Talvez que, se no se puder salvar a me, se possa salvar o filho.

- Onde fica isso?

- No  longe daqui. Lev-lo-ei l amanh.

- Eu tenho outro grande desgosto.

- Se v que pode dizer-mo...

- Terei um grande alvio se lhe contar tudo. Mas permaneceu em silncio, tentando falar sem
o conseguir, o que fez que Msimangu lhe dissesse:

- Esteja  vontade, meu irmo.

- No  fcil.  o nosso maior desgosto.

- Um filho, talvez? Uma filha?

- Sim, um filho.

- Sou todo ouvidos.

- Chama-se   Absalo.   Tambm   ele  partiu   em busca de minha irm,  mas nunca mais  voltou  e, passado pouco tempo,  deixou  de dar notcias.  As nossas cartas,
as da me e as minhas, foram todas devolvidas. E agora, depois de tudo o que me disse,  maior o meu receio.

- Trataremos de o encontrar, meu irmo. Talvez sua irm saiba dele. Mas o senhor est cansado; vou lev-lo ao quarto que lhe arranjei.

- Sim, ser melhor. Levantaram-se e Kumalo disse:

- Costumo fazer as minhas oraes na igreja. Quer ensinar-me onde fica?

- Fica a caminho.

- Talvez queira rezar por mim - disse Kumalo com humildade.

- Com todo o prazer o farei. Eu tenho, evidentemente,
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  as minhas obrigaes a cumprir, meu irmo,

mas, durante todo o tempo que aqui estiver, estou ao seu inteiro dispor.

- O senhor  bom

Havia algo de tocante na sua voz humilde, pois Msimangu respondeu-lhe:

- No, no sou bom. Sou um egosta e um pecador, mas Deus tocou-me com as suas divinas mos, e  tudo.

Agarrou no saco de Kumalo, mas, antes de chegarem  porta, este f-lo parar.

- Tenho mais uma coisa a dizer-lhe.

- Que ?

- Tenho tambm um irmo, aqui em Johannesburg, que nunca mais deu notcias. Chama-se Joo Kumalo e  carpinteiro.

Msimangu sorriu e disse:

- Conheo-o. Tem muito que fazer para poder lhescrever.  um dos nossos grandes polticos.

- Poltico? O meu irmo?

- Sim,  uma grande figura na poltica.
E, depois de uma pausa, Msimangu continuou:

- O meu desejo  no o magoar mais. Mas o seu  irmo abandonou a Igreja por completo. Diz que o
que Deus no fez pela frica do Sul devem os homens |faz-lo.  o que ele diz.       - Que amargurada viagem a minha!

- Tambm creio.
- O meu receio, s vezes... Que dir o bispo ao
 saber destas coisas? Um dos seus procos...

- Que ho-de dizer os bispos? Alguma coisa se passa que nenhum bispo pode impedir. Alguma coisa que deve seguir o seu curso.

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- Como pode dizer semelhante coisa? Como pode o senhor dizer que isso deve seguir o seu curso?

- Assim   - volveu   Msimangu   gravemente. O senhor no pode impedir que o mundo marche. Meu amigo, eu sou cristo. No h lugar no meu corao para dio ao Branco.
Foi um homem branco que arrancou meu pai das trevas. Mas perdoe-me que lhe fale francamente. A tragdia no  o facto de as coisas se terem despedaado. A tragdia
 elas no estarem ainda recompostas. O Branco destruiu a tribo e  minha convico, peo-lhe novamente perdo, que ela no pode ser reconstruda. Mas a casa que
ruiu, o homem que caiu para o lado quando a casa ruiu, isso, sim, so as coisas trgicas. Por isso as crianas violam a lei e os velhos brancos so roubados e agredidos.

Passou a mo pela testa   e prosseguiu   gravemente:

- Agradou ao Branco despedaar a tribo, mas no lhe agrada construir qualquer coisa para substituir o que foi destrudo. Tenho reflectido nisto largas horas e devo
diz-lo, porque  verdade para mim. Eles no so todos assim. H alguns brancos que sacrificam a vida para reparar o que foi arruinado. Mas no so bastantes. E
a verdade  que tm medo, pois  o medo que governa esta terra.

Sorriu com um ar de quem pede desculpa e continuou:

- So muitas coisas para falarmos delas agora. Requerem uma conversa longa e sem pressas. Hei-de trazer-lhe o padre Vicente para   lhas   explicar.    branco e
pode dizer tudo o que se deve dizer;    aquele que tem cara de menino e que quer saber

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mais coisas a respeito da sua terra.

- Sim, lembro-me dele.

- Eles do-nos muito pouco - tornou Msimangu sombriamente. - No nos do quase nada. Venha, vamos para a igreja.

- Sr.a Lithebe, aqui trago o meu amigo, o reverendo Stephen Kumalo.

- Seja bem-vindo, umfundisi. O quarto  pequeno, mas limpo.

- Certamente.

- Boa noite, irmo. V-lo-ei amanh na igreja, s sete horas?

- Com certeza.

- Depois virei busc-lo para o almoo. Fique em bem, irmo. Fique em bem, Sr.a Lithebe.

- V em bem, meu irmo.

- V em bem, umfundisi.

Ela, ento, conduziu-o ao quartinho limpo e acendeu uma vela.

- Se precisar de alguma coisa, chame, umfundisi.

- Muito obrigado.

- Durma bem, umfundisi.

- Durma bem, me.

Parou um momento no meio do quarto. Quarenta e oito horas antes, ele e sua mulher estavam a arranjar o saco na longnqua Ndotsheni. Vinte e quatro horas antes, o
comboio, com a gaiola  cabea, atroava com o estrpito da sua corrida uma regio nunca vista. E agora, l fora, o tumulto e o movimento do povo, mas para alm deles
podia ouvir-se o rugido de uma grande cidade.

Johannesburg! Johannesburg!

Quem o acreditaria?
7
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Claremont no fica longe. Os bairros so pegados: Sophiatown, onde se pode ser proprietrio, o Bairro Indgena Ocidental, que pertence ao Municpio de Johannesburg,
e claremont, o monte de lixo da orgulhosa cidade. Os trs bairros ligam-se a ocidente e a nascente, respectivamente, pelos distritos europeus de Newlands e Westdene.

-  uma pena! - dizia Msimangu. - No sou partidrio da segregao, mas  uma pena que no estejamos separados.  Partem autocarros do centro da cidade, uns destinados
aos europeus e outros a ns. Mas somos frequentemente expulsos dos nossos por jovens desordeiros. E os jovens desordeiros da nossa raa esto tambm sempre prontos
a arranjar complicaes.

- Mas as autoridades consentem isso?

- No, no consentem. Mas no podem exercer vigilncia em todos os autocarros, e, se se arma uma zaragata, quem  que sabe como comeou e quem  que diz a verdade?
 uma pena que no estejamos separados. Olhe, v este grande prdio?  a sede do Bantu Press, o nosso jornal. Claro que tambm l h europeus, e por isso o jornal
 moderado, no diz tudo o que podia dizer. Seu irmo Joo no liga importncia ao Bantu Press. Ele e os amigos chamam-lhe o Bantu Repress 1.

Continuaram a caminhar at Claremont e ali Kumalo impressionou-se com a sordidez e a imundcie, a aglomerao das casas e a porcaria nas ruas.

i    Trocadilho proveniente do significado dos dois termos em ingls: press significa imprensa e repress significa reprimir.
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V aquela mulher, meu amigo ?

- Sim, vejo.

-  uma das rainhas das vendedoras de lcool. Dizem que  uma das mais ricas da nossa raa em Johannesburg.

- E estas crianas ? Porque no esto na escola ?

- Algumas porque no se interessam, outras por desleixo dos pais, mas a maior parte porque as escolas esto cheias.

Desceram a Rua do Lrio e voltaram para a Rua do Jacinto. Os nomes das ruas so ali muito poticos.

-  aqui, meu irmo. Nmero onze. O senhor entra sozinho?

-  melhor.

- Quando acabar, encontra-me na porta a seguir, nmero treze. H l uma mulher da nossa igreja, uma boa mulher que,  juntamente  com  o  marido, se dedica a educar
crianas. Mas  uma tarefa rdua. A filha mais velha, que eu preparava para a confirmao, fugiu de casa e foi viver para Pimville com um jovem vadio. Bata  porta,
que l me encontrar.
7
Ouviam-se risadas no interior da casa, aquela espcie de risadas de que se tem medo, talvez porque j se est com medo antes, ou ento porque , na verdade, um riso
mau. Uma voz de mulher misturava-se com as vozes de vrios homens.

Mas ele bateu e ela abriu.

- Sou eu, minha irm.

Havia, sem dvida, medo nos olhos dela. Recuou um passo e no fez nenhum movimento para o irmo. Voltou-se e disse qualquer coisa que ele no pde ouvir. Arrastaram-se
cadeiras e esconderam-se outras coisas.
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Ela ento voltou-se para ele:

- Estou a arranjar-me, meu irmo.

Ficaram a olhar um para o outro, ele ansioso, ela medrosa.

Ela tornou a voltar-se, olhando para o quarto. Fechou-se uma porta e ela disse:

- Entra, meu irmo.

E s ento lhe estendeu a mo. Estava fria e hmida, sem vida.

Sentaram-se e ela ficou calada.

- C estou - disse ele.

- Isso d-me prazer.

- Tu no escreveste.

- No, no escrevi.

- Onde est o teu marido?

- No o encontrei, meu irmo.

- Mas nada disseste.

- Sim,  verdade.

- No sabias que estvamos preocupados?

- No tinha dinheiro para escrever.

- No tinhas dois pence para o selo ? Ela calou-se, sem ousar fit-lo.

- Mas ouvi dizer que estavas rica.

- No, no estou rica.

- Disseram-me que estiveste na cadeia.

- Sim, de facto, isso  verdade.

- Por causa de bebidas ?

Uma onda de energia percorreu-a toda.  preciso que faa alguma coisa, que no continue calada. Protestou ento a sua inocncia, dizendo que a culpada era uma outra
mulher.

- Tu vivias com essa mulher?

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 -Vivia.

-Porqu?

- No tinha para onde ir.

- E ajudava-la no negcio?

- Tinha de arranjar dinheiro para sustentar o menino.

- Onde est a criana?

Ela olhou em volta, vagamente. Levantou-se e saiu para o ptio. Chamou, e a sua voz, outrora to doce, tinha agora um som estranho, o som das gargalhadas que ele
ouvira dentro da casa. Ela revela-se.

- Mandei procurar o menino - disse ela.

- Onde est ele?

- Foram-no buscar - tornou ela.

Lia-se-lhe um certo embarao no olhar e ficou de p, tamborilando com os dedos na parede. Uma onda de clera cresceu dentro dele.

- Onde  que eu durmo? - perguntou.

Nos olhos dela, o medo no engana. Agora vai revelar-se, mas a clera domina o irmo e ele no espera.

- Encheste-nos de vergonha! - disse ele em voz baixa, com receio de ser ouvido l fora. - Uma vendedora de lcool, uma prostituta, com um filho e sem saber onde
ele pra! E com um irmo padre! Como pudeste fazer isso?

Ela fitava-o sombriamente, como um animal torturado.

- Vim aqui para te levar.

Ela caiu no cho, aos gritos, que se tornavam cada vez mais agudos. No tem vergonha.

- Repara que podem ouvir-te - recomendou ele vivamente.

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Ela tentava reprimir os soluos.

- Queres voltar comigo ?

Ela acenou afirmativamente e exclamou:

- No gosto de Johannesburg. Sinto-me c doente e o meu filho tambm.

- Desejas sinceramente voltar?

De novo ela acena que sim e solua. Olha-o cheia de angstia e o corao dele bate de esperana.

- Sou uma m mulher, meu irmo. J no sou mulher para voltar.

Os olhos do padre encheram-se de lgrimas e a sua profunda bondade tomou-o de novo inteiramente.

- Deus  todo perdo. Quem sou eu para no perdoar? Vamos rezar.

Ajoelharam-se e ele rezou, to de mansinho que nenhum vizinho o podia ouvir, e ela rematava as oraes com amns. Quando acabaram, ela desfez-se numa torrente de
pranto, de acusaes a si prpria e de arrebatadas preces. E, assim reconciliados, sentaram-se de mos dadas.

- E agora - disse ele - peo a tua ajuda.

- Que queres, meu irmo?

- O meu filho; sabes alguma coisa dele?

- Ouvi falar dele, irmo. Sei que trabalhava em qualquer grande fbrica, em Johannesburg, e que morava em Sophiatown. Onde, no sei ao certo. Mas conheo algum
que deve saber. O filho do nosso irmo Joo e o teu filho andavam muitas vezes juntos. Ele deve saber.

- Irei l perguntar. E agora, minha irm, vou ver se a Sr.a Lithebe tem quarto para ti. Tens muitos mveis?

- Muitos, no. Esta mesa,  estas  cadeiras e  a cama, alguns pratos e panelas.  tudo.

- vou  arranjar  algum  que  os  venha  buscar. Estars pronta?

- Aqui est o menino, meu irmo. Conduzido por uma rapariga mais velha, entrou

na sala o seu sobrinho. Esfarrapado e ranhoso, com o dedo na boca, o garoto fitava o tio, de olhos muito abertos.

Kumalo pegou-lhe ao colo, assoou-o, beijou-o e acariciou-o.

- Ser melhor para ele - disse -, pois vai para um lugar onde ter bom ar e uma boa escola.

- Ser melhor - concordou ela.

- Tenho de ir - disse ele. - H muita coisa a fazer.

Saiu para a rua e os vizinhos olhavam-no com curiosidade. Fora um umfundisi que l estivera! Encontrou-se com o amigo, contou-lhe o que se passara e pediu-lhe que
arranjasse algum que fosse buscar a irm, o pequeno e a moblia.

- Vamos j tratar disso - respondeu Msimangu. - Sinto-me feliz pelo seu xito, meu amigo.

- Tirei um grande peso do meu esprito. Praza a Deus que seja to bem sucedido no resto.

Foi busc-la com uma camioneta nessa tarde, no meio de uma multido de vizinhos curiosos, que discutiam o caso em voz alta e abertamente, uns aprovando, outros soltando
aquelas estranhas gargalhadas das cidades.

Sentiu-se cheio de alegria quando viu a camioneta carregada e partiram. 45
A Sr." Lithebe mostrou-lhes o quarto e, logo que Kumalo saiu para a Misso, deu de comer  me e ao filho.

E nessa noite fizeram as suas oraes na sala de jantar, rematadas com amns pela Sr." Lithebe e por Gertrudes.

Kumalo sentia-se alegre e jovial como um rapaz, o que h muitos anos lhe no sucedia.

      Um dia em Johannesburg, e estava j a tribo a ser reconstruda, o lar e a alma a serem restaurados.

O vestido de Gertrudes, por muito rica que ela alguma vez tivesse sido, estava imundo e a negra gorra de malha que usava to sebenta que ele se sentia envergonhado.
Embora tivesse pouco dinheiro, comprou-lhe um vestido vermelho e, para a cabea, uma coisa branca a que chamavam turbante. Para o garoto comprou uns cales, uma
camisola e dois lenos grandes para a me o assoar. Tinha no bolso a caderneta dos Correios com o depsito de dez libras poupadas por ele e pela mulher para a compra
de um fogo, que ela, como todas as mulheres, h tanto tempo desejava. Para economizar dez libras com um vencimento de oito por ms so precisos muita pacincia
e muito tempo, especialmente quando se trata dum padre, que deve usar bons fatos pretos. Os colarinhos estavam escuros e pudos, mas esperariam mais um tempo. Era
uma pena ter de gastar as dez libras, mas os comboios no transportam de
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 graa e cobrariam, de certeza, uma ou duas libras
pelas coisas dela. Era estranho que ela no tivesse poupado nada no seu escuro negcio, que tanto lucro dava, segundo se dizia.

Gertrudes ajudava a Sr." Lithebe e ele ouvia-a cantar baixinho. O garoto brincava no ptio com pedaos de tijolo e de madeira que um pedreiro l deixara. O sol brilhava
e at nesta grande cidade havia pssaros, pardalitos que chilreavam e saltitavam no ptio.

Mas eis Msimangu, que subia a rua.

Ps de lado a carta que escrevia  mulher, onde lhe falava da viagem de comboio, da grande cidade de Johannesburg, do rapaz que lhe roubara a libra, da rapidez com
que encontrara Gertrudes, da alegria que lhe causava o garoto e, principalmente, das buscas a que ia proceder nesse dia para encontrar o filho.

- Est pronto, meu amigo?

- Estou pronto, sim. Estava a escrever a minha mulher.

- Embora a no conhea, peo que lhe apresente os meus cumprimentos.

Subiram a rua, desceram por outra e voltaram a subir por outra. Era bem verdade o que se dizia: que se podia caminhar durante toda a vida sem se passar na mesma
rua duas vezes.

- Aqui est a loja de seu irmo. Veja o nome dele.

- Sim, estou a ver.

- Quer que v consigo ?

- Talvez seja melhor.

O irmo Joo estava sentado numa cadeira, falando para dois homens. Engordara e descansava as mos nos joelhos, como um chefe. No o reconheceu,
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porque a luz da rua dava nas costas dos visitantes.

- bom dia, meu irmo. - bom dia, senhor.

- bom dia, meu verdadeiro irmo, filho da nossa me.

Joo Kumalo olhou-o atentamente e levantou-se com um grande e cordial sorriso.

- O meu prprio irmo! Ora quem havia de dizer?! Que fazes em Johannesburg?

Kumalo olhou para os dois homens e respondeu:

- Vim em negcios.

- Estou certo de que os meus amigos me desculparo.  que  o meu verdadeiro irmo, o filho da nossa  me,  que  acaba  de  chegar.

Os dois homens levantaram-se e fizeram as despedidas.

- Conheces o reverendo Msimangu, meu irmo?

- Toda  a   gente  o   conhece;   o   reverendo  Msimangu  conhecido de toda a gente. Sentem-se, meus senhores. Acho que devemos tomar ch.

Foi at  porta e chamou para dentro. . - A tua mulher, Ester, est bem, meu  irmo? Joo Kumalo mostrou o seu alegre e astuto sorriso.

- Minha mulher deixou-me h uns dez anos.

- E casaste outra vez?

- Bem... no  o que a Igreja chama um casamento, compreendes? Mas  ela    uma boa  mulher.

- Nunca escreveste a contar essas coisas, irmo. - No. Para que escrever? Vocs em Ndotsheni
no compreendem a maneira de viver de Johannesburg. Pensei que era melhor no escrever.

- E foi por isso que deixaste de dar notcias? -Bem...   bem...   Sim,  foi   por  isso.   Complica-

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  es, irmo, complicaes desnecessrias.

- Mas eu no compreendo. Como  que a vida em Johannesburg  diferente?

- Bem...  difcil de dizer. No te importas que eu fale em ingls? Explico melhor essas coisas em ingls.

- Fala ento em ingls, irmo.

- Compreendes... Aprendi muito em Johannesburg.  Isto no  como Ndotsheni.    preciso viver aqui  para se  compreender.

Olhou para o irmo e continuou:

- H qualquer coisa de novo que est acontecendo aqui.

No se sentou, mas comeou a falar numa voz estranha. Passeava ao longo da sala e olhava atravs da janela, para o tecto, para os cantos da casa, como se esperasse
ver ali alguma coisa que devesse mostrar.

- L em baixo, em Ndotsheni, eu no sou ningum, tu mesmo no s ningum, meu irmo. Seria um sbdito do chefe, que  um homem ignorante. Teria de cumpriment-lo,
de fazer-lhe reverncias, sendo ele um homem sem educao. Aqui em Johannesburg sou  um homem de certa importncia,  de alguma   influncia.   Tenho   um   negcio
por  minha conta e, quando corre bem, fao dez ou doze libras por semana.

Comeou a balanar-se de um lado para outro; no falava para eles, falava para outra gente que ali no estava.

- Eu no digo que  sejamos  livres  aqui,  livres como os homens devem ser, mas, pelo menos, estou livre do chefe; pelo menos, estou livre de um homem velho e ignorante
que no  seno o co do
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homem branco. No  mais que um artifcio do Branco para manter qualquer coisa que deseja ver perdurar.

Sorriu-se com o seu sorriso astuto e, por um momento, dirigiu-se aos visitantes:

- Mas  essa  coisa  no  est  a  ser  mantida.   A vossa sociedade, a da tribo, cai aos pedaos.  aqui em  Johannesburg que se  est  construindo  a  nova sociedade.
H qualquer coisa que est acontecendo aqui, meu irmo.

Calou-se por um momento e prosseguiu:

- Eu no quero ofend-los, meus senhores, mas a Igreja  tambm como o chefe. Vs sois obrigados a fazer isto e mais aquilo, desta e daquela maneira. No tendes
liberdade para fazer uma experincia. Deveis  ser  crentes,  humildes   e  obedientes,   deveis acatar as leis, sejam elas quais forem.  certo que a  Igreja  tem
belas  palavras  e  os  bispos  clamam contra as leis. Mas h cinquenta anos que o fazem e as coisas pioram em vez de melhorarem.

Aumentando  o  volume  da  voz,  dirigia-se  novamente a um pblico que ali no estava:

- Aqui em Johannesburg h as minas. Tudo so minas. Estes enormes edifcios, este maravilhoso edifcio dos Paos do Concelho, o encantador bairro de Parktown, com
as suas lindas casas, tudo isto foi feito com o ouro das minas. Este admirvel hospital para europeus, o maior hospital ao sul do equador, foi construdo com o ouro
das minas.

A voz alterou-se-lhe, subindo de tom, mais parecendo a voz dum touro ou dum leo:

- Vo ao nosso hospital e vero os nossos irmos deitados pelo cho, to juntos que se no pode passar.

50   Mas so eles que cavam o ouro. Por trs xelins
por dia! Ns vimos do Transkei, da Bassutolndia, da Bequanalndia, da Suazilndia, da Zululndia. E de Ndotsheni tambm. Vivemos em casas de malta e somos obrigados
a deixar l longe as nossas mulheres, as nossas famlias. E quando se descobre mais ouro, nem por isso nos pagam mais pelo nosso trabalho. As aces dos Brancos
 que sobem de valor; podeis ler isso em todos os jornais. Eles endoidecem quando se descobre mais ouro; trazem mais gente da nossa para viver em casas de malta,
para cavar debaixo do cho por trs xelins por dia. Nunca lhes ocorre que h ento uma oportunidade para nos pagarem mais pelo nosso trabalho. Pensam somente que
tm mais uma oportunidade para fazerem uma casa maior, para comprarem um automvel melhor.  uma coisa excelente descobrir ouro, dizem eles, porque toda a frica
do Sul assenta nas minas.

Rouquejava, e a voz tornou-se-lhe mais profunda, como o ribombar do trovo:

- Mas isto no assenta nas minas; est assente nas nossas costas, foi feito com o nosso suor, com o nosso trabalho. Fbricas, teatros, casas vistosas, tudo foi feito
por ns. E que sabe o chefe a este respeito? Mas aqui em Johannesburg sabe-se.

Parou e conservou-se silencioso. Os visitantes ficaram tambm calados, porque havia qualquer coisa naquela voz que a isso os obrigava. E Stephen Kumalo sentou-se
em silncio, pois era um novo irmo, este que ele via.

Joo Kumalo fitou-o e continuou:

- O bispo diz que isto vai mal, mas vive numa casa enorme e os seus padres brancos ganham quatro, cinco, seis vezes o que tu ganhas, meu irmo,  si
Sentou-se e tirou um grande leno vermelho para enxugar o rosto.

- Esta  a minha experincia.  por isso que j no vou  igreja.

- E foi por isso que no voltaste a escrever?

- Sim, talvez tivesse sido esse o motivo.

- Esse...  e a tua mulher Ester?

- Sim, sim, talvez os dois. Era difcil explicar por carta. Os nossos costumes aqui so diferentes,

E logo Msimangu arriscou:

- H aqui quaisquer costumes ? Joo Kumalo fitou-o e respondeu:

- H aqui qualquer coisa de novo que est crescendo. Mais poderosa que a Igreja ou o chefe. Um dia v-lo-.

- E a tua mulher? Porque te deixou ela?

- Bem...-respondeu Joo Kumalo com o seu sorriso sabido - ela no compreendia a minha experincia.

- Quer   dizer - disse   Msimangu   friamente que ela acreditava na fidelidade.

Joo fitou-o com desconfiana e murmurou:

- Fidelidade...

Mas Msimangu viu rapidamente que ele no compreendia. E acrescentou:

- Talvez devssemos voltar a falar zulu.

No seu grande pescoo de touro as veias entumeceram, e quem sabe que palavras de furor no teriam sido proferidas se Stephen Kumalo no interviesse rapidamente:

- C est o ch, meu irmo.  muito amvel da tua parte.

A mulher no foi apresentada, embora andasse
52 em volta, servindo o ch.

Quando ela saiu, Kumalo dirigiu-se ao irmo:

- Escutei-te com  ateno,  meu  irmo.  Afligiu-me bastante muito do que disseste, em parte pela maneira como o  disseste,  em  parte  porque muita coisa  verdade.
E agora tenho uma pergunta a fazer-te. Devo dizer-te, em primeiro lugar, que a Gertrudes est agora comigo; vai voltar para Ndotsheni.

- Bem...  Bem...  No digo que isso seja mau. Johannesburg no  lugar para uma mulher sozinha. Eu mesmo tentei convenc-la, mas ela no concordou e nunca mais nos
vimos.

- E agora eis a pergunta: onde est o meu filho?

Nos olhos de Joo lia-se a perturbao que o assaltou. Tirou de novo o leno do bolso.

- J ouviste dizer, sem dvida, que ele tem sido amigo do meu filho.

- Sim, j ouvi.

- Bem. Tu sabes o que so rapazes; eu no os censuro inteiramente. Bem vs, o meu no se dava com a segunda me. A razo nunca a descobri. Tambm se no dava com
os filhos dela. Muitas vezes tentei harmoniz-los, mas em vo. Por isso, resolveu ir-se embora. Tinha bom emprego e no o impedi de ir. E o teu filho foi com ele.

- Para onde, meu irmo?

- No sei bem, mas ouvi dizer que tinham um quarto em Alexandra...  J sei!  Trabalhavam juntos na mesma fbrica, segundo creio. Espera, vou ver na lista dos telefones.

Dirigiu-se a uma mesa onde Kumalo viu um telefone. Sentiu uma certa vaidade por ser irmo de uma pessoa que possua tal objecto. 53
- Aqui   est!   Doornfontein   Textiles   Company, Rua Krause, n." 14. vou escrever-te a direco, meu irmo.

- No   lhes   poderemos   telefonar? - perguntou Kumalo timidamente.

O irmo riu-se:

- Para qu? Para perguntar se Absalo Kumalo trabalha l? Ou para pedir que o chamem ao telefone? Ou para eles nos darem o seu endereo? Eles no fazem essas coisas
por um preto, meu irmo.

- No   tem   importncia -- disse   Msimangu. Disponha de mim para tudo, meu amigo.

Despediram-se e saram para a rua.

- Aqui tem!

-  verdade.

- O seu irmo  uma grande figura neste bairro. O estabelecimento est sempre cheio de homens que falam como o senhor viu. Mas dizem que onde se deve ir ouvi-lo
 aos comcios, a ele, a Dubula e a um mulato  chamado Tomlinson.  Dizem  que  berra como um touro, ruge como um leo e podia, se quisesse, enlouquecer o auditrio.
Mas para tanto dizem que no tem coragem,  porque com  certeza  o  metiam na cadeia.

E Msimangu continuou:

- Devo declarar-lhe que algumas das afirmaes que ele fez so verdadeiras.

Parou no meio da rua e disse serena e solenemente ao companheiro:

- Porque o Branco tem poder, ns tambm queremos ser poderosos. Mas quando um homem de cor adquire poder, quando arranja dinheiro, torna-se um grande homem se no
se corrompe. Tenho verificado
54
  isso inmeras vezes. O Preto procura poder e dinheiro para endireitar o que est torto, mas, quando os consegue, goza o poder e o dinheiro. Pode ento dar largas
 cobia, beber bebidas dos Brancos, falar para milhares de pessoas  espera de aplausos. Muitos de ns pensamos que quando conquistarmos o poder nos vingaremos
dos brancos que o detinham s para eles. Mas, porque o nosso desejo  depravado, ns corromper-nos-emos e o poder no ter sentido. Mas muitos brancos no sabem
estas verdades acerca do poder e tm medo que lho arrebatemos. Falava como se estivesse pondo uma tese em discusso :

- Sim!   muito bom o poder. Mas h s uma coisa que d o poder absoluto:    o amor. Porque quando um homem tem amor, no procura ter poder, e, no entanto,  poderoso.
Vejo s uma esperana para a nossa terra:  quando o Branco e o Preto, no desejando nem poder nem dinheiro, mas somente  o bem  da sua  ptria,  trabalharem juntos
por ela.

Tornou-se   grave   e   solene   e   concluiu   sobriamente :

- Oprime-me o corao um grande medo: receio que, quando um dia eles se virarem para o amor, nos encontrem virados para o dio.

- No  este o caminho para Doornfontein. Vamos, temos de nos despachar.

Kumalo seguiu-o em silncio, oprimido por aquelas graves e solenes palavras.

Mas   no   foram   felizes   em   Doornfontein,   embora ali fossem atendidos atenciosamente pelos   55

homens brancos. Msimangu sabia tratar com eles e, aps inmeras pesquisas, chegaram  concluso de que Absalo Kumalo tinha desaparecido dali cerca de um ano antes.

Um deles lembrava-se de que Absalo fora amigo de um dos seus operrios, de nome Dhlamini. Chamado este, disse-lhes que, na ltima vez que ouvira falar do amigo,
soubera que ele estava a viver em casa da Sr.a Ndlela, em Sophiatown, End Street, rua que separa Sophiatown do bairro europeu de Westdene. Que no estava certo,
mas julgava que o nmero da casa era 105.

Voltaram ento para Sophiatown, e de facto encontraram a Sr.:> Ndlela em End Street, n.o 105. Esta recebeu-os com serena amabilidade, enquanto os filhos se lhe escondiam
atrs da saa, espreitando os visitantes.

Mas Absalo j ali no estava, segundo disse. Que esperassem, porm, pois tinha recebido dele uma carta a pedir-lhe as coisas que l deixara.

E, assim, enquanto Kumalo brincava com as crianas e Msimangu falava com o marido, ela foi buscar uma caixa grande cheia de papis e de bugigangas, na qual procurou
a carta.

Enquanto procurava, Msimangu observava-lhe o rosto bondoso e cansado e viu-a parar por um momento e lanar a Kumalo um olhar meio curioso, meio de piedade.

Por fim encontrou a carta e mostrou-lhes o endereo: ao cuidado da Sr.a Mkize, Vigsima Terceira Avenida, 79, Alexandra.

Tiveram ento de aceitar uma chvena de ch, e era j noite quando se levantaram. Como Kumalo
sasse  frente com o marido, Msimangu perguntou  mulher porque olhava com comiserao para o seu amigo.

Ela baixou os olhos e levantou-os de novo.

- Ele  um umfundisi - disse.

- Sim, .

- Eu no gostava dos amigos do filho dele. E meu marido tambm no. Foi por isso que ele saiu c de casa.

- Compreendo. Mas que aconteceu de mau?

- Nada. Nada vi de mau. Mas no gostava dos amigos dele.

A sua fisionomia era honesta  e  aberta  e  no voltou a baixar os olhos. - Boa noite, me.

- Boa noite, umfundisi.

L fora, na rua, despediram-se do marido e dirigiram-se para a Casa da Misso.

- Amanh - disse  Msimangu - temos  de  ir  a Alexandra.

Kumalo agarrou no brao do amigo:

- O que me trouxe a Johannesburg no  muito agradvel, mas sinto-me feliz com a sua companhia.

- Hum...   Hum... - gaguejou   Msimangu - temos de andar depressa, ou no chegaremos a horas do jantar.

8

Na manh seguinte, depois de terem comido na Casa da Misso, Msimangu e Kumalo dirigiram-se  estrada larga onde passam os autocarros.

- Aqui   qualquer   autocarro   nos   serve - disse Msimangu. 57
Kumalo sorriu ao ouvi-lo, pois aquilo era um gracejo a propsito do seu receio de tomar um autocarro errado.

- Todos   estes   autocarros   vo   para   Johannesburg - tornou Msimangu. - No tenha medo de se enganar.

Meteram-se ento no primeiro que apareceu, que os levou at ao local onde Kumalo perdera a libra. Atravessaram depois muitas ruas cheias de automveis, de autocarros
e de gente, at chegarem  paragem dos autocarros para Alexandra.

Aqui, porm, surgiu um obstculo inesperado, pois um homem abeirou-se deles e perguntou a Msimangu:

- Vai para Alexandra, umfundisi?

- vou, meu amigo.

- Ns estamos aqui para no o  deixarmos ir. No pela fora; bem v - apontou-, a polcia est ali de preveno; mas pela persuaso. Se o senhor se servir desse
autocarro, atentar contra a causa do povo negro. Estamos decididos a no fazer uso desses autocarros at que os bilhetes tornem a descer para quatro pence.

- Sim... de facto ouvi falar nisso. E voltando-se para Kumalo:

- Que tolice a minha, meu amigo! No me lembrei de que no havia autocarros, ou, melhor, que havia boicotagem contra eles.

- O nosso caso  urgente - disse Kumalo timidamente.

- A boicotagem tambm - respondeu o homem com delicadeza. - Eles querem que paguemos  seis

58  pence, ou seja, um xelim por dia, seis xelins por semana, e muitos de ns ganham apenas trinta e cinco Ou quarenta.

-  muito longe para se ir a p? - perguntou Kumalo.

-    uma   grande   caminhada,   umfundisi.   Onze milhas.

-  uma distncia enorme para um velho.

- Homens   mais   velhos   que   o   senhor   percorrem-na  todos  os  dias,  umfundisi.  E  tambm  mulheres,  algumas   doentes,  outras  coxas, e  crianas. Pem-se
a caminho s quatro da manh e no voltam  a  casa  antes  das  oito   da  noite.   Tasqainham qualquer coisa e, mal tm fechado os olhos na cama, ei-los   que
se   levantam   de   novo,   algumas   vezes comeando o trabalho sem nada no estmago, a no ser  gua.  Eu  no  posso   impedi-lo,  umfundisi,   de tomar o autocarro,
mas esta causa  digna de ser defendida.  Se a perdermos,  ento  pagaremos mais em  Sophiatown, em   Claremont,   em   Kliptown,   em Pimville.

- Compreendo-o  perfeitamente.  No  nos  serviremos do autocarro.

O homem agradeceu e abeirou-se de outro passageiro.

- Este homem tem uma lngua de ouro - comentou Kumalo.

 -  o clebre Dubula - respondeu Msimangu, serenamente. - Um amigo de seu irmo Joo. Dizem, desculpe-me, meu amigo, que Tomlison tem a cabea, seu irmo a voz,
mas este homem tem o corao.  de quem o Governo tem medo, porque ele prprio no tem medo de nada. Nada deseja para si. Dizem que abandonou o trabalho para fazer
este
movimento contra os autocarros e que a mulher faz o mesmo na estao de Alexandra.

-  qualquer coisa de magnfico! Johannesburg  um lugar maravilhoso.

- Esta  gente   tinha   f - continuou   Msimangu amargamente -, mas j a perdeu. Dizem, como afirmou seu irmo, que a Igreja tem palavras belssimas, mas obras
nenhumas. Bem, meu amigo, que havemos de fazer?

- Acho que devemos ir a p.

- Onze  milhas  e  outras  onze   volta.      uma grande jornada.

- Continuo na minha. O senhor compreende que estou cheio de ansiedade. Johannesburg no  lugar para um rapaz andar s.

- Muito bem. Vamos ento.

Caminharam algumas milhas atravs da cidade europeia, at TVist Street e Clarendon Circle, e desceram para Louis Botha, em direco a Orange Grove. E os automveis
e camies no cessavam em todas as direces.

Passado algum tempo, um automvel parou e um homem branco dirigiu-se-lhes:

-Para onde vo?

- Para    Alexandra,    senhor - respondeu    Msimangu, tirando o chapu.

- J tinha calculado. Subam.

Tal oferecimento caiu do Cu, e, ao apearem-se em Alexandra, manifestaram-lhe o seu reconhecimento.

-   uma caminhada enorme - disse o homem branco -, e eu sei que no h autocarros.

Pararam para o verem seguir, mas ele no continuou o seu caminho. Deu uma volta e regressou em em direco a Johannesburg.

- Hum...-comentou Msimangu. - Isto  qualquer coisa de maravilhoso.

Era ainda uma grande caminhada at  Vigsima Terceira Avenida, e, enquanto atravessavam rua aps rua, Msimangu explicava que Alexandra estava fora do termo de Johannesburg
e que l qualquer homem de cor podia comprar terras e ter casa sua. Mas as ruas estavam intransitveis, no havia iluminao e a falta de alojamento era to grande
que qualquer pessoa, desde que o pudesse fazer, construa quartos no ptio para os subarrendar por altos preos. Muitos desses quartos serviam de esconderijo a ladres
e malandrins e aumentaram a prostituio e as fabriquetas de bebidas proibidas.

- As   coisas   esto   to   ms - continuou   Msimangu - que a populao branca de Orange Grove, de Norwood e de Highlands North fez uma representao para acabar
por completo com tal lugar. Um rapaz da nossa raa arrebatou com tal violncia a carteira de uma mulher branca que ela caiu no cho e morreu do choque e do susto.
E houve o caso de uma branca que vivia sozinha numa casa, no longe daqui. Como resistiu a uns indivduos que lhe assaltaram a casa, foi assassinada. Outras vezes,
homens e mulheres brancos  param nos seus  automveis  sombra das rvores, na estrada de Pretria; rapazes da nossa raa assaltam-nos e roubam-nos, chegando mesmo
a abusar das mulheres.  certo que algumas delas   no   so   mulheres   honestas,   mas   no   ouso sequer pensar no crime de que so vtimas.

Calou-se por um momento e prosseguiu:

- Isto faz-me lembrar um caso diferente, sucedido do outro lado de Johannesburg, Numa casa isolada, na estrada de Potchefstroom, vivia um amigo
meu.  I uma  noite fria de  Inverno,  ainda a  madru-

gada   vinha   longe,   ouviu   bater      porta.   Era   uma

 mulher, uma branca, somente com uns farrapos que
 mal lhe cobriam o corpo e que ela juntava com as
| mos para esconder a nudez.  Vinha  roxa  de frio.

|I Fora um branco que lhe fizera aquilo; trouxera-a de
 automvel e, depois de se ter satisfeito, abandonou-a
||| ao frio e voltou sozinho para Johannesburg.  Pois
 bem, o tal meu amigo e a mulher trouxeram-lhe um
 vestido velho que l tinham, um velho casaco, ferveram gua para lhe fazer ch e embrulharam-na
 em cobertores. Os filhos acordaram e comearam a
 fazer perguntas, mas os meus amigos mandaram-nos
 dormir e no os deixaram ver o que se passava. Depois o meu amigo saiu e, no meio da escurido, dirigiu-se  quinta  dum branco,  no muito  longe  da
casa. Os ces eram ferozes e ele teve medo, mas no desistiu at que o branco veio ver de que se tratava. Posto ao facto do que sucedera, o branco foi buscar o automvel
e voltaram ambos para a casa do meu amigo. A mulher queria mostrar-lhes o seu reconhecimento com dinheiro, mas no o tinha. O meu amigo e a mulher disseram-lhe,
entretanto, que aquilo no era caso para receber  dinheiro.  O homem  branco ento disse por duas vezes ao meu amigo: Jy is 'n ffoeie Kaffer, isto , voc  um bom,
Kafir. O meu amigo comove-se quando fala nisto.

- Eu tambm me sinto comovido.

- Bem! Mas eu estava a falar-lhe acerca da representao. Os nossos amigos brancos opuseram-se a ela, dizendo que as coisas boas de Alexandra eram mais que as ms.
Que era j alguma coisa ter um lugar para se estar, uma casa onde educar os filhos,

   um lugar em que se tivesse o direito de dizer o que         <
se pensava, pois s assim um homem vale alguma           coisa  na  terra  onde  nasceu.   O  professor  Hoernle, !         paz  sua alma.', foi o maior combatente
em prol da nossa causa, pois tinha a cabea de Tomlinson, a voz de seu irmo e o corao de Dubula; tudo num s homem. Quando falava, no havia branco que o pudesse
contradizer.  Quando  dizia  que isto   daqui, aquilo  dali, este est  frente daquele, no havia ningum que movesse as coisas uma s polegada do stio por ele
indicado. Ingls ou africnder, nenhum alterava o que por ele era determinado. Puxou do leno e limpou o rosto.

- J falei bastante. Aqui est a casa que procuramos.

Uma mulher abriu a porta. No os cumprimentou e foi com relutncia que os convidou a entrar, depois de saber ao que vinham.

- Ento, Sr. Mkize, o rapaz foi-se embora?

- Foi, e no sei para onde.

- E quando se foi ?

- H uns poucos de meses. Talvez h um ano.

- Ele no tinha um amigo?

- Tinha; um outro Kumalo, um filho do irmo do pai. Foram-se juntos.

- E no sabe para onde ?

- Falavam  em   vrios  stios.   Mas  os   senhores bem sabem quanto esta gente nova fala.

- Como se portava ele, o Absalo ? - perguntou Kumalo.

O medo transpareceu nos olhos da mulher. Nos olhos deles passou  tambm  uma sombra de receio.

- Nunca vi nada de mau - respondeu ela.

- Mas a senhora  desconfiava  que  havia  qualquer coisa?
 63
-- No havia nada de mau - repetiu ela.

- Ento porque est com medo?

- Eu no estou com medo.

- Mas  porque treme?

- Estou com frio.

Olhou-os, carrancuda e desconfiada.

- Muito   obrigado - rematou   Msimangu. - Fique em bem.

- Vo em bem.

Na rua, Kumalo disse:

- H qualquer coisa que no est bem.

- No o nego. Meu amigo, ns os dois juntos somos  de mais. Volte ali  esquerda para a  rua grande e suba at o cimo da ladeira; h l um lugar onde se pode beber
um refresco. Espere l por mim.

Com o corao cheio de apreenses, o velho partiu e Msimangu seguiu-o com a vista at o ver desaparecer na esquina. Depois voltou para trs e dirigiu-se de novo
para a casa. A mulher abriu outra vez, com as feies to carregadas como antes, mas agora, que j se tinha recomposto, mostrava mais aborrecimento que medo.

- Eu no sou da polcia - comeou ele. - No tenho nem quero ter nada com a polcia, mas h um velho aflito porque no encontra o filho.

- Isso  mau - respondeu ela com indiferena.

-   mau - repetiu  ele - e eu no  saio  daqui sem saber o que a senhora no nos quis dizer.

- No tenho nada que dizer.

- A senhora no tem nada que dizer porque tem medo. E no est a tremer de frio.

- Ento porque tremo eu? - perguntou ela.

- Porqu, no sei. Mas no a deixo sem descobrir
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  a razo. E, se tanto for necessrio, irei  polcia.

.-  uma crueldade para uma mulher que no tem ningum por si - disse ela sentida.

-  uma crueldade para um velho que anda  procura do filho - replicou ele.

- Tenho medo - murmurou ela.

- Tambm ele tem medo. A senhora no reparou que ele tinha medo?

- Reparei, umfundisi.

- Ento diga-me:  que vida levavam aqui esses dois rapazes?

Mas ela ficou calada, de olhar medroso e as lgrimas prestes a soltarem-se-lhe. Ele via bem que seria difcil demov-la.

- Sou padre. Porque no acredita em mim? Mas  a mulher no  respondeu.

- Tem uma Bblia?

- Tenho, sim.

- Pois eu posso jurar-lhe sobre a Bblia.

Ela manteve o mesmo silncio e o padre repetiu:

- Posso jurar-lhe sobre a Bblia.

Vendo-se to assediada, ela levantou-se, ainda indecisa, e dirigiu-se a um quarto ao fundo, donde voltou pouco depois com uma Bblia.

- Sou padre - disse ele. - Quando digo sim,  sim; quando digo no,  no. Mas j que a senhora assim o quer, e porque o velho anda cheio de aflio, juro sobre
este livro sagrado que nenhum mal lhe pode suceder, pois ns apenas procuramos o rapaz. Assim Tixo me ajude! Que vida faziam eles? - perguntou.

- Traziam muitas coisas para aqui, umfundisi. Eram roupas,  relgios,  dinheiro,  comida  e muitas outras coisas.


- Alguma vez apareceram com sangue?

- Nunca lhes vi sangue, umfundisi.

- J  alguma coisa. Pouco, mas alguma coisa. E porque se foram embora?

- No  sei, umfundisi, mas julgo  que  estavam quase a ser descobertos.

- E quando  que desapareceram?

- H cerca de um ano, umfundisi, como disse h pouco.

- E agora, sobre este livro, a senhora jura que no sabe para onde foram?

Ela ia a estender a mo para a Bblia, mas ele atalhou:

- Isso no tem importncia.

Despediu-se dela e apressava-se a ir ao encontro do amigo, quando ela o chamou e disse:

- Eles eram muito amigos de Hlabeni, o chauf feur de txi. Ele pra no parque dos txis. Toda a gente o conhece.

- Agradeo-lhe   a   informao.   Fique   em  bem, Sr.a Mkize.

No caf encontrou-se com o amigo.

- Soube mais alguma coisa? - perguntou este, ansioso.

- Falou-me dum amigo deles, o chauf feur Hlabeni. Deixe-me primeiro comer alguma coisa e depois iremos procur-lo.

Quando acabou de comer, Msimangu perguntou a um homem onde podia encontrar Hlabeni, o chauf feur.

- Ali  esquina; deve estar no carro - respondeu o homem.

Msimangu dirigiu-se ao txi e disse ao homem
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 sentado ao volante:

-- Boa tarde, meu amigo.

- Boa tarde, umfundisi.

- Preciso  dum  txi,  meu   amigo. Quanto   leva para ir a Johannesburg? vou eu e um amigo.

- Para si, umfundisi, levo onze xelins.

-  muito dinheiro.

- Qualquer  outro txi  leva  quinze  ou   dezoito.

- O meu companheiro  velho e est cansado, pago-lhe os onze xelins.

O homem ps o motor a trabalhar, mas Msimangu interrompeu-o:

- Disseram-me que o senhor podia ajudar-me a encontrar um rapaz chamado Absalo Kumalo.

 evidente que tambm este homem tem medo. Mas Msimangu apressou-se a sosseg-lo:

- No venho aqui para arranjar complicaes. Dou-lhe a minha palavra de que no pretendo arranjar dificuldades nem para si nem para mim. Mas o meu companheiro,
o velho que est fatigado,  o pai do rapaz e veio do Natal para o procurar. Onde quer que cheguemos, mandam-nos sempre para outro local e o velho est desesperado.

- Sim, eu conheci esse rapaz.

- E onde pra ele agora, meu amigo ?

- Ouvi dizer que tinha ido para Orlando e que vivia no meio dos deslocados, na Cidade das Barracas. Nada mais sei.

- Orlando  muito grande - disse Msimangu.

- O stio onde os deslocados vivem no  muito grande, umfundisi. No deve ser difcil encontr-lo. H funcionrios da Cmara em servio junto deles e que os conhecem
a todos. Porque no se lhes dirige?

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r

- Muito obrigado pela sua ajuda, meu amigo! Conheo alguns desses funcionrios da Cmara. Vamos l ento no seu txi.

Chamou Kumalo e disse-lhe que voltavam de txi. Subiram e o carro saiu com grande estrpito de Alexandra para a estrada larga que vai de Pretria para Johannesburg.
A tarde findava e, na estrada, o trfico era intenso, pois quela hora os veculos amontoavam-se, idos e vindos de Johannesburg.

- Veja  os  ciclistas,  meu  amigo.   Milhares  de pessoas de Alexandra vm agora do trabalho e daqui a nada havemos de encontrar milhares delas que vm a p, por
causa da boicotagem dos autocarros.

E, na verdade, ainda pouco caminho tinham percorrido quando viram as margens da estrada cheias de gente. Em breve a multido era to densa que invadia a estrada,
dificultando a marcha dos carros.

Havia gente velha, cansada, coxos at, como lhes tinham dito; mas a maior parte marchava resolutamente, como j o vinha fazendo h algumas semanas.

Alguns brancos paravam os automveis e mandavam subir os pretos para os conduzir a Alexandra. Por isso, num cruzamento onde pararam, um polcia de trnsito discutia
com um branco e eles ouviram perguntar se o branco tinha licena para transportar gente de cor.

--Eu no lhes levo nada pelo transporte - dizia o branco.

- Mas o senhor transporta passageiros numa estrada de trnsito de autocarros - retorquia o polcia.

- Ento levante o auto e mande-me para o tribunal - replicava o branco.

Mas nada mais ouviram, porque o sinal verde do trfico obrigou-os a continuar.

- J tinha ouvido falar nisto - disse Msimangu. __ J tinha ouvido dizer que eles tentavam impedir que os Brancos ajudassem a nossa gente, levando-nos nos seus automveis,
e que estavam at dispostos a mand-los ao tribunal.

Comeava a escurecer, mas a estrada continuava pejada de gente de Alexandra que se dirigia a casa. E continuavam a parar carros que lhes davam boleias, especialmente
aos velhos, s mulheres e aos aleijados.

A face de Kumalo iluminou-se com um sorriso, estranho sorriso ignorado noutras terras, o sorriso de um negro que v algum da sua raa ser acarinhado em pblico
por um branco, porque uma coisa dessas no se faz de nimo leve.

E to embevecido estava que ficou espantado quando Msimangu subitamente exclamou:

- Isto impressiona-me, meu amigo, isto impressiona-me.

- O qu? Esta bondade?

- No! No! Para falar verdade, no pensava
 agora nisso.

Endireitou-se no assento e deu uma grande palmada no peito.

- Mande-me para o tribunal! - disse ele. Olhou ferozmente para Kumalo, bateu novamente
no peito e repetiu:

- Mande-me para o tribunal! Kumalo olhou-o, cheio de espanto.

-  isto que me impressiona - gritou Msimangu.

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Todos os caminhos vo dar a Johannesburg.

Quer se seja branco, quer se seja negro, eles levam-nos a Johannesburg. Se as colheitas falham, h trabalho em Johannesburg. Se h contribuies a pagar, h trabalho
em Johannesburg. Se as fazendas so pequenas de mais para serem divididas, alguns tm de ir para Johannesburg. Se uma criana deve nascer em segredo, consegue-se
isso em Johannesburg.

As pessoas de cor vo para Alexandra, Sophiatown ou Orlando e esforam-se por alugar um quarto ou comprar uma parte de casa.

--Tem algum quarto para  alugar?

- No, no tenho quarto nenhum.

- Tem algum quarto para alugar ?

- J est alugado.

- Tem algum quarto para alugar?

Sim, tenho um quarto que podia alugar, mas no quero alug-lo. Tenho s dois quartos e j somos seis e os rapazes e as raparigas esto a crescer. Mas os livros para
a escola custam dinheiro; o meu marido est doente e, quando melhorar, tem s trinta e cinco xelins por semana. Dos trinta e cinco xelins, seis so para a renda
da casa, trs para o autocarro, um para termos todos um enterro decente, outro para os livros, trs para nos vestirmos, o que  bem pouco, mais um para a cerveja
do marido e outro para o tabaco, e no fao questo disto porque  um homem sossegado, que no gasta dinheiro no jogo ou com outras mulheres, um xelim para a Igreja
e outro para uma doena. Ficam dezassete xelins para seis pessoas comerem, e j comemos mal. Sim, eu
tenho um quarto, mas no o queria alugar. Quanto pagaria por ele?

- Dou-lhe trs xelins por semana.

- No o alugo por esse preo.

- E por trs xelins e meio?

Trs xelins e meio... No se enche o estmago

com a independncia. So precisos quartos separados quando os filhos esto a crescer, mas no se enche o estmago com isso. Pois sim, aceito os trs xelins e meio.

O lar no se desmanchou, mas a casa deita por fora. Dez pessoas em dois quartos, s uma porta de entrada, gente que nos passa por cima enquanto dormimos. Mas h
um pouco mais de comida para os filhos e talvez uma ida ao cinema uma vez por ms.

No gosto desta mulher nem da maneira como ela olha para meu marido. No gosto deste rapaz nem dos olhares que ele deita  minha filha. No gosto deste homem nem
da forma como ele olha para mim e para a minha filha.

- Tenho muita pena, mas tm de se ir embora.

- No temos para onde ir.

- Lamento muito, mas a casa est cheia de mais, no pode levar tanta gente.

- J demos o nosso nome para arranjar uma casa. No pode esperar at a conseguirmos?

- H gente em Orlando que est h cinco anos  espera de casa.

Eu tenho um amigo que s esperou um ms
por uma.

- J ouvi falar nisso. Dizem que se pode dar uma gorjeta.
--Ns no temos dinheiro para gorjetas.

- Tenho   muita   pena, mas   a   casa   est   muito cheia.

Sim, esta casa est cheia e aquela tambm est cheia. Porque toda a gente vem para Johannesburg. De Transkei, do Estado Livre, da Zululndia, da Sekukunilndia.
Zulus e swazis, shangaans e bavenda, bapedi e basuto, xosas e tembus, pondos e fingos, todos vm para Johannesburg.

No gosto desta mulher, no gosto deste rapaz, no gosto deste homem. Tenho pena, mas tm de se ir embora.

- S lhe peo mais uma semana.

- Dou-lhes mais uma semana.

--Tem algum quarto  para alugar?

- No, no tenho nenhum quarto.

- Tem algum quarto para  alugar?

- J est alugado.

- Tem algum quarto para  alugar?

Sim, tenho, mas no quero alug-lo. Porque tenho visto maridos levados por outras mulheres, tenho visto mulheres fugirem com outros homens. Tenho visto raparigas
seduzidas por rapazes e rapazes que se perdem com raparigas. Mas o meu marido ganha s trinta e quatro xelins por semana...

- Que havemos  de fazer,  ns, os que no tm casa?
72        - Podem esperar cinco anos por uma e no fim

estar to longe de a conseguir como no princpio.

- Dizem que s em Orlando h dez mil dos nossos a viver em casas alheias.

- Ouviu o que disse Dubula? Que  ns mesmos devamos fazer as nossas casas aqui em Orlando?

- E onde  que as fazemos?

- Nos terrenos vazios, junto  da linha do comboio, diz Dubula.

- E com qu ?

- Com o que se tiver  mo:  sacos, pranchas, capim e estacas das plantaes.

--E quando chover?

- Safa. Morreremos.

- No!  Quando  chover,  eles  tm   de  construir casas para ns.

- Tolices!  Que havemos  de fazer no  Inverno? Seis anos  espera de uma casa. E as casas, j
cheias, ainda mais se enchem com toda essa gente que vem continuamente para Johannesburg. Houve uma grande guerra na Europa e no Norte de frica e no se constrem
casas.

- J tem casa para mim ?

- No, ainda no h casa.

- Tem  a certeza  de que o  meu  nome  est na lista?

- Tenho, sim.

- Que nmero  o meu ?

- No sei bem, mas deve andar  roda do seis mil.

Nmero seis mil na lista! Quer dizer que nunca hei-de ter casa e no posso continuar onde estou. Questionmos por causa do fogo, zangmo-nos por causa dos pequenos,
e eu no gosto da maneira como aquele homem olha para mim. H terrenos
 73
 vagos junto da linha, mas e a chuva e o Inverno? Diz-se que devemos ir para l, todos juntos, de hoje a quinze dias. Que devemos juntar as tbuas, as sacas, as
latas e as estacas, ir todos ao mesmo tempo. Diz-se que temos todos de pagar um xelim por semana ao comit; eles levam o nosso lixo e fazem-nos retretes, para evitar
doenas. Mas e a chuva e o Inverno?

- Ainda no h casa para mim?

- No, ainda no h.

- Mas eu estou na lista h dois anos.

- H-os c com muito mais tempo.

-   verdade que, se se pagar... ?

Mas o homem no me ouve, j est ocupado com outra. No entanto, outro homem abeira-se de mim, vindo no sei donde, e o que me diz deixa-me admirada:

- Lamento que no tenha  casa,  Sr.a  Seme.  A propsito, minha mulher gostaria de falar consigo acerca dos trabalhos do comit. Hoje  noite, s sete horas. A senhora
sabe onde moramos: no n." 17 852, perto da Igreja Reformada Holandesa. Espere, vou escrever-lhe o nmero. bom dia, Sr," Seme.

E quando eu ia responder-lhe, j ele se tinha ido embora.

- Oh! Mas este homem espanta-me. Quem  a mulher dele, que eu no conheo? E que vem a ser esse comit? No sei de nenhum comit.

- A senhora  muito ingnua! Ele quer saber o dinheiro que est disposta a dar para ele lhe arranjar uma casa.

Bem, l irei ento. Espero que no pea muito.

No se pode dar muito quando se ganha s trinta e
74
 sete xelins por semana. Mas precisamos de ter uma
casa. Tenho medo de viver onde estou. H muitas idas e vindas quando a gente sria est a dormir. muita gente nova, muitos rapazes, que vo e vm e que parece que
nunca dormem nem trabalham. Muita roupa, boa roupa, roupa de brancos. Qualquer dia h sarilho, e eu e meu marido nunca andmos metidos em sarilhos.  preciso arranjar
uma casa.

- Cinco libras  muito. Eu no tenho esse dinheiro.

- Cinco   libras   por   uma   casa   no      muito, Sr.a Seme.

--O qu?! S por pr o meu nome na cabea da lista?

- Mas  perigoso. O gerente branco disse que seria severamente castigado quem alterasse a lista.

- Pois bem, tenho pena, mas no posso pagar esse dinheiro.

Mas, antes de eu sair, a mulher dele entrou na sala com outra mulher.

- Deve haver engano, marido. Eu no conheo esta mulher. Ela no  do comit.

- Oh! Desculpa, mulher. Desculpe-me, Sr." Seme. Julgava   que   fazia   parte   do   comit.   Passe   bem, Sr.a Seme.

Mas eu no lhes desejei que passassem bem. No me interessava que eles passassem bem ou mal. Comigo nada vai bem. Sinto-me s e cansada. Oh, marido, porque samos
ns da terra da nossa gente? No h l muita coisa, mas  melhor que aqui. No h l muito-que comer, mas o que h  para todos. Se
 75
todos so pobres, no custa ser pobre. E est-se bem  beira-rio; enquanto se lava a roupa a gua corre pelas pedras e o vento refresca-nos. Daqui a duas semanas
 o dia da mudana. Vamos, marido, vamos buscar as pranchas e as latas, as sacas e as estacas. No gosto do stio onde estamos. H tbuas ao p do Hospital de Baragwanath,
deixadas pelos trabalhadores. Vamos l busc-las esta noite. H folhas de zinco no Reformatrio, que eles usam para cobrir tijolos. Vamos l busc-las. H sacas
na estao de Nancefield amarradas em fardos. Vamos busc-las. H rvores nas minas da Coroa. Vamos l esta noite cortar algumas em segredo.

Esta noite h grande azfama em Orlando. Acendem-se as luzes, agora numa casa, logo noutra. Eu levo o zinco e tu, mulher, levas o menino; tu, meu filho, levas duas
estacas e tu, que s mais pequeno, levas as sacas que puderes; vai tudo l para baixo para as terras ao p da linha. Muita gente se est a mudar para l e j se
ouve o rudo das enxadas e dos martelos. Ainda bem que a noite est quente e no chove. Obrigado, Sr. Dubula, estamos satisfeitos com este pedao de terreno. Obrigado,
Sr. Dubula, aqui est o nosso xelim para o comit.

A Cidade das Barracas  construda numa noite. Que surpresa para toda a gente, ao acordar na manh seguinte! O fumo sai atravs das sacas e uma ou duas barracas
j tm chamin. Havia um lindo
75
 cano de chamin no cho, perto da esquadra de polcia-

 de Kliptovvn, mas eu no fui to tolo que o trouxesse.

A Cidade das Barracas foi construda numa noite. Os jornais no falam seno em ns. Grandes letras e fotografias. Veja, este  o meu marido, junto da barraca. Eu,
infelizmente, cheguei tarde para o retrato. Deslocados,  como nos chamam. Ns somos deslocados. Esta  a grande aldeia de serapilheira, tbuas e zinco, onde nada
se paga de renda a no ser um xelim para o comit.

A Cidade das Barracas construiu-se numa noite. O menino tem uma tosse ruim e a testa escalda-lhe como fogo. Tive medo de me mudar com ele, mas era a noite da mudana.
O vento frio penetra pela serapilheira. Que havemos de fazer com a chuva, quando vier o Inverno? Est sossegado, meu filho, que a me est aqui ao p de ti.

O menino tem uma tosse ruim e a testa mais quente que o fogo. Est quietinho, meu filho, que a me no sai daqui. L fora h risos e galhofa, barulho de enxadas
e martelos e falas em lnguas que eu no conheo. Est quietinho, meu filho. H um lindo vale no stio onde nasceste. A gua canta nas pedras e o vento refresca.
O gado desce para o rio e fica parado debaixo das rvores. Sossega, meu filho;  Deus, faz que ele sossegue. Deus, tende piedade de ns! Jesus, tende piedade de
ns! Homem branco, tende piedade de ns!

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- Sr. Dubula, onde est o mdico?

- Mando-lhe o mdico de manh. No se apoquente, que o comit paga-lhe a visita.

- Mas a criana est quase a morrer.  Olhe o sangue.

- Pouco falta para amanhecer.

- Falta sempre muito quando uma criana est a morrer e o corao tem medo. No podemos cham-lo j, Sr. Dubula?

-- vou ver, me. vou ver se consigo.

- Fico-lhe muito agradecida, Sr. Dubula.

barulho, esta algazarra de terras estranhas? Tenho nedo, marido, a testa do menino queima como o fogo.

J no precisamos do mdico. Nenhum mdico, branco ou preto, lhe pode j valer,  filho do meu ventre, fruto do meu desejo, era bom apertar-te as bochechinhas rechonchudas,
sentir a doce presso dos teus dedinhos, a tua pequenina boca sugando o meu seio.  assim a condio das mulheres.  assim o destino das mulheres: conceber, dar
 luz, velar e perder.

L fora h cnticos, cnticos em roda duma fogueira.  o Nkosi sikelel' iAfrica que eles cantam, Deus salve a frica. Deus salve este pedao de frica que  meu,
nascido do meu corpo, alimentado com o meu peito, amado com o meu corao, porque essa  a condio das mulheres. Oh!, est sossegado, meu pequenino. Sr. Doutor,
no pode vir?

- Mandei chamar o mdico, me. O comit mandou um carro para o trazer. Um mdico negro, um dos nossos.

- Fico-lhe muito agradecida, Sr. Dubula.

- Quer que lhes diga que no faam barulho, me?

- No tem importncia, a criana no ouve. Talvez um mdico branco fosse melhor, mas qualquer

78  serve, desde que venha um. No far mal.
Os homens brancos vm  Cidade das Barracas. Tiram-nos fotografias, fazem uma fita para o cinema. Vm e perguntam a si mesmos o que ho-de fazer, pois ns somos
tantos. Que ser destes pobres diabos quando vier a chuva? Que faro quando chegar o Inverno?

Vm homens e mquinas e comeam a construir casas para ns. Aquele Dubula  um homem esperto, e isto foi o que ele disse que eles fariam. E, mal eles comecem a construir,
mais gente negra vir durante a noite de Pimville, de Alexandra e de Sophiatown. Tambm estes construiro as suas casas de serapilheira, capim, zinco e estacas.
E os brancos vm de novo, mas desta vez cheios de raiva e sem piedade. Vem a polcia e expulsa essa gente. Alguns eram mesmo de Orlando. Voltam s casas que tinham
abandonado, mas alguns dos quartos j esto tomados e no podem reav-los.

79
Ningum tem de se envergonhar por viver na Cidade das Barracas. Vem nos jornais e este  o meu marido, junto da casa. Um homem daqui tem um jornal de Durban e o
meu marido l est tambm, de p junto da casa.

Pode-se dar como direco Cidade das Barracas, Cidade das Barracas apenas; toda a gente sabe onde  e o nmero  o que o comit deu.

Que faremos quando chover, no Inverno? Alguns deles j dizem: "Olhem para aquelas casas alm no monte! No esto acabadas, mas tm tecto. Uma noite destas mudar-nos-emos
para l e estaremos salvos da chuva e do Inverno."

10

Enquanto esperava por Msimangu, que devia lev-lo  Cidade das Barracas, Kumalo entretinha-se com Gertrudes e com o filho. Mais com o rapazinho, pois ele j tinha
mais de vinte anos quando a irm nasceu e nunca houvera, por isso, grande intimidade entre eles. Demais ele era padre, sbrio e naturalmente triste, com o cabelo
a embranquecer, e ela era ainda uma rapariga. Nem poderia esperar que ela lhe falasse das coisas graves que se passavam em Johannesburg, pois tinha sido precisamente
no meio dessas coisas, que o aborreciam e tornavam perplexo, que ela fizera a sua vida. Eram de facto coisas graves, demasiado graves para uma mulher que no tinha
ido alm das primeiras letras na escola da sua aldeia. Ela mantinha uma atitude respeitosa, como lhe competia ter para com um irmo
80 mais velho que era padre, e conversavam ambos so-

bre coisas vulgares, no falando nunca das coisas que a tinham feito atirar-se ao cho a chorar e a gritar.

Mas a boa Sr.a Lithebe l estava, e ela e Gertrudes falavam longamente e duma maneira simples das coisas gratas ao corao das mulheres, trabalhando e cantarolando
juntas, enquanto faziam a lida caseira. Sim, era com o garoto sisudo que ele se entretinha. Tinha-lhe comprado uns cubozinhos de madeira e com eles a criana brincava
incansavelmente, com um intuito obscuro para a razo de um adulto, mas que o absorvia por completo. Kumalo pegava nele, metia-lhe a mo por debaixo da camisa para
sentir as costitas quentes e fazia-lhe ccegas at que a facezita sria da criana se abria em sorrisos e estes se transformavam a seguir em gargalhadas irreprimveis.
Ou ento falava-lhe do grande vale onde nascera, e dizia-lhe o nome dos montes e dos rios, e da escola para onde ele havia de ir, e do nevoeiro que esconde os picos
sobranceiros a Ndotsheni. Disto nada a criana compreendia, ou talvez, contudo, alguma coisa compreendesse, pois ouvia com ateno os nomes cheios de melodia e olhava
para o tio com uns olhos grandes e srios. E isto era um prazer para o tio, pois sentia-se invadido pela nostalgia nesta grande cidade; e qualquer coisa dentro dele
ficava profundamente satisfeita com estas descries.

Por vezes Gertrudes, parando acanhadamente junto da porta, vinha ouvi-lo contar as belezas da terra onde nascera. Isto aumentava o prazer do padre e por vezes ele
perguntava-lhe: "Lembras-te?" Ela respondia: "Sim, lembro-me", feliz por ele lhe fazer a Pergunta. Vezes havia, porm, no auge da satisfao,
  -
em que a lembrana do filho o assaltava. E ento, subitamente, os montes de nomes melodiosos apareciam-lhe desolados e ermos, causticados pelo sol impiedoso, os
rios paravam de correr, o gado, magro e abandonado, vagueava pela terra vermelha e nua, Era uma terra de mulheres velhas, de mes e de crianas, pois em todas as
casas alguma coisa faltava. A voz entrecortava-se-lhe e extinguia-se, e ele quedava-se silencioso e absorto. Talvez por isso, ou porque as suas mos se crispassem
na criana, esta agitava-se-lhe nos braos e esforava-se por voltar para o cho, onde a esperavam os cubos de madeira para brincar.

como se procurasse qualquer coisa para afugentar esta dor inesperada, vinham-lhe ento  mente a mulher, os muitos amigos, as crianas que desciam os montes, emergindo
do nevoeiro a caminho da escola.

Estas imagens eram-lhe to queridas que a sua angstia desaparecia ao record-las e recobrava ento o sossego e a paz.

Quem conhecer, na verdade, o segredo da nossa Terra? Quem sabe, na verdade, como pode haver conforto num mundo de desolao? Dmos graas a Deus por haver ainda
um ente querido que nos encorage no sofrimento, por se poder ainda brincar com uma criana em face de tal misria! Dmos graas a Deus por haver ainda msica no
nome dum monte, por poder ainda curar-nos o nome de um rio! Sim, at o nome de um rio que j no corre!

Quem sabe, na verdade, o segredo da nossa jornada na Terra? Quem sabe para que vivemos, lutamos e morremos? Quem sabe o que nos faz viver e
82
 lutar quando tudo se desmorona  nossa volta?

Quem sabe porque a carne tpida duma criana nos d tanto conforto, quando o nosso prprio filho est perdido e no mais pode ser recuperado? Homens sbios escrevem
muitos livros com palavras difceis de compreender; mas isto, a razo da nossa vida, o fim de todas as nossas lutas, est para alm da sabedoria humana. Deus, meu
Deus, no me abandoneis! Sim, embora eu tenha de atravessar o vale das sombras da morte, no terei medo do mal se Tu estiveres comigo...

Mas levantou-se. Ouviu Msimangu a falar junto  porta. Era tempo de continuar na busca.

- Aqui est a Cidade das Barracas, meu amigo. At aqui as crianas  riem nas vielas estreitas
que separam estas trgicas habitaes. Uma folha de zinco, umas estacas, serapilheira e capim, uma porta velha que se foi buscar a uma casa abandonada. O fumo escoa-se
ondulante por aberturas engenhosamente arranjadas no tecto. H um cheiro a comida, um sussurro de vozes, no num tom de clera ou de dor, mas vozes que falam de
coisas vulgares, deste que nasceu, daquele que morreu, destoutro que tem feito figura na escola e ainda daquele que est agora na priso. A terra est seca e o sol,
no cu sem nuvens, abrasa.

Mas  que  ser  deles  quando  vierem  as  chuvas? Que faro eles quando chegar o Inverno?

- Confrange-me ver estas coisas.

- Mas veja como eles constrem, alm. E j h muitos  anos  que  no  o faziam.  Alguma  coisa boa h-de sair daqui. Tambm isto  obra de Dubula.         83
- Parece que est em toda a parte, esse homem.

- Veja,   ali   est   uma   das   nossas enfermeiras. No  lhe  fica  bem  o  uniforme  branco  e  vermelho e a touca na cabea?

- De facto, fica-lhe  muito  bem.

- Os Brancos esto  a preparar  cada vez mais enfermeiras.  curioso como ns progredimos tanto nalgumas  coisas, estacionamos  noutras  e  andamos para trs ainda
noutras. No entanto, neste assunto de enfermeiras temos bons amigos entre os Brancos. Houve  um  grande  clamor  quando  permitiram  que alguns rapazes dos nossos
fizessem o curso de Medicina na Universidade Europeia de Witwatersrand. Mas os nossos amigos no recuaram e agora os rapazes l estudam para mdicos at que se arranje
um local s para ns. bom dia, enfermeira!

- bom dia, umfundisi!

- Trabalha aqui h muito, enfermeira?

- Desde que aqui mora gente.

- Conheceu  ento  um  rapaz  chamado  Absalo Kumalo ?

- Conheci, mas j c no vive. Posso dizer-lhe onde  ele morava.  Vivia  com  os  Hlatshwayos,  que ainda c esto. V aquele morro onde h tantas pedras que no
se podem fazer l casas? Veja, anda l no cimo um rapazito!

- Sim, bem vejo.

- E   v,  mais  atrs,   uma  casa  com  chamin, donde est a sair fumo?

- Vejo, sim.

- Pois desa por esse caminho e encontrar os Hlatshwayos na terceira ou quarta casa do lado da mo com que se come.

84
        -Muito obrigado, enfermeira, l iremos.

As explicaes da rapariga eram to claras que no tiveram dificuldade em encontrar a casa.

- bom dia, me!

A mulher, muito asseada e de boa aparncia, sorriu-lhes amigavelmente.

- bom dia, umfundisi.

- Me, andamos  procura dum rapaz, Absalo Kumalo.

- Vivia aqui comigo, umfundisi. Tivemos d dele, porque no tinha para onde ir. Mas levaram-no e ouvi dizer que o juiz o meteu no Reformatrio.

- No Reformatrio ?

- Sim, a escola grande, ali acima, para l do hospital militar. No  longe para se ir a p.

- Fico-lhe muito obrigado, me. Fique em bem! Venha, meu amigo!

Caminharam em silncio, pois nenhum deles sabia que dizer. Kumalo tropeava por vezes, embora o caminho fosse direito e liso, e Msimangu deu-lhe o brao.

- Tenha coragem, meu irmo!

Olhou para o amigo, mas os olhos de Kumalo estavam fixos no cho. Apesar de Msimangu no lhe ver a face, viu-lhe as lgrimas que caam e apertou-lhe o brao com
mais fora.

- Tenha coragem, meu irmo!

- s vezes parece-me que nunca mais terei coragem.

- Ouvi falar desse Reformatrio. O seu amigo, o padre ingls, diz muito bem dele e ouvi-o afirmar que, se um rapaz deseja regenerar-se, tem l todas as condies
para o conseguir. Por isso tenha coragem, mas
- J receava isto.

- Sim, eu tambm o receava.

- Lembro-me bem do dia em que o senhor o receou pela primeira vez. Foi em Alexandra, quando me mandou seguir e voltou atrs para falar com aquela mulher.

- Vejo que no posso esconder-lhe nada.

- No  porque eu seja inteligente.   apenas porque se trata do meu filho.

Saram da Cidade das Barracas em direco a Orlando e caminharam pela estrada alcatroada que vai dar  estrada principal de Johannesburg, at ao local, s portas
de Orlando, onde se encontra a bomba de gasolina dos brancos; porque em Orlando os negros no esto autorizados a possuir bombas de gasolina.

- Que lhe disse a mulher, meu amigo?

- Disse-me que os dois rapazes estavam metidos em qualquer patifaria. Que traziam para casa muitas coisas, coisas de gente branca.

- No Reformatrio podem-se  regenerar?

- No sei;  uns dizem uma coisa, outros dizem outra. Mas o seu amigo diz bem dele.

E, depois de uma longa pausa, durante a qual os pensamentos de Msimangu vaguearam por outras paragens, Kumalo tornou:

- Tenho esperana de que eles o possam  regenerar l.

- Assim o espero  tambm,  meu  irmo. Depois de quase uma hora de caminho chegaram
 estrada que leva ao Reformatrio.

Era meio-dia quando chegaram, e de todos os lados vinham rapazes a marchar, que entravam para
o Reformatrio. Vinham de todas as direces e parecia que a marcha no teria fim. --H c bastantes, meu  amigo!

- H. Eu no sabia que eram tantos.

Um indivduo de cor, de cara sorridente, abeirou-se deles e perguntou se precisavam de alguma coisa. Disseram-lhe que procuravam um tal Absalo Kumalo e o rapaz
levou-os a um escritrio, onde um branco, ainda novo, lhes perguntou em afrkaans o que desejavam.

- Andamos  procura do filho deste meu amigo, chamado Absalo Kumalo, senhor - respondeu Msimangu na mesma lngua.

- Absalo   Kumalo?   Conheo-o   muito   bem.    estranho! Ele disse-me que no tinha famlia.

- O seu filho, meu amigo, disse aqui que no tinha famlia - traduziu Msimangu em zulu.

- Sem   dvida   porque   tinha   vergonha - disse Kumalo. - Peo desculpa de no falar afrkaans continuou em zulu para Msimangu, pois tinha ouvido dizer que certos
brancos no gostam dos pretos que no sabem falar aquela lngua.

- Pode falar o  que quiser - volveu  o branco.
- O seu filho portou-se bem aqui. Fizemo-lo chefe de grupo e tenho grandes esperanas no seu futuro.

- Mas quer dizer, senhor, que se foi embora?

- Sim, foi-se embora h um ms. Abrimos-lhe uma excepo, em parte por causa do seu bom comportamento e da sua idade, mas principalmente porque havia uma  rapariga
que estava grvida dele. Veio aqui v-lo e ele parecia doido por ela e preocupado com o filho que havia de nascer. A rapariga parecia tambm amiga dele; por isso,
depois de ponderar estas coisas e de ele assumir o compromisso

87
solene de que iria trabalhar para o filho e para a me, solicitmos do ministro a sua sada.  claro que no somos sempre bem sucedidos, mas, quando parece haver
uma afeio verdadeira entre os interessados, arriscamo-nos, na esperana de que tal facto os torne pessoas de boa vontade. Uma coisa  certa:  que se isso falha,
no h nada que pudesse ter dado resultado.

- E ele agora est casado, senhor?

- No, umfundisi, no est, mas est tudo arranjado para o casamento. A rapariga no tinha famlia e o seu filho, segundo nos disse, tambm no. De modo que eu e
o procurador dos indgenas tratmos de tudo.

- Foi muita bondade sua, senhor! Em nome deles lho agradeo.

-  a nossa misso. O senhor no se deve preocupar demasiado com o caso e com o facto de ainda no terem casado - tornou  o branco  com  afabilidade. - A questo
principal  se ele cuidar deles e se levar uma vida decente.

- Embora   me   penalize,   compreendo   perfeitamente.

- Decerto. E agora posso ajud-lo neste assunto. Se quiserem esperar a fora at que eu acabe o meu trabalho, posso lev-los a Pimville, onde Absalo e a rapariga
esto a viver. Ele no deve l estar, porque eu arranjei-lhe trabalho na cidade. E j me tm feito boas referncias a seu respeito; convenci-o a abrir um depsito
nos Correios, onde ele j tem trs ou quatro libras.

- Na verdade, senhor, no tenho palavras para lhe agradecer.

-  a nossa misso - repetiu o rapaz. - E, se me do licena que acabe o que tenho a fazer, levo-os depois a Pimville.

C fora o homem de rosto sorridente veio ao seu encontro e, sabendo o que se passava, convidou-os para sua casa, onde ele e a mulher tinham a seu cuidado um grupo
de rapazes que haviam deixado o reformatrio e viviam em liberdade em casas particulares. Deu-lhes ch e de comer e disse-lhes tambm que Absalo fora elevado a
chefe de grupo pelo seu bom comportamento.

Assim se puseram a falar do Reformatrio, das crianas que cresciam em Johannesburg sem lar, sem escola e sem moral, da tribo destruda e da doena da terra, at
que chegou um mensageiro a anunciar que o branco os esperava no escritrio.

No demorou muito que o automvel chegasse a Pimville, aldeia cujas casas so feitas de grandes reservatrios de gua cortados ao meio, instalados h muito com carcter
de emergncia, mas que nunca foram substitudos, pois as casas nunca foram suficientes para as pessoas que vm para Johannesburg.

s portas da aldeia pediram autorizao para entrar, visto que nenhum branco o pode fazer sem licena.

Pararam junto a uma das casas-reservatrios, onde o branco os fez entrar e onde foram acolhidos por uma rapariga to nova que mais parecia uma criana.

- Viemos  saber de Absalo - disse o branco. -Este unifundisi  o pai dele.

- Foi no sbado para Springs e ainda no voltou - respondeu ela.

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O branco ficou um momento calado, franzindo a testa, perplexo ou irritado.

- Mas   hoje     tera-feira - insistiu. -No   sabes nada dele?

- Nada - disse ela.

- Quando  que ele volta?

- No sei - respondeu a rapariga.

- Mas voltar algum dia? - perguntou ele com indiferena.

- No sei - tornou ela. E disse-o numa voz sem entoao e sem esperana, como a de algum que est acostumado a esperar e a ser abandonado. Disse-o como quem nada
espera da vida, por mais longa que ela seja. Dela no sairo protestos, nem pedidos, nem revolta, nada a no ser os filhos dos homens que ho-de servir-se dela,
a abandonaro, a esquecero. E to franzino era o seu corpo, to pouca a sua idade, que Kumalo, mau grado os seus pesares, se sentiu tocado pela compaixo.

- Que pensa fazer ? - perguntou-lhe.

- No sei - repetiu ela.

- Talvez   encontre   outro   homem - exclamou Msimangu com azedume.

E, antes que Kumalo pudesse falar para disfarar a rudeza da intromisso, ela repetiu:

- No sei.

E, mais uma vez antes que Kumalo pudesse falar, Msimangu virou as costas  rapariga e disse s para ele:

- Nada temos aqui a fazer. Vamos embora.

- Meu amigo...

-  o que lhe digo; nada fazemos aqui. No tem o senhor j bastantes preocupaes? Como ela, devo
dizer-lhe, h milhares em Johannesburg. Ainda que
o senhor tivesse umas costas to largas como o Cu, uma bolsa cheia de ouro e que a sua piedade chegasse daqui ao Inferno, nada poderia fazer.

10

Retiraram-se em silncio. O branco sentindo o peso do fracasso, o velho cheio de angstia, Msimangu irritado.

Kumalo parou ao p do carro, onde os outros j se tinham sentado.

- Os senhores no compreendem - disse. - A criana que vai nascer  meu neto.

- Nem  isso  o  senhor sabe  ao  certo - tornou Msimangu, de novo dominado pela clera. -E, ainda que assim fosse, quantos mais no ter o senhor por a? Quer procur-los
a todos, dia aps dia, hora aps hora? Chegaria alguma vez ao fim?

Kumalo permanecia de p, no p da estrada, paralisado pelo remoque. Em seguida, sem dizer uma palavra, tomou lugar no carro.

Pararam de novo junto dos portes da aldeia e o branco desceu para ir ao escritrio do superintendente europeu. Quando voltou, tinha o semblante carregado e triste.

- Telefonei  para a fbrica.  De facto,   certo; no foi trabalhar esta semana.

 entrada de Orlando pararam novamente junto  grande bomba de gasolina.

- Querem  sair aqui? - perguntou.

Os dois desceram do carro e o branco voltou-se para Kumalo:

- Lamento muito - disse. -- Sim,  muito doloroso.

E, como se se tivesse esquecido por completo do  ingls, continuou em zu!u para Msimangu:

- Sinto bastante o mau  xito do seu  trabalho.
 91
- Ele diz que lamenta a inutilidade do seu trabalho - traduziu Msimangu em afrikaans.

- Sim,  o meu trabalho, mas  o filho dele -- tornou  o  outro.  Depois,  dirigindo-se  em  ingls   a Kumalo:

- No percamos de todo a esperana. Pode ter acontecido qualquer coisa;  pode ter sido  preso  ou ferido e levado para o hospital;  nunca se sabe... No perca a
esperana, umfundisi. Eu  continuarei a procurar.

Ficaram parados a v-lo partir.

-  bom homem - considerou Kumalo. - Vamos, vamos andando.

Mas Msimangu no se moveu.

- No tenho coragem de ir consigo - respondeu Msimangu, cuja face contrada reflectia um pesar profundo. - Peo que me perdoe as minhas ms palavras.

Kumalo olhou-o, admirado.

--Refere-se  busca de que falou?

- Comprendeu, ento?

- Sim, compreendi.

- O senhor tem o condo de compreender depressa.

- Sou  velho  e  tenho  aprendido  alguma  coisa. Est perdoado.

- Por  vezes  julgo   que   no   sou talhado   para padre. Podia dizer-lhe...

- No tem importncia. O senhor disse que era um homem fraco e egosta, mas que Deus o tocara com a sua mo. Parece ser verdade.

- As suas palavras confortam-me.
32        - Mas tenho uma coisa a pedir-lhe.

Msimangu olhou-o, perscrutando-lhe o rosto, e disse:

- Est concedido.

- Est concedido o qu?

- Lev-lo outra vez a ver a rapariga.

- O senhor  muito esperto tambm, sem dvida.

- Hum, no  bom que seja s um a ser esperto. Contudo, no estavam com disposio para gracejar.

Caminharam pela estrada escaldante at Orlando, ambos silenciosos, cada um embrenhado, sem dvida, nos seus pensamentos.

11

- Tenho estado a pensar - disse Msimangu ao tomarem lugar no comboio, de volta para Sophiatown - que  altura de o senhor descansar um pouco.

Kumalo olhou-o e respondeu:

- Como posso eu descansar?

- Compreendo o que quer dizer, compreendo a sua ansiedade, mas o branco do Reformatrio ser mais bem sucedido que eu ou o senhor a procurar o seu filho. Hoje 
tera-feira; depois de amanh tenho de ir a Ezenzeleni dizer missa para os nossos cegos e assistir a outros da nossa raa. Devo l dormir e s voltar no dia seguinte.
vou telefonar ao superintendente a pedir licena para o levar comigo. Enquanto eu estiver a trabalhar, o senhor descansa.  um bonito lugar; ao sair da porta da
capela v-se em baixo o vale.  Dar-lhe- coragem  ver o  que  os Brancos tm feito a favor dos nossos cegos. Viremos depois com mais energia para enfrentarmos a
nossa tarefa. 33
- E as suas obrigaes, meu amigo ?

- Falei disso aos meus superiores e eles concordaram em que eu o ajudasse a encontrar o rapaz.

- So bons, na verdade. Pois bem, iremos ento.

Foi um sero agradvel o da Casa da Misso. Estava l o padre Vicente, o das faces rosadas, e todos conversavam acerca da terra onde Kumalo vivia e trabalhava. Por
sua vez, o padre branco falava da sua terra, das sebes e dos campos, da Abadia de Westminster e das grandes catedrais espalhadas pelo pas.

No entanto, nem este prazer foi completo, pois um dos padres brancos trouxe da cidade o Rvenina Star, onde se lia em grandes ttulos:

CRIME  EM  PARKWOLD.  UM  CONHECIDO ENGENHEIRO   DESTA   CIDADE   ASSASSINADO.   SUSPEITA-SE   QUE   SEJAM   INDGENAS   OS   CRIMINOSOS

-  uma dura perda para a frica do Sul disse o padre branco. - Este Artur Jarvis era um moo de grande coragem,  um lutador em prol da justia. Para a Igreja 
tambm uma terrvel perda; era um dos nossos mais poderosos esteios.

- Jarvis? , de facto, horrvel - exclamou Msimangu. - Era o presidente da Associao da Juventude Africana, aqui em Clermont, na Rua dos Gladolos.

- Talvez o senhor o tivesse conhecido - tornou o padre Vicente para Kumalo. - Era filho nico do Sr. James Jarvis, da Quinta do Stio Alto, em

94
 Carisbrooke.

- Conheo o pai - respondeu   Kumalo   tristemente. - Isto , conheo-o de vista e de nome, mas nunca nos falmos; tem uma quinta acima de Ndotsheni e s vezes passava
a cavalo junto da nossa igreja. Mas no conhecia o filho.

Depois de uma pausa, continuou:

- No entanto, lembro-me... era um rapazinho muito vivo e tambm costumava passar a cavalo  junto  igreja. Sim, lembro-me de que era uma criana bastante viva, embora
no me recorde de mais nada.

E de novo ficou silencioso. Porque se deve guardar silncio quando morreu algum, algum que era uma criana cheia de vida?

- Querem que leia ? - perguntou o padre Vicente :

" uma hora e meia da tarde de hoje o Sr. Artur Jarvis, residente em Plantation Road, bairro de Parkwold, foi assassinado em sua casa por um intruso que se julga
ser um indgena. Parece que a Sr.a Jarvis e os seus dois filhos se tinham ausentado numas curtas frias e que o Sr. Jarvis tinha avisado os seus scios de que no
sairia de casa, por se encontrar ligeiramente constipado. Um indgena, ao que parece acompanhado de dois cmplices, teria entrado na cozinha, julgando, sem dvida,
que no estava ningum em casa. O criado preto, que se encontrava na cozinha, foi prostrado com uma pancada, perdendo os sentidos. Ao ouvir o barulho, o Sr. Jarvis
teria descido a escada para averiguar do que se tratava, e foi ento morto a tiro quase  queima-roupa, no corredor que vai da escada para a cozinha. No h sinais
de ter havido luta. Pouco antes de ocorrer a tragdia, trs jovens indgenas foram vistos
 95
36

 a vaguear em Plantation Road. Uma numerosa fora de polcia foi imediatamente enviada para o local e est fazendo intensas pesquisas em todas as plantaes de Parkwold
Ridge. O criado, Ricardo Mpiring, continua inconsciente no Hospital para No-Europeus, esperando-se que, logo que recupere a fala, possa dar  polcia valiosas informaes.
Contudo, o seu estado  grave.

A detonao foi ouvida por um vizinho, Sr. Michael Clarke, que acudiu prontamente, fazendo a triste descoberta do corpo da vtima. A polcia apareceu poucos minutos
depois. Na mesa, junto da cama do assassinado, foi encontrado um manuscrito incompleto com o ttulo: A Verdade acerca da Criminalidade Indgena.  de supor que a
vtima o estivesse a escrever quando se levantou para ir ao encontro da morte. Um cachimbo que se encontrava em cima da mesa ainda conservava algum calor.

O Sr. Jarvis deixa viva, um filho de nove anos e uma filha de cinco. Era filho nico do Sr. James Jarvis, da Quinta de Stio Alto, em Carisbrooke, Natal, e um dos
scios da firma de engenheiros Davis, Van der Walt and Jarvis. O falecido era bastante conhecido pelo seu interesse pelos problemas sociais e pelos seus esforos
para melhorar as condies de vida dos sectores no-europeus da nossa comunidade."

Finda a leitura, um silncio pesado caiu sobre todos. No  ocasio de falar de sebes e de campos, do encanto de qualquer regio. Dor, medo, dio, como crescem nos
coraes e nas conscincias quando se abre uma pgina destes mensageiros de mau agouro!

Chorai pela tribo despedaada! Chorai pela lei e pela moral desaparecidas! Sim, chorai bem alto pelo homem que morreu, chorai pela mulher e pelas crianas que ficaram
ao desamparo! Chora, terra adorada, as desgraas no findaram ainda! O sol banha a terra, a terra formosa que o homem no pode gozar, porque conhece apenas o medo
do seu corao.

Kumalo levantou-se.

- vou para o quarto. Boa noite a todos.

- vou consigo, meu amigo.

Caminharam at ao porto da pequena casa da Sr." Lithebe.

Kumalo ergueu a cabea, mostrando o rosto repassado de angstia.

- Esta coisa...--disse. - Esta coisa... No meu corao s h medo. Medo, medo, medo.

- Compreendo.  Contudo,  loucura esse  receio nesta grande cidade, com os seus milhares e milhares de pessoas.

- No  uma questo de sensatez ou de loucura.  simplesmente medo.

- Depois de amanh vamos a Ezenzeleni. Talvez se saiba l alguma coisa.

- Sem dvida, sem dvida. Alguma coisa diferente daquilo que mais desejo.

- Vamos rezar.

- No tenho palavras para rezar. Dentro de mim h s mudez. No tenho palavras para nada.

- Boa noite, meu irmo.

- Boa noite.


37

Msimangu ficou-se a v-lo subir o carreiro estreito. Envelhecera. Depois retrocedeu e dirigiu_Se  Misso.

H ocasies, sem dvida, em que Deus parece ter abandonado o mundo.

12

No h dvida de que o medo impera na Terra. Pois que podem fazer os homens quando h tanta gente  margem da lei? Quem pode gozar a terra formosa, quem pode gozar
a velhice descansada e o sol que banha a terra quando o medo oprime os coraes? Quem pode dormir em paz quando l fora a escurido s tem mistrio? Que doces mentiras
podem os namorados trocar  luz das estrelas quando o perigo paira sobre eles ao afastarem-se para a sombra ntima das rvores?

Erguem-se vozes gritando o que  preciso fazer, centenas, milhares de vozes. Mas de que servem elas a quem procura conselho, se uma voz grita: "Faz isto!", outra:
"Faz aquilo!", e outra ainda grita qualquer coisa que nem  isto nem aquilo?

emto

seis meses e  nosso dever exigir maior proteco dos poderes pblicos.

(Aplausos

Sr. McLaren, quer fazer o favor de ler a sua
moo?

Em minha opinio, pesar sempre sobre ns a ameaa da criminalidade indgena at ao dia em que o indgena tenha oportunidade de se inspirar em sos exemplos e de
poder trabalhar para atingir um fim honesto.  apenas por no ver uma finalidade digna para o seu trabalho que ele se volta para o lcool, para o crime, para a prostituio.
Que devemos preferir? Uma populao indgena obediente  lei, trabalhadora e de sos princpios, ou um povo indisciplinado, ocioso e sem moral? A verdade  que ns
no sabemos escolher, porque temos medo de ambos. E quanto mais tempo ficarmos indecisos mais caro pagaremos o duvidoso prazer de no adoptarmos uma soluo. E a
soluo no est, salvo temporariamente, no aumento da polcia, no aumento da proteco.

(Aplausos).

 um escndalo, minhas senhoras e meus senhores, termos to pouca polcia. A nossa freguesia paga mais impostos que a maior parte das freguesias de Johannesburg,
e que benefcios temos? Uma esquadra de terceira classe, com um polcia de giro
98 e outro ao telefone.  o segundo crime deste gnero

 E pensar, Sr. De Villiers, que o aumento da frequncia escolar dar em resultado uma diminuio da criminalidade infantil entre os indgenas?

- Estou certo disso, Sr. Presidente.
- Tem nmeros que nos elucidem acerca da percentagem das crianas que vo  escola, Sr. De Vil. liers?

- Em Johannesburg, Sr. Presidente, apenas quarenta por cento frequentam a escola. Desses quarenta, porm, nem dez atingem a quarta classe. Os outros sessenta por
cento instruem-se na rua.
 - D-me  licena  que   faa   uma  pergunta   ao Sr. De Villiers, Sr. Presidente?

- Certamente, Sr. Scott.

- Quem  que deve pagar essas escolas, Sr. De Villiers?

- Devemos pagar ns. Se estamos  espera que os pais dos indgenas possam pagar, pagaremos mais amargamente doutra forma.

- No  de opinio, Sr. De Villiers, que o aumento de escolas redundar somente no aumento de criminosos mais instrudos?

- Tenho a certeza do contrrio.

- Mas deixe-me  referir-lhe  um  caso.   Tive  um criado em casa que tinha feito a quarta classe. Um perfeito gentleman. Colarinho e lao, chapu  banda e meias
da ltima moda. Tratava-o bem e pagava-lhe um bom ordenado. No entanto, Sr. De Villiers, esse grande patife...

- Deviam  pr  em   vigor  as   leis   dos  passes', Jackson.

- Mas as leis dos passes nada adiantam.

- Adiantavam muito se fossem cumpridas.

    As leis dos passes so leis restritivas da liberdade de movimento dos indgenas e dos indianos atravs do territrio
100
   da Unio. (N. T.).

- Mas no podem ser cumpridas  risca, acredite. O senhor desconhece que todos os anos enviamos cem mil indgenas para a cadeia, onde se misturam com criminosos
incorrigveis?

- No  bem assim, Jackson. Eu sei que andam a tratar de colnias penais, de colnias de trabalho agrcola e de outras coisas parecidas.

- Sim,  talvez  o  senhor esteja  bem  informado, mas isso no destri de forma alguma a minha afirmao de que as leis dos passes no podem ser cumpridas. Mande-os
para as colnias penais ou para as quintas ou para onde diabo o senhor quiser, que nem assim  poder  convencer-me  de  que   um  remdio excelente condenar cem
mil pessoas.

- Que faria o senhor nesse caso?

- Agora  o senhor que faz perguntas. Pois bem, eu no sei o que faria, mas o certo  que no tenho dvida de que as leis dos passes nada remedeiam.

 - Fomos ao Jardim Zoolgico, querida.  uma coisa impossvel. Com franqueza, no compreendo porque no ho-de destinar dias s para os indgenas.

- Por isso eu no vou l aos domingos. Hei-de levar l o Joo e a Penlope, mas num dia de semana. No entanto, devemos ser razoveis: para onde podero ir essas
pobres criaturas?

- Porque no fazem recintos de recreio s para eles?

- Quando pensaram em fazer-lhes um centro de diverses numa parte do campo de golf de Hillside, houve um tal clamor que tiveram de pr a ideia de Parte.
 101
- Mas, minha boa amiga, na verdade isso seria impossvel; fariam um barulho dos demnios.

- Sim, por isso vagueiam pelas ruas e se encostam s esquinas. E, creia, o barulho  precisamente o mesmo.

- Mas, ao menos, no a incomodam l onde vive,

- No se irrite, minha querida amiga. Porque no ho-de arranjar-lhes grandes lugares de diverso e facultar-lhes  a  livre utilizao  dos  autocarros?

- Onde, por exemplo?

- Continua a zangar-se? Porque no dentro da cidade?

- E quanto tempo demoravam para l chegar? E para regressar? Quantas horas de folga d voc aos seus criados ao domingo?

- Oh!, est muito calor para discutir. Pegue na sua  raqueta,  que  esto  a  chamar-nos.   Olhe!     a Sr." Harvey e a Telma. Temos de jogar rijo, ouviu?

E uns clamam pela diviso imediata da frica do Sul em reas separadas, onde o branco possa viver sem o negro e o negro sem o branco, onde o negro possa cultivar
a sua prpria terra, extrair o seu prprio minrio, regular-se pelas suas prprias leis.

E outros protestam contra o sistema das casas de malta, que chama para a cidade os homens sem as mulheres e os filhos, que arruina a tribo, a casa e o homem, e reclamam
a criao de aldeias para os operrios das minas e das fbricas.

E tambm as igrejas protestam. As de lngua
102
 inglesa clamam por mais instruo, mais oportunidades, pela eliminao das restries que afectam as actividades e o trabalho do indgena; as de lngua afrikaans
empenham-se em conseguir para os indgenas a possibilidade de se desenvolverem segundo a sua prpria orientao, em lembrar aos seus fiis que a decadncia da religio
na famlia, dentro da qual os criados partilhavam das mesmas devoes, contribuiu em parte para a decadncia moral do povo negro. Mas no pode haver igualdade na
Igreja nem no estado.

Sim, h centenas, h milhares de vozes que se erguem em protestos. Mas que se h-de fazer quando um pede uma coisa e outro reclama coisa diferente? Quem conhece
a forma de dar paz a esta terra, onde os negros excedem os brancos em nmero to desproporcionado ?
Alguns dizem que a terra chega para todos, que a melhoria de um no significa o mal doutrem, que o progresso deste no implica o atraso daquele. Dizem que o trabalho
mal remunerado representa uma nao pobre e que o trabalho bem pago origina maiores mercados, campo mais amplo para a indstria e para a mo-de-obra. Mas outros
dizem que isso  um perigo, porque o trabalhador bem pago no s compra mais, mas tambm l mais, pensa mais, pede mais e no quer continuar calado e em posio
de inferior.

Quem indica o meio de dar boa ordem a esta terra? Sim, porque ns temos medo de perder no s o que possumos, mas tambm a nossa superioridade, a brancura da nossa
raa. Muitos dizem que
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o crime  mau, mas no seria isso pior? No ser melhor conservarmos o que temos e pagar o seu preo com o nosso medo?

E outros perguntam se o medo poder ser suportado sempre. Pois no  ele que obriga os homens a meditar nestas coisas?

No sabemos. No sabemos. Viveremos a vida dia a dia, reforando as fechaduras das portas, adquirindo um co esperto e valente quando a esperta e valente cadela
da vizinha tiver a ninhada, acautelando cada vez mais a carteira ou a mala de mo. A beleza nocturna das rvores, as efuses amorosas  luz das estrelas, a tudo
isto renunciaremos. No mais voltaremos a ver o brio a caminho de casa pelas ruas da cidade, alta noite, no mais passearemos longe da cidade a admirar o cu estrelado.
Seremos cautelosos, renunciaremos a isto e mais quilo, pensaremos somente na salvao e na segurana. Reduzir-se- o horizonte da nossa vida, mas ela ser a vida
de seres superiores; viveremos no medo, mas, ao menos, no ser o medo do desconhecido. A conscincia ficar esmagada, mas a luz da vida no se extinguir e, embora
recolhida na sombra, ser gozada por uma gerao que a viver assim, at um dia que se aproxima. Como e quando vir esse dia... Mas no pensemos nisso.

sentenas mais severas para os ladres indgenas, pena de morte para os que, de armas na mo, assaltem as casas. Alguns clamaro por uma nova poltica indgena,
que mostre aos Negros quem  o senhor, e por uma represso das actividades dos Kafferboeties e dos comunistas.

E o Clube das Esquerdas est reunido tambm para discutir "Uma poltica a longo prazo para a criminalidade indgena", tendo convidado tanto europeus como no-europeus
para darem o seu parecer. E a Confraria da S tambm se reuniu para discutir uma moo com o ttulo: "As causas reais da criminalidade indgena." Mas a reunio sofreu
um percalo, pois o orador da noite de hoje, o Sr. Artur Jarvis, acaba de ser assassinado em sua casa de Parkwold.

Chora, terra adorada, pelo filho ainda por nascer, que ser o herdeiro do nosso medo. No o deixes amar demasiadamente a terra. No o deixes rir com muita alegria
quando a gua lhe escorrer por entre os dedos. No lhe consintas um silncio completo quando ele contemplar o sol poente a tingir de fogo a campina. No o deixes
agitar-se demasiado quando as aves da sua aldeia se puserem a cantar; no o deixes dedicar-se com todo o seu corao aos montes e aos vales que o vero nascer. Porque
o medo o despojar de tudo se tiver dado demasiado.
 Sr. Msimangu!

-Ah!,  a Sr.a Ndlela, da Rua do Cabo.

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- Sr. Msimangu, a polcia veio a minha casa.

- A polcia ?

- Sim, querem saber do filho do velho umfundisi. Andam  procura dele.

- Porqu, me ?

- No me disseram, Sr. Msimangu.

- Ser mau, me ?

- Parece que sim.

- E depois, me?

- Fiquei  aflita, umfundisi,  e  dei-lhes  a  direco: Sr.a Mkize, Vigsima Terceira Avenida, 79, Alexandra. Um deles disse:  "Essa mulher  conhecida por andar
metida em negcios escuros."

- A senhora deu-lhe a direco? Houve um silncio.

- Fiz mal, umfundisi ?

- No, no fez mal, me.

- Tive medo.

-  a lei, me. Ns devemos apoiar a lei.

- Ainda bem, umfundisi.

Agradece  humilde mulher e diz-lhe que v em paz.

Fica imvel por um momento, mas depois volta-se e dirige-se ao seu quarto. Tira um sobrescrito da gaveta e dele algumas notas. Olha o dinheiro com certo pesar, mas
logo, com um gesto decidido, o mete no bolso e pega no chapu. Pronto para sair, olha furtivamente pela janela para a casa da Sr.a Lithebe e sacode a cabea.  tarde,
porm, pois, ao abrir a porta, Kumalo est na sua frente.

- Vai sair, meu amigo? Msimangu no responde.

- Sim, ia sair - diz por fim.

- Mas tinha-me dito que trabalhava todo o dia no quarto.

Msimangu sentiu vontade de lhe perguntar se no podia fazer o que lhe apetecesse, mas qualquer coisa o impediu.

- Entre.

- No queria incomod-lo.

- Entre - repetiu o outro,  fechando  depois   a porta. - Meu amigo, acabo de' receber a visita da Sr." Ndlela, aquela a casa de quem fomos, na Rua do Cabo.

Kumalo encarou-o com curiosidade.

- H alguma novidade? - perguntou numa voz em que havia medo, e no curiosidade.

- Somente isto: a polcia foi a casa dela  procura do rapaz. E ela deu a direco.

- Que querem eles do rapaz ? - tornou a perguntar Kumalo, em voz baixa e trmula.

- Isso  o que no sabemos. Eu estava para l ir quando o senhor apareceu.

Kumalo olhou-o com uma expresso de tanta tristeza e gratido que o ressentimento do outro se desvaneceu por completo.

- Vai sozinho?

- Estava para ir sozinho, mas agora, que o senhor j sabe o que se passa, pode vir tambm.

- E como vamos, meu amigo? No h autocarros.

- Vamos de txi; eu tenho dinheiro.

- Eu tambm tenho e   a mim que pertence pagar.

- Vai custar muito caro.

Kumalo desapertou o casaco e tirou pressurosamente a carteira.
 107
- Aqui est o dinheiro - disse.

- Bem, pagar ento o senhor. Vamos arranjar um txi.

- Sr." Mkize!

A mulher voltou-se com um ar hostil.

- Esteve aqui a polcia?

- Esteve, e ainda no h muito tempo. -E que queriam eles?

- Queriam o rapaz.

- E que lhes disse a senhora ?

- Disse-lhes que h j um ano que ele se foi embora.

- E para onde foram eles depois?

- Para a Cidade das Barracas - disse ela, voltando-se novamente, como que a recordar-se.

- Para a direco de que a senhora se no lembrava?- perguntou ele friamente.

Ela olhou-o de mau humor.

- Que mais podia eu fazer? Era a polcia.

- No tem importncia. Qual era a direco?

- No sei a direco. Cidade das Barracas, foi o que eu lhes disse.

E, com vivacidade, concluiu:

- J lhe disse que no sabia a direco.

- Senhora Hlatshwayo!

A simptica mulher sorriu-lhes e desviou-se para eles entrarem.

- No, no entramos. Esteve por aqui a polcia ?
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        - Esteve, umfundisi.

- E que queriam eles?

- Queriam o rapaz, umfundisi.

- Porqu, me?

- No sei, umfundisi.

- E para onde foram depois?

- Para a escola, umfundisi.

- Diga-me uma coisa - pediu ele em tom de segredo.- O caso parece ser grave?

- No lho sei dizer, umfundisi. - Fique em bem, Sr." Hlatshwayo.

- V em bem, umfundisi.

- bom dia, meu amigo.

- bom dia, umfundisi - correspondeu o empregado indgena.

- Onde est aquele rapaz branco?

- Foi para a cidade. Esteve aqui h bocadinho, mas saiu.

- Esteve c a polcia ?

- Esteve c agora mesmo, mas j se foi.

- E que queriam eles ?

- Queriam o Absalo Kumalo, o filho do velho que est alm no txi.

- Mas porqu?

- No sei. Eu tinha um servio a fazer e sa quando os polcias entraram com o branco.

- E no sabe o que eles queriam?

- No sei; creia que no sei nada.

- Pareceu-lhe coisa sria?

- No sei dizer.

- E como estava o homem branco? Satisfeito? Aborrecido?

- Estava muito aborrecido.
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- Como sabe isso?

O empregado riu-se e respondeu:

- Eu conheo-o.

- E para onde foram?

- Para Pimville, umfundisi, para casa da rapariga.

- Agora mesmo, disse o senhor? - Sim, agora mesmo.

- Ento tambm l vamos.  Fique  em  bem. E diga ao homem branco que estivemos aqui.

- V em bem, umfundisi. Eu lhe darei o recado.

- Minha filha!

- Umfundisi.

- Esteve c a polcia?

- Esteve c agora mesmo.

- E que queriam eles?

- O Absalo, umfundisi.

- Que lhes disseste?

- Disse-lhes que no o via desde sbado, umfuwdisi.

- Mas que quer a polcia de Absalo ? - gritou Kumalo, atormentado.

Ela recuou, assustada, e disse:

- No sei.

- E porque no lhes perguntaste ?

Com os olhos cheios de lgrimas, a rapariga respondeu:

- Tive medo!

-E nigum procurou saber?

- Talvez alguma das mulheres que se juntaram o  tenha perguntado.

.- Mostra-nos essas mulheres - pediu Msimangu. Ela indicou-lhes algumas mulheres, mas tambm estas nada sabiam.

- Eles no me quiseram dizer - volveu uma que Isimangu chamou de parte para lhe perguntar:

.- O caso seria grave?

- Parecia um caso srio, umfundisi.

- Mas de que se trata?

- No sabemos.

- O mundo est cheio de desgraas - disse ela.

Dirigiu-se para o txi e Kumalo seguiu-o. A rapariga correu atrs deles como corre uma mulher grvida.

- Eles  pediram-me que os  avisasse  se ele voltasse - disse ela com um olhar aflito. - Que hei-de fazer?

- Deves   fazer isso   mesmo - disse    Msimangu.
- E avisa-nos a ns tambm. Olha, vais ao escritrio  do  superintendente  e  pedes-lhe  que  te  deixe telefonar para a Casa da Misso,  em  Sophiatown. vou escrever-te
o nmero: 49-3041.

- Eu telefono, umfundisi.

- Ouve  uma  coisa:   os  polcias   disseram   para onde iam?

- No disseram, umfundisi, mas ouvi-os dizer: Die spoor loop dood.  (Perdeu-se a pista.)

- Fica em bem, minha filha.

- V em bem, umfundisi.

Voltou-se para dizer adeus ao outro, mas ele j estava no txi, curvado sobre a bengala.

- Quanto lhe devemos, meu amigo ? - perguntou Msimangu.
- Duas libras e dez xelins, umfundisi. Kumalo, com as mos trmulas, puxou  da carteira.

- Gostava de ajudar a pagar isto - disse Msimangu. - Dar-me-ia muito prazer se consentisse.

- Muito obrigado - retorquiu Kumalo com emoo -, mas sou eu quem deve pagar.

E tirou as notas da minguada carteira.

- Est a tremer, meu amigo.

- Tenho frio, muito frio.

Msimangu olhou para o cu sem nuvens, donde o sol de frica dardeja o seu calor sobre a terra.

- Venha at ao meu quarto. Vamos acender o lume para o senhor se aquecer.

13

Foi uma jornada silenciosa at Ezenzeleni, pois, embora Msimangu tentasse conversar com o amigo desde a estao at ao Recolhimento dos Cegos, o velho estava pouco
disposto a falar e mostrava pouco interesse por tudo o que o rodeava.

- Que vai o senhor fazer enquanto espera por mim? - perguntou Msimangu.

- Vou-me sentar num desses lugares de que me falou e, quando acabar os seus afazeres, espero que me mostre Ezenzeleni.

- Estou ao seu dispor.

- No queria que ficasse aborrecido comigo.

- Compreendo tudo muito bem. ;No h razo para se voltar a falar nisso.

Assim,   apresentou   Kumalo   ao  superintendente branco,   que,   contra o costume,   o tratou por Sr.
112
  Kumalo.

Sem dvida Msimangu havia dito alguma coisa ao superintendente, pois no insistiram para que fosse com eles e o prprio superintendente o conduziu ao miradouro,
dizendo-lhe que o chamariam quando fossem horas da refeio.

Ali permaneceu algumas horas ao sol e, devido ao prazer que este lhe proporcionava, ou  vista da vasta plancie que se estendia, l em baixo, at s montanhas distantes
e azuladas, ou apenas ao correr do tempo, ou ainda devido  divina Providncia, que se apiedou da sua alma torturada, o certo  que foi recobrando alguma tranquilidade
de esprito, libertando-se um pouco do receio.

Sim, era verdade o que Msimangu havia dito. Porque ter esse receio numa cidade to grande onde havia milhares de milhares de pessoas? O filho tinha-se desencaminhado
na enorme metrpole onde tantos j se tinham perdido antes dele e onde muitos outros se haviam de perder at que surgisse algum grande segredo que, at agora, ainda
nenhum homem descobrira. Mas que ele tivesse matado um homem, um branco! No podia lembrar-se de nada, absolutamente nada, que tornasse isso provvel. Os seus pensamentos
voltaram-se para a rapariga, para a criana que ia nascer e que seria o seu neto. Era pena que um padre tivesse um neto nascido em tais circunstncias! No entanto,
tudo podia ser remediado. Se eles casassem, ele tentaria remediar o que havia sido despedaado. Talvez o filho e a rapariga voltassem com ele para Ndotsheni; talvez
ele e a mulher pudessem dar  criana o que no tinham podido ou sabido dar ao prprio filho. Mas em que tinham eles errado? Que tinham eles feito ou deixado de
fazer para que o filho se tornasse um ladro, 113



vagabundeando de um lado para o outro, vivendo com uma rapariga que pouco mais era que uma criana, pai de um filho sem nome? Confortava-se dizendo a si mesmo que
a causa era Johannesburg. Mas logo o medo voltava a atorment-lo impiedosamente: o filho abandonara a rapariga e a criana por nascer, deixara o trabalho que o homem
branco lhe arranjara, vagabundeava de novo. E que fazem os vagabundos? No vivem eles sem lei e sem moral, sem f e sem propsito? Como no se erguerem, portanto,
contra o seu semelhante, contra algum que se interponha entre eles e o fim criminoso que procuram? Que  que se parte dentro dum homem quando ele se decide a matar
o seu semelhante? Que se parte quando ele se decide a enterrar a navalha na carne tpida, a vibrar o machado na cabea cheia de vida, a cegar os olhos luminosos,
a disparar a arma que leva a morte ao corao palpitante?

Com um arrepio, desviou o pensamento de cenas to horrveis. E, entretanto, a imaginao de tais factos tranquilizou-o, porque no havia nada, absolutamente nada,
durante toda a sua vida em Ndotsheni, absolutamente nada durante a infncia do filho que pudesse lev-lo a praticar to horrorosas aces. Sim, Msimangu tinha razo.
Era a incerteza, o desconhecido, que lhe faziam recear esta nica coisa, numa cidade imensa onde havia milhares e milhares de criaturas.

Voltou a pensar consoladoramente na reconstruo, no novo lar que ele e a mulher, no crepsculo da vida, moldariam para Gertrudes e o filho, para Absalo, para a
rapariga e para a criana que ia nascer. Depois de ter visto Johannesburg voltaria para
114
 Ndotsheni com uma compreenso mais profunda.
e com uma maior humildade. Pois no tinha
sido a sua prpria irm uma prostituta, o seu prprio filho um ladro? E no era certo que ele prprio viria a ser av de um neto sem nome? E pensava nisto sem azedume,
embora cheio de dor. Pode-se regressar conhecendo melhor as coisas contra as quais se lutou, sabendo-se melhor aquilo que se deve construir. Ele voltaria com um
interesse vivo e novo pela escola, no como o lugar onde as crianas aprendem somente a ler, escrever e contar, mas como o lugar onde devem ser preparadas para a
vida, seja qual fora a terra onde vivam. Com um interesse novo pela educao do seu povo, por escolas espalhadas por toda a parte, onde se criasse qualquer coisa
que lhes servisse quando partissem para as cidades, qualquer coisa que substitusse a moral e a lei da tribo!

Por um instante foi absorvido por uma viso, como tantas vezes acontece quando se permanece num lugar de cinzas e destruio.

Sim, era verdade ento. Tinha-o admitido para si prprio. A tribo estava despedaada e j no podia ser reconstruda. Baixou a cabea. Era como se algum fosse arrastado
para o espao e sentisse, de sbito, que as asas milagrosas lhe caam, deixando-o a olhar para baixo, para a terra, apavorado e inquieto. A tribo estava desfeita
e j no podia ser reconstruda. A tribo, que o tinha criado e ao pai e ao pai do seu pai, cara em pedaos. Porque os homens tinham partido, os rapazes e as raparigas
tinham partido e o milho mal atingia a altura dum homem.

- Vamos comer, meu irmo.

- J?

- O senhor est aqui h muito tempo.

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- No dei por isso.

- E que descobriu?

- Nada.

- Nada?

- Nada. S mais receio e mais dor. No h no mundo seno receio e dor.

- Meu irmo...

- Que ?

- Tenho receio de falar.

- O senhor tem o direito de falar. Mais direito do que ningum.

- Ento digo-lhe que  tempo de mudar. Isto  loucura, o que j  mau. Mas  tambm pecado, o que  pior. Falo-lhe como padre.

Kumalo curvou a cabea.

- Tem razo, meu  padre.  No fico aqui mais tempo.

Era um lugar admirvel, Ezenzeleni, pois ali os cegos, que arrastavam os seus dias num mundo que
no viam, viviam como se tivessem olhos. Ali, faziam coisas que ele, com toda a sua vista, nunca faria. Enormes e slidos cestos de vimes coloridos, que se entranavam
uns nos outros, obedecendo a um modelo, vermelho com vermelho, azul com azul, manejados por mos que viam sem ter vista. Falou com eles e os olhos dos cegos brilhavam
com uma luz que s podia ser o fogo da alma. Eram brancos os homens que se dedicavam quela obra de misericrdia, e uns falavam ingls, outros falavam afrikaans.
Sim, e tanto os que falavam ingls como os que falavam afrikaans se irmanavam na tarefa de abrir os olhos  aos homens negros que eram cegos.

O seu amigo Msimangu pregava nessa tarde na capela que ele vira. Mas, porque no pertenciam todos  mesma igreja, no havia l altar encimado pela cruz. A cruz estava,
sim, na prpria parede: duas fendas que nela deixaram abertas e que os tijolos no taparam. E Msimangu no usaria tambm as vestes sacerdotais que vestia em Sophiatown,
as que usaria na manh seguinte, quando dissesse missa para os fiis da sua igreja.

Msimangu abriu o livro e comeou a ler para eles. Kumalo no sabia que o seu amigo tinha uma voz assim. Uma voz feita de ouro, uma voz que repassava de amor o que
lia. Voz que se agitava, pulsava e tremia, no como se agita, pulsa e treme a voz de um ancio, no como se agita, pulsa e treme uma folha, mas como um sino de som
grave ao ser percutido. No era s uma voz de ouro, era a voz de um homem que tem o corao de ouro a ler um livro que tem palavras de ouro. Por isso toda a gente
se quedou em silncio e o mesmo fez Kumalo; sim, porque raras vezes se encontram juntas estas trs coisas.

Eu, o Senhor, chamei-te para a estrada  do
Bem,
e levar-te-ei pela mo, e guardar-te-ei, e farei de ti um mensageiro para o povo, para iluminares os idlatras, para abrires os olhos dos cegos, para libertares
da priso os cativos e aqueles que esto perdidos nas trevas fora
da priso.
 117
118

E a voz ergueu-se, e a lngua zulu elevou-se e transfigurou-se, e o homem elevou-se tambm como algum que encontra alguma coisa que  maior que qualquer de ns.
E a gente ficou silenciosa - pois no era a gente dos olhos cegos? E Kumalo ficou silencioso, sabendo quem era o cego para quem Msimangu lia estas palavras:

E eu levarei  os  cegos por um  caminho que
eles no conheciam.

Conduzi-los-ei por estradas que eles ignoram. Para eles farei luz das trevas. Para eles farei da injustia rectido. Tudo isto farei por eles e no os abandonarei.

Sim, ele fala para mim, no o duvido. Diz que no seremos abandonados. Porque, enquanto eu pergunto a mim mesmo para que vivemos, lutamos e morremos, enquanto procuro
saber o que nos faz continuar a viver e a lutar, mandam homens brancos para confortar os cegos, homens brancos para confortar os cegos negros.

Quem d, na hora presente, um amigo que transforme para mim a treva em luz? Quem, na hora presente, d sensatez a algum to moo para conforto de algum to velho?
Quem me d piedade para a rapariga que o meu filho abandonou?

Sim,  para mim que ele fala com palavras calmas e simples.

Ns  somos gratos  aos  santos,  diz  ele,  que  nos
Aliviam o corao nos dias de desgraa. Que menos poderemos fazer? Se fizermos menos, no haver santos que nos aliviem o corao. Se Cristo  Cristo, diz ele, verdadeiro
Senhor do Cu e verdadeiro Senhor dos Homens, que no faremos ns, sem nos preocuparmos com o nosso sofrimento?

Eu ouo-te, meu irmo. No h uma s palavra que eu no oua.

Est a terminar; percebo-lho na voz. Pode dizer-se que o que foi dito foi dito,  acabado e perfeito.

Ele abre o livro e l novamente. L para mim:

Tu no sabias, nunca ouviste que Deus eterno, o Senhor, o Criador das coisas do mundo, no desfalece, no se cansa nunca?

E a voz cresce de novo, e a lngua zulu eleva-se e transfigura-se, e o homem eleva-se tambm:

At os moos desfalecero de cansao E os homens fortes cairo. Mas aqueles que confiam no Senhor tero a sua fora renovada, elevar-se-o com asas de guia, correro
sem se cansar, marcharo sem desfalecer.

O povo suspira e Kumalo suspira, como se tivessem sido proferidas palavras de grande transcendncia. De facto, Msimangu  conhecido como um bom pregador.  bom para
o Governo, dizem em Johannesburg, que Msimangu pregue acerca dum
mundo que no  feito com as mos, porque ele toca o corao do povo, encaminhando-o para a estrada que leva ao Cu, e no para a que conduz a Pretria E h brancos
que ficam maravilhados e dizem: "que formosas palavras vm dum filho de um povo brbaro, que ainda h pouco tempo, comandado por um chefe cruel, pilhava e massacrava
milhares e dezenas de milhares de inocentes!"

E, no entanto,  desprezado por alguns, pois que esta voz de ouro, que podia levantar uma nao inteira, fala sempre assim. Porque esta terra de sofrimento, donde
os homens poderiam fugir, se uma voz assim os unisse a todos, no conta para ele. Dizem que ele prega um mundo que mos humanas no podem, construir, enquanto nas
ruas,  sua volta, os homens sofrem, lutam e morrem.

Perguntam que loucura  esta que se apodera do homem, que loucura  esta que se assenhoreia de tantos do seu povo, que torna os famintos pacientes, os desgraados
contentes, os moribundos resignados. Pasmam ao ver tantos loucos a escut-lo, silenciosos, arrebatados, suspirando quando ele acaba, enchendo os estmagos vazios
com as suas palavras vazias.

Kumalo aproxima-se dele.

- Irmo, estou curado.

A face de Msimangu ilumina-se, mas ele responde com humildade, sem orgulho ou falso constrangimento:

- Tinha tentado tudo para chegar at si, sem o conseguir. D, pois, graas ao Senhor.

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14

No dia do regresso de Ezenzeleni, Kumbalo almoou na Misso e voltou a casa da Sr." Lithebe para brincar com o filho de Gertrudes. Foi encontrar tudo muito animado,
pois a Sr.a Lithebe tinha achado comprador para a mesa, cadeiras, panelas e frigideiras de Gertrudes. Vendera tudo por trs libras, o que no fora nada mau, dado
o estado da mesa, toda riscada e manchada. E as cadeiras eram fracas, havendo que ter cuidado ao utiliz-las. Na realidade, o que justificou tal preo foram as panelas
e as frigideiras, que eram de alumnio. A gente negra no compra panelas e frigideiras desse material, mas a irm disse-lhe que foram prendas de uma pessoa amiga,
e ele tambm no ousou esmiuar o caso.

Com o dinheiro pensava ela comprar calado e um casaco impermevel, visto ter comeado a poca das chuvas, com o que o irmo concordou, pois o casaco velho e os
sapatos que usava no condiziam com o vestido vermelho e o turbante branco que ele lhe comprara. Carregada a camioneta e recebido o dinheiro, preparava-se ele para
brincar com o rapazinho, quando,  vista de Msimangu e do homem branco, que se aproximavam, um medo sbito o avassalou. Dirigiu-se para o porto ao seu encontro
e, com o hbito nascido duma longa experincia, reparou-lhes na severidade do rosto e no tom baixo em que falavam.

- Boa tarde, umfundisi. No podemos falar em particular? - perguntou o rapaz.

- Venham para o meu quarto - disse ele, esforando-se por serenar a voz.

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122

No quarto, depois de fechar a porta, ficou de p,
sem os encarar.

- Sei  quais   eram   os   seus receios - tornou  o branco. - So verdadeiros.

Kumalo, de p, curvou a cabea sem os fitar. Depois sentou-se e fixou os olhos no cho. Bem, que iriam fazer agora? Passar-lhe um brao sobre os ombros? Apertar-lhe
a mo? Como se o ignorassem, Msimangu e o branco falavam em voz baixa, como se fala num quarto onde morreu algum.

O branco encolheu os ombros.

- Isto - disse, mais alto,  num  tom  indiferente
-  mau para o Reformatrio.

E Kumalo abanou a cabea, no uma ou duas vezes, mas trs, quatro vezes, como se dissesse: "Sim,  mau para o Reformatrio."

- Sim - continuou o branco -,  mau para ns; vo dizev que o deixmos sair cedo de mais. H apenas uma coisa: os outros dois no eram do Reformatrio, mas foi ele
quem disparou o tiro.

- Meu  amigo - disse  Msimangu  com  a  maior serenidade de que foi capaz -, um dos outros dois  o filho do seu irmo.

E de novo Kumalo abanou a cabea, uma, duas, trs, quatro vezes. Em seguida levantou-se, olhou em volta do quarto, observado pelos dois. Tirou o casaco do cabide,
vestiu-o, ps o chapu na cabea e pegou na bengala. E, pronto para sair, voltou-se para eles e acenou de novo, murmurando qualquer coisa que eles no perceberam.

- Onde vai, meu amigo?

- Quer ir  cadeia, umfundisi? J arranjei  as coisas para isso.

E Kumalo fez que sim com a cabea; voltou-se,

Olhou novamente  volta do quarto e deu conta de que j tinha vestido o casaco e posto o chapu. Apalpou o casaco e o chapu e olhou para a bengala, que conservava
na mo.

- Primeiro a casa de meu irmo - murmurou -, se quiserem mostrar-me o caminho.

- Eu ensino-lhe o caminho, meu amigo.

- E eu espero na Misso - disse o branco.

E, como Msimangu estendesse a mo para a porta, Kumalo f-lo parar.

- Eu vou subindo a rua devagar. O senhor tem de as avisar - disse, apontando para dentro.

- Eu digo-lhes, meu amigo.

Assim fez e depois fechou a porta sobre o pranto das mulheres, pois tal  o seu costume. Vagarosamente, pela rua acima, seguiu a curvada figura do velho, que, abanando
a cabea, atraa a ateno dos que passavam.

Envelheceria ele agora totalmente? Durar-lhe-ia at ao fim da vida aquele terrvel abanar de cabea, que faria dizer aos que o vissem: " velho, esquece-se de tudo"
? E continuaria ele a abanar a cabea, como se dissesse: "Sim, estou velho e esqueo-me de tudo"? E quem saberia que ele dizia: "Tudo o que fao  recordar" ?

Msimangu alcanou-o ao cimo da ladeira e tomou-lhe o brao, levando-o como se levasse uma criana ou um doente. Por fim, ao chegarem  loja, Kumalo voltou-se e fechou
os olhos, movendo os lbios. Depois abriu os olhos, voltou-se para Msimangu e disse:

- No  venha  mais  para  diante.   Sou  eu  quem "deve tratar disto.

i   E em seguida entrou na loja. Sim, a voz de touro

123
l estava, sonora e segura de si. O seu irmo Joo estava sentado numa cadeira, em atitude de chefe falando com outros dois homens.

No reconheceu o irmo, pois a luz vinda da rua dava nas costas do visitante.

- Boa tarde, meu irmo. - Boa tarde, senhor.

- Boa  tarde, meu  irmo  verdadeiro,   filho   da nossa me.

- Ah, meu irmo! s tu? Muito bem, muito prazer em ver-te. Vem para aqui, para junto de ns.

Kumalo olhou para as visitas.

- Desculpa - disse -, mas eu venho novamente por causa de um assunto, um assunto urgente.

- Estou certo de que os meus amigos nos desculparo. Desculpam, no  verdade?

Assim, depois dos "Vo em paz" e "Fiquem em paz", os dois homens saram.

- Muito bem, tenho muito gosto em ver-te, meu irmo. E o teu assunto caminha bem? J encontraste o filho prdigo? Como vs, no me esqueci por completo da doutrina
que aprendi.

E riu-se do dito, com uma risada de touro.

- Mas vamos tomar ch - continuou,  dirigindo-se a uma porta e chamando para dentro.

-   ainda  a mesma mulher - tornou   ele. Como vs, eu tambm tenho as minhas ideias acerca da...  como  que se diz em ingls?

De novo deu uma das suas enormes gargalhadas e acrescentou:

- Fidelidade,  o termo. Bonita palavra que eu no esquecerei facilmente.  um homem esperto, o nosso Msimangu. E agora quanto ao filho prdigo:

124  encontraste-o finalmente?

.- Encontrou-se, meu irmo. Mas no como se encontrou no livro santo. Est na cadeia, preso por ter assassinado um branco.

- Assassinado?

Agora j se no ria. Ningum se ri dum crime de morte e muito menos da morte de um branco.

- Sim, assassinado. Assaltou uma casa num lugar chamado Parkwold e matou o branco que lhe poderia fazer frente.

- O  qu?  Bem  me  lembro!   Um  ou   dois   dias atrs? Na tera-feira?

- Na tera-feira.

- Sim, bem me lembro.

Sim, ele lembra-se. Ele lembra-se tambm de que
o seu prprio filho e o filho do seu irmo so companheiros. As veias intumescem-lhe no pescoo de touro e bagas de suor caem-lhe pelo rosto. Nos seus olhos transparece
o medo. Limpa o rosto com um pano. H uma quantidade de perguntas que quer fazer, mas volta ao mesmo e continua a dizer:

- Sim, de facto, recordo-me.

O irmo enche-se de compaixo por ele. Procurar dar-lhe a notcia suavemente.

- Sinto bastante, meu irmo.

Que diz ele? Diz, de facto, que sente muito? Diz, de facto, que  o meu filho? Como pode dizer-se isso quando se sabe o que isso significa? Fica-se em silncio,
mas os olhos falam, e bem se sabe o que eles dizem.

- Queres dizer que... ? - perguntou.

- Sim, ele tambm l estava. Joo Kumalo murmura:

 _ Tixo, Tixo! i   E repete:

l   - Tixo! Tixo! i2B
- H muitas coisas que eu podia dizer.

- H muitas coisas que tu podias dizer.

- Mas no as digo. S digo que sei bem o que sofres.

- Na verdade, quem melhor poderia sab-lo ?

- Sim,  uma das coisas que sei. Na Casa da Misso est um rapaz branco  minha espera para me levar  cadeia. Talvez possas vir connosco.

- Deixa-me ir buscar o casaco e o chapu, meu irmo.

No esperaram pelo ch e puseram-se a caminho, para a Casa da Misso.

Msimangu esperava-os ansiosamente. O velho caminhava agora com mais firmeza e era o outro que parecia curvado e sucumbido.

O padre Vicente, o padre ingls de faces rosadas, apertou nas suas a mo de Kumalo, dizendo-lhe:

- Disponha de mim para o que precisar. No tem seno que pedir. Estou ao seu dispor para tudo.

Transpem o grande porto que se abre nos muros altos e sombrios. O branco fala por eles e tudo se arranja. Joo Kumalo  conduzido a uma sala e o branco vai com
Stephen Kumalo para outra. A lhe trazem o filho.

Apertam as mos, ou, melhor, o velho toma a mo do filho entre as suas, e sobre elas grossas lgrimas caem.

O rapaz permanece sombrio, sem que um lampejo de alegria lhe perpasse pelos olhos. Abana a cabea de um lado para o outro, como se fosse apertada-
126
 a roupa que vestia.
- Meu filho! Meu filho! -- Meu pai!

.- At que enfim te encontrei!

-  verdade, meu pai! .- E  to tarde!

A isto o rapaz no responde. Como se esperasse achar no seu silncio qualquer esperana, o pai insiste:

- No  tarde de mais? Mas no teve resposta.

Com persistncia, quase com ansiedade, pergunta de novo:

- No  tarde de mais?

O rapaz volta a cabea de um lado para o outro, encontra o olhar do rapaz branco e afasta o seu rapidamente.

-  como o pai diz.

- Procurei-te por toda a parte. Novamente ficou sem resposta.

O velho afrouxa a presso das mos, das quais escorrega, sem vida, a mo do filho. H aqui uma barreira, uma muralha, qualquer coisa que os separa um do outro.

- Porque   fizeste essa coisa  to   horrvel,  meu filho?

O branco agita-se com curiosidade, o guarda fica impassvel, talvez por no conhecer a lngua. Os olhos do rapaz humedecem-se e ele vira a cabea dum lado para o
outro, sem responder.

- Responde, meu filho!

- No sei - diz por fim.

- Porque usavas um revlver?

O guarda olha tambm, porque a palavra em zulu  a mesma que em ingls e em afrikaam. O rapaz, por sua vez, d um sinal de vida.
 127
- Por precauo. Esta cidade de Johannesburgo
 perigosa. Um homem nunca sabe quando ser atacado.

- Mas porque o levaste para essa casa? De novo ficou sem resposta.

- Eles'apanharam-te, meu filho?

- Apanharam, meu pai.

- Eles no tm dvidas de que foste tu?

- Eu disse-lhes, meu pai. --Que lhes disseste?

- Disse-lhes que tive medo quando o homem branco apareceu e que por isso disparei, mas sem o querer matar.

- E teu primo? E o outro?

- Tambm lhes disse. Tinham ido comigo, mas fui  eu  quem  matou  o  homem  branco.

- Foste l para roubar?

Mais uma vez ficou sem resposta.

- Estiveste no Reformatrio, meu filho?

O rapaz ps os olhos num sapato e estendeu o p para a frente.

- Sim, estive.

- Trataram-te l bem?

Novamente os olhos se lhe humedecem, novamente faz girar a cabea e olha para o sapato, que raspa no cho.

- Trataram-me l bem - respondeu.

- E foi assim que lhes pagaste, meu filho? Tambm para isso no h resposta.

O branco aproxima-se, porque sabe que isto nada remedeia ou porque lhe  penoso ver os dois a torturarem-se um ao outro.

- Ento, Absalo?          - Senhor?

- Porque abandonaste o emprego que te arranjei?

Tambm tu, homem branco, no obtns resposta.

no h resposta para estas coisas.

- Porque o abandonaste, Absalo? No h resposta para estas coisas.

- E a tua rapariga? Aquela por causa de quem te deixmos sair, por causa de quem tanto te inquietavas, por causa de quem tivemos pena de ti?

E novamente lhe vieram as lgrimas aos olhos. Quem sabe se ele chora pela rapariga que abandonou? Quem sabe se chora pela promessa no cumprida? Quem sabe se ele
chora pelo seu outro eu, que queria trabalhar para uma mulher, pagar os seus impostos, economizar dinheiro, respeitar as leis, amar os filhos, o outro eu que tinha
sido sempre vencido? Ou chora s por ele mesmo, para que o deixem ser como , para que o deixem s, para se ver livre da onda impiedosa de perguntas, porqu, porqu,
porqu, quando ele no sabe porqu? No conversam com ele, no riem com ele, no o deixam estar tranquilo, mas, pelo contrrio, perguntam, perguntam, perguntam,
porqu, porqu, porqu, o pai, o homem branco, os funcionrios da priso, a polcia, os magistrados, porqu, porqu, porqu.

O branco tem um sorriso indiferente e encolhe os ombros. Mas ele no est indiferente; h uma ruga de desgosto na sua fronte e diz:

-  assim o mundo.

- Dize-me uma coisa, meu filho. Queres responder-me ?

- Posso responder, pai.

- Nunca   escreveste,   nunca  mandaste   nenhum
 129



recado. Andaste com ms companhias, roubaste, assaltaste e... sim, fizeste tudo isso. Mas porqu? O rapaz aproveita a deixa:

- Foram as ms companhias.

- Bem   sabes   que   isso   no      resposta - diz Kumalo. Mas tem a certeza de que no obter nenhuma outra por este meio. - Sim, eu sei, foram as ms companhias.
Mas para ti, para ti mesmo, o que te levou a fazer isso?

Torturam-se um ao outro. E o rapaz, torturado, mostra novamente um sinal de vida.

- Foi o Diabo - diz.

- Porque   no   dizes   que   enfrentaste  o   Diabo, lutaste com ele noite e dia at o suor te cair do rosto e as foras te abandonarem? Porque no dizes que choraste
por ter pecado  e  que juraste  emendar-te e seguir o bom caminho e que tropeaste e caste   de   novo?   Seria   algum   conforto   para   este homem torturado
que te pergunta, com desespero, porque no lutaste contra o Diabo.

E novamente o rapaz olha para os ps e diz:

- No sei.

O velho est exausto, o rapaz est exausto e o tempo est quase passado.

O branco aproxima-se deles de novo e pergunta a Kumalo:

- Ele quer ainda casar com a rapariga?

- Queres casar com a rapariga, meu filho?

- Quero, meu pai.

- Veremos o que se pode fazer - diz o branco. Julgo que so horas de nos irmos.

- Podemos vir outra vez?

- Sim, podemos. Perguntaremos ao porteiro as horas da visita.

- Fica em bem, meu filho.

- V em bem, meu pai.

.- Meu filho, suponho que poders escrever cartas daqui. Mas no escrevas a tua me sem eu ter estado contigo outra vez. Quero escrever-lhe eu primeiro.

-- Est bem, meu pai.

Saem e, do lado de fora do porto, encontram Joo Kumalo. Este sente-se melhor e diz:

- Primeiro  que  tudo  temos  de  ir  falar  a  um advogado.

- Um advogado ? Para que havemos  de gastar esse dinheiro? A histria  simples e no h dvida alguma sobre ela.

- Qual  a histria? - pergunta Joo Kumalo.

- A histria? Esses trs rapazes entraram numa casa que pensavam estar desabitada. Prostraram o criado com uma pancada. O homem branco ouviu o barulho e veio ver.
E depois ... depois ... o meu filho...   o meu,  no  o  teu...   deu-lhe  um  tiro.  Teve medo, diz ele.

- Bem, bem - volveu Joo Kumalo -, isso  uma histria.

Parece tranquilizado e pergunta:

- E ele disse isso na presena dos outros? --Porque no, se  a verdade?

Joo Kumalo parece tranquilizado.

- Talvez no precises de advogado - diz. - Se ele matou o branco, talvez  no haja mais  nada  a fazer.

-E tu vais arranjar advogado?

Joo Kumalo sorri ao ouvir a pergunta.

- Talvez precise de um. Pelo menos, um advogado pode falar ao meu filho em particular.

131
Parece pensar um pouco e depois diz ao irmo;

- Bem  vs,  meu  irmo,  no  h  prova  alguma de que o meu filho e o outro rapaz estivessem l.

E Joo Kumalo sorri, parece j completamente sossegado.

- No estavam l? Mas o meu filho...

- Sim, sim - interrompeu o outro, sorrindo - mas quem acreditar no teu filho?

Diz isto com inteno, com uma inteno cruel e desapiedada.

Kumalo fica trespassado. O branco sobe para o carro e ele olha-o como a pedir auxlio. Mas o outro encolhe os ombros.

- Faa o  que quiser - diz  com  indiferena. No  das minhas funes arranjar advogados, mas se o senhor quer voltar para Sophiatown, eu levo-o.

Kumalo, a quem esta indiferena torna ainda mais nervoso, permanece fora, irresoluto. A sua indeciso parece irritar o branco, que se debrua da janela e grita:

- A minha misso no  arranjar advogados. A minha misso  reformar, auxiliar, regenerar.

Com a mo faz um gesto irado, mete a cabea para dentro e faz meno de pr o carro a trabalhar. Mas muda de ideia e debrua-se de novo:

-  uma misso maravilhosa - diz -, uma misso maravilhosa, um nobre trabalho.

Retira-se outra vez, volta a debruar-se na janela, dirigindo-se a Kumalo:

- No pense o senhor que o trabalho do padre  mais nobre.

Talvez falasse muito alto, porque baixa a voz e continua, com os lbios cerrados de raiva:
132       - O senhor salva almas - diz -, como se fosse
uma macabra brincadeira salvar almas! Mas eu tambem salvo almas. O senhor assiste  vinda das pessoas a este mundo e v-as sair dele. O mesmo fao eu. Vi Absalo
nascer num mundo novo e agora hei-de v-lo sair deste mundo.

Olha para Kumalo com ferocidade e repete:

- Havemos de o ver ir deste mundo. Retira-se de novo e agarra-se ao volante como se
quisesse parti-lo.

- O senhor vem para Sophiatown?--pergunta. Kumalo abana a cabea. Como pode ele ir no carro
com este estranho?

O branco olha para Joo Kumalo, pe a cabea de fora e diz-lhe:

- O senhor  um homem esperto, mas dou graas a Deus por no ser meu irmo.

Pe o carro a trabalhar com um enorme rudo e larga no meio do barulho do derrapar das rodas, falando ainda, irado, consigo prprio.

Kumalo olha para o irmo, mas este no olha para ele. A verdade  que se vai embora. Fatigado, exausto, sai pelo grande porto para a rua.

- Tixo! Tixo! No me abandones!

Vm-lhe  mente as palavras do padre Vicente: "Disponha de mim para o que precisar. No tem seno que pedir."

Iria ento ter com o padre Vicente.

15

 Kumalo voltou para casa da Sr.a Lithebe, cansado e sucumbido. As duas mulheres conservaram-se caladas e ele no tinha vontade de lhes falar nem
de brincar com o sobrinho. Retirou-se para o quarto e deixou-se ficar sentado e silencioso, tentando recobrar foras para ir  Casa da Misso. Momentos depois ouviu
bater  porta e apareceram no limiar a Sr." Lithebe e o rapaz branco. Ferido pelas palavras que ouvira, Kumalo fez um movimento de recuo. o branco, ao not-lo, franziu
a testa e disse qualquer coisa em sesuto  Sr." Lithebe, que se retirou.

Kumalo levantou-se, curvado como um ancio; Procurou palavras humildes de desculpa, mas no as encontrou, e, porque no podia encarar o branco, fixou os olhos no
cho.

- Umfundisi!

- Senhor?

O branco parecia mais zangado que antes.

- Desculpe-me,   umfundisi,   as   palavras   de   h pouco. Venho para lhe falar do assunto do advogado,

- Senhor?

Era difcil, na verdade, falar com um homem que assumia tal atitude.

- Umfundisi, no quer que eu fale consigo ? Dentro de Kumalo travou-se uma luta.  Porque
 assim com um homem negro que aprendeu a ser humilde e, contudo, deseja ser igual a si prprio. --Senhor! - voltou a dizer.

- Umfundisi-tornou o branco pacientemente.- Compreendo-o perfeitamente. Porque no se senta?

Kumalo sentou-se, mas o branco, com a testa ainda franzida pela clera, ficou de p enquanto lhe falava.

- Falei-lhe daquela maneira porque estava desgostoso e porque me dedico com paixo ao meu trabalho.

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 Quando as coisas  correm  mal,  sofro  e  fao
sofrer os outros. Mas depois arrependo-me, e  por isso que aqui estou.

E como Kumalo se mantivesse calado, perguntou:

- Compreende?

- Sim, compreendo.

Levantou a cabea e o branco pde ver que tinha desaparecido todo o ressentimento.

- Compreendo  perfeitamente - repetiu. O rosto do rapaz desanuviou-se.

- A propsito do advogado - disse este -, acho que deve arranjar um. No para que a verdade no seja dita, mas porque no tenho confiana no seu irmo. O senhor
sabe bem qual  a inteno dele: negar que o filho e o outro companheiro estivessem com seu filho. Ora nem eu nem o senhor sabemos se isso agrava ou no a situao;
s um advogado o pode saber. E outra coisa tambm: Absalo disse que disparou a arma porque teve medo, sem inteno de matar. Ora s um advogado  capaz de fazer
o tribunal acreditar que isso  verdade.

- Sim, bem vejo isso.

- Talvez o senhor conhea algum advogado da sua igreja?

- No, senhor, no conheo. Tencionava ir falar com o padre Vicente  Casa da Misso, logo que tivesse descansado um pouco.

-E j descansou?

- A sua visita deu-me uma alma nova e sinto ...

- Sim, compreendo.

O branco franziu o sobrolho e disse, como se falasse consigo:

-  o meu grande defeito. Vamos, ento ? Chegados  Casa da Misso, foram introduzidos
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no quarto do padre Vicente, com quem falaram longamente.

- Julgo que posso  arranjar um bom  advogado que se encarregue do caso - disse o padre Vicente.-. Creio que estamos todos de acordo em que se deve dizer a verdade
e s a verdade e que a defesa ser baseada em que o tiro foi disparado por medo, e no para matar. O advogado nos dir o que h a fazer sobre o outro caso, a possibilidade
de o seu sobrinho e o outro rapaz negarem ter l estado. Pois parece que  s o seu filho que o afirma. Para ns ser a verdade e s a verdade, e nem o homem a que
me refiro tomaria conta do caso noutras condies. vou procur-lo o mais depressa possvel.

- E acerca do casamento? - perguntou o branco. - vou tambm  perguntar-lhe  isso.  No  sei  se
poder fazer-se, mas, se se puder, terei muito prazer em os casar.

Levantaram-se   para  partir  e  o   padre   Vicente agarrou o brao do velho.

- Tenha nimo. Acontea o que acontecer, o seu filho ser severamente punido, mas se a sua defesa for aceite, no haver pena capital. E enquanto h vida h esperana
de remediar o erro.

- Trago sempre isso no pensamento, mas a minha esperana  pouca.

- Fique para conversarmos - disse o padre Vicente.

- Eu tenho de ir - disse o branco. - Mas estou
pronto a auxili-lo, umfundisi, se precisar do meu auxlio.

Depois de ele se retirar, Kumalo e o padre ingls sentaram-se e aquele desabafou:

- Deve avaliar que dia atormentado tive hoje.

- Eu calculo, meu amigo.

- Primeiro foi a procura do meu filho. A princpio sentia ansiedade, mas, pouco a pouco, essa ansiedade transformava-se em medo e esse medo crescia sem cessar. Foi
em Alexandra que tive o primeiro rebate de medo, mas foi aqui na vossa Casa, ao ouvir a notcia do crime, que esse medo se tornou insuportvel.

O velho fez uma pausa e ps-se a olhar para o cho, pensativo, perdido por completo nas suas recordaes. Ficou assim por longo tempo e depois continuou:

- Msimangu perguntava-me porque havia isso de me preocupar numa cidade onde h milhares e milhares de pessoas. Isso confortou-me.

E a maneira como ele disse "Isso confortou-me" foi to penosa para o padre Vicente que este ficou hirto na cadeira, quase sem respirar, desejoso de que aquilo acabasse
depressa.

- Isso confortou-me, mas j no me conforta. E ainda agora me custa acreditar que uma coisa que sucede uma vez em mil me tenha acontecido a mim. Por vezes, durante
momentos, chego a acreditar que no aconteceu, que vou acordar de um sonho mau. Mas  s por momentos. Pensar eu na vida simples que eu e minha mulher levvamos
em Ndotsheni, sem sabermos que isto se aproximava  de  ns,  passo  a passo. Se algum pudesse dizer-nos "Tal coisa aconteceu" e "Tal outra vai acontecer"! Se algum
pudesse dizer-nos! Mas ningum nos disse nada; agora vemos, mas ento nada vamos. E, no entanto, outros viam;  outros a quem isso nada  interessava.  Viam tudo,
passo por passo, e diziam:  "Isto  Johannesburg, este  um rapaz que se porta mal, como tantos outros rapazes que se portam mal em Johannesburg."
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Mas ns,  para quem  isso  era vida  ou  morte,  ns nada sabamos.

O padre Vicente ps a mo diante dos olhos para os esconder da luz, para os esconder dos olhos do homem que estava a falar. Tambm ele queria falar, queria destruir
o doloroso feitio que se tecia em volta deles, mas alguma coisa o impedia, e, o que era mais preocupante, no encontrava palavras para o fazer.

- Est um homem adormecido na relva - prosseguiu  Kumalo - e  sobre  ele   est  a  formar-se a maior trovoada da sua vida. Relmpagos e troves como nunca se viram,
trazendo a morte e a destruio. Toda a gente passa junto dele, correndo para casa para se livrar do perigo. E, ou porque o no viram  deitado  na relva ou  porque
recearam atrasar-se  um  pouco,  no  o  despertaram,  deixaram-no ficar.

E, parecendo que Kumalo tinha acabado de falar, quedaram-se em silncio por longo tempo. O padre Vicente tentou dizer qualquer coisa, mas nada lhe parecia apropriado.
Limitou-se a dizer:

- Meu  amigo!

E, embora nada mais acrescentasse, pensou que Kumalo tomaria aquelas palavras como sinal de que outras se seguiriam.

Por isso, repetiu:

-- Meu  amigo!

- Meu padre?

- Meu  amigo,  a  sua  ansiedade  transformou-se em medo e o medo tornou-se dor. Mas a dor  melhor que o medo, porque o medo empobrece sempre e a dor pode enriquecer.

Kumalo fitou-o com uma dureza de olhar pouco comum em homem to humilde, com um olhar to
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  duro que era difcil de sustentar.
v

- Eu no sabia que tinha enriquecido.

- A dor  melhor que o medo - disse o padre Vicente, com nfase. - O medo  uma jornada, uma jornada terrvel, mas a dor , pelo menos, ter chegado.

- E onde cheguei eu? - perguntou Kumalo.

- Quando  a  tempestade  paira ameaadora,  um homem receia pela sua casa - disse o padre Vicente, naquela  linguagem  simblica  to  usada  na  lngua zulu. -
Mas se a casa ficou destruda, alguma coisa tem de se fazer. Contra a tempestade ele nada faz, mas pode reconstruir a casa.

- Na minha idade? - exclamou Kumalo. - Veja o que aconteceu  casa que constru quando era novo e forte. Que nova casa vou eu construir agora?

- Ningum alcana os desgnios de Deus - contraps o padre Vicente, com calor.

Kumalo olhou-o, sem aspereza, sem ar acusador, sem recriminao.

- Parece que Deus se desviou de mim.

- Pode parecer que  sim - volveu  o  padre  Vicente -, mas  tal  coisa nunca  acontece.

- Sinto-me muito feliz por ouvi-lo falar assim disse humildemente Kumalo.

- Estivemos a falar em corrigir a vida - tornou o padre branco. - Em corrigir a vida  do seu filho. E como o senhor  padre, mais uma razo para isso ter mais importncia
para si que tudo o resto, mais importncia que o seu prprio sofrimento, que o sofrimento de sua mulher.

- Isso  verdade.  No entanto,  no sei  como  a vida possa ser corrigida.

- O senhor no pode ter dvidas; o senhor  cristo. Um ladro foi pregado na Cruz.

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- O meu filho no era ladro - disse asperamente Kumalo. - Havia um homem branco, um homem bom, que adorava a mulher e os filhos e, o que  mais, dedicado  causa
da nossa gente. E a mulher e os filhos ficaram sem amparo por obra de meu filho. No creio que possa haver desgraa maior.

- O homem est sempre a tempo de ser tocado pelo arrependimento.

- Ele arrepender-se- - disse Kumalo com amargura.- Se eu lhe pergunto: "Ests arrependido?", ele responde: " como o pai diz." Se eu lhe pergunto: "No  isto uma
desgraa?", ele responde: " uma desgraa." Mas se eu falar doutra forma, sem lhe pr a resposta nos lbios, se eu lhe perguntar: "Que vais fazer agora?", ele responder:
"No sei", ou: " como o pai diz."

A voz de Kumalo subiu, angustiada:

-  um estranho - disse. - No consigo comov-lo. No vejo remorso nele nem piedade por aqueles que feriu.  Saltam-lhe lgrimas dos olhos, mas parece que chora por
si mesmo, no pela sua maldade, mas por medo do perigo.

E clamou em alta voz:

- Como pode uma pessoa perder todo o sentido do mal? Um rapaz, criado como ele foi criado? Vejo nele somente d de si prprio, quando lanou duas crianas na orfandade.
Digo-lhe que todo aquele que ferir uma criana, melhor lhe fora...

- Cale-se! - gritou o padre Vicente. - O senhor no est em si. V rezar e depois descanse. No tenha pressa em julgar o seu filho. Talvez o choque sofrido o mergulhasse
no silncio e por isso ele lhe diga: " como o pai quiser", "Sim,  assim mesmo",

140
 "No sei".

Kumalo levantou-se.

- Acredito que seja assim, mas no tenho esperana nenhuma. Que disse que eu devia fazer? Ah, sim, rezar e descansar.

No havia ironia alguma na sua voz e o padre Vicente sabia que ele no era homem de ironias.  eram to irnicas as suas palavras que o padre branco o agarrou pelo
brao e lhe disse com veemncia:

- Sente-se! Tenho de lhe falar como padre.

E, logo que Kumalo se sentou, o padre Vicente disse:

- Sim! Eu disse rezar e descansar! Mesmo que sejam somente palavras que reze, mesmo que descansar seja somente deitar-se na cama. E no reze por si, no reze para
compreender os altos desgnios de Deus, porque so secretos! Quem sabe o que  a vida, se a vida  segredo? E porque tem o senhor d de uma rapariga, quando  certo
que ningum tem piedade de si?  um mistrio. E porque  que o senhor continua a viver, quando parecia melhor morrer?  um mistrio. No reze nem pense nessas coisas
agora, porque ter tempo depois. Reze por Gertrudes e pelo filho, reze pela rapariga que est para ser mulher do seu filho e pela criana que h-de ser sua neta!
Reze por sua mulher e por todos os que vivem em Ndotsheni! Reze pela mulher e pelas crianas que ficaram ao desamparo! Reze pela alma daquele que foi assassinado!
Reze por ns, os da Casa da Misso, e pelos de Ezenzeleni, que se esforam por reconstruir num lugar de destruio! Reze pela gente branca, por aqueles que fazem
justia e por aqueles que a fariam tambm se no tivessem medo! E no receie rezar pelo seu filho e pela sua regenerao!
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-Sim,  meu  padre - balbuciou  humildemente Kumalo.

- E   agradea  sempre  que  tiver oportunidade, pois nada  melhor do que isso. No h a sua mulher, e a Sr.a Lithebe, e Msimangu, e aquele rapaz branco do Reformatrio
? Mas, quanto ao seu filho e  sua regenerao, deixe isso comigo e com Msimangu; o senhor est desesperado de mais para ver a vontade de Deus. E agora, meu filho,
v, v rezar e descansar.

Ajudou-o a levantar-se e deu-lhe o chapu. E quando Kumalo ia agradecer-lhe, ele continuou:

- Ns fazemos aquilo que est dentro de ns, e a razo por que est dentro de ns  tambm um mistrio.  Cristo que est em ns, clamando que os homens devem ser
socorridos e perdoados, mesmo quando Ele  abandonado.

Conduziu o velho at  porta da Misso, e ali, ao deix-lo, rematou:

- Eu rezarei por si dia e noite. Farei isso e tudo o mais que me pedir.

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No dia seguinte, Kumalo, que comeava a aprender a orientar-se na grande cidade, tomou o comboio para Pimville para ir ver a rapariga grvida de seu filho. Escolheu
uma hora que impossibilitava Msimangu de o acompanhar, no porque se sentisse melindrado com ele, mas porque entendia que era melhor ir s. Pensava e agia lentamente,
como lento era o ritmo da sua vida na tribo. Compreendera
142 que tal lentido era de molde a impacientar os que

o acompanhavam e sentia que podia tambm alcanar o seu objectivo com mais segurana indo sozinho.

No sem dificuldade, l deu com a casa. Bateu  porta e a rapariga veio abrir, sorrindo-lhe indecisa, ora com uma expresso de medo, ora com uma expresso infantil
de boas-vindas.

- Como passas, minha filha ?

- Estou bem, umfundisi.

Sentou-se cuidadosamente na nica cadeira que havia na sala e limpou o suor da testa.

- Soubeste alguma coisa do teu marido? - perguntou. Apenas a palavra no significava precisamente "marido".

A rapariga deixou de sorrir.

- No, no soube nada.

- Pois o que tenho para te dizer  bem desagradvel. Ele est na cadeia.

- Na cadeia?

- Est na cadeia pela coisa mais horrvel que um homem pode fazer.

Mas a rapariga no o compreendeu e esperou pacientemente que ele continuasse. Era evidente que no passava de uma criana.

- Matou um homem branco.

- Ai! - gritou   ela,   cobrindo   o   rosto   com   as mos.

O prprio Kumalo no pde continuar, porque as palavras eram como navalhas que retalhavam uma ferida ainda aberta.

Ela sentou-se num caixote, com os olhos no cho e as lgrimas a correr-lhe vagarosamente pela face.

- No quero falar disso, minha filha. Sabes ler? Os jornais dos Brancos?

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- Um bocadinho.

- Ento deixo-te este para leres, mas no o mostres a ningum.

- Eu no mostro a ningum, umfundisi.

- Eu no quero falar mais disso. Vim aqui para tratar doutro assunto. Queres casar com o meu filho?

-  como o umfundisi quiser.

- Eu estou a perguntar-te, minha filha.

- Eu posso querer.

- E porque quererias tu?

Ela fitou-o, porque no podia compreender tal pergunta.

- Porque  queres   casar com  ele ?- insistiu   o velho.

Ela ps-se a arrancar pequeninas lascas de madeira do caixote, sorrindo, perplexa.

- Ele  o meu marido - disse ela, com a palavra que no significa precisamente "marido".

- E porque no casaste com ele antes?

As perguntas confundiam-na; levantou-se, mas, no encontrando nada que dizer, sentou-se novamente e ps-se a arrancar mais bocadinhos de madeira.

- Fala, minha filha.

- No sei o que hei-de dizer, umfundisi.

-  verdade que queres casar com ele?

-  verdade, umfundisi.

- Quero ter a certeza. No quero que entres para a minha famlia contra a tua vontade.

Ouvindo isto, ela fitou-o e disse com veemncia:

- Eu quero.

- Ns   vivemos   numa   terra   distante - disse ele. - No h l ruas, nem luzes, nem carros. S l vivo eu e minha mulher, e  uma terra muito sossegada. Tu s
zulu?

- Sou, umfundisi.

- Onde nasceste?

- Em Alexandra.

- E teus pais ?

- Meu pai deixou a minha me, e o meu padrasto... eu no podia entender-me com ele.

- Porque  que o teu pai deixou a tua me?

- Eles ralhavam um com o outro, umfundisi, porque minha me embriagava-se muitas vezes.

- E por isso o teu pai abalou. E abandonou-te tambm?

- Deixou-nos a todos, a mim e aos meus dois irmos mais novos.

- E os teus irmos, onde esto?

- Um est na escola, a escola para onde mandaram Absalo, e o outro est em Alexandra; mas no se porta bem, e j ouvi dizer que no tarda que o mandem tambm para
essa escola.

- Mas como pde o teu pai deixar-vos assim ? Ela olhou para ele inocentemente admirada:

- No sei.

- E tu no te entendias com o teu padrasto? E que fizeste ento?

- Fugi de l.

- E depois que fizeste?

- Vivia em Sophiatown.

- Sozinha?

- No, sozinha no.

- Com  o  teu  primeiro  marido? - insistiu  ele, friamente.

-Com o primeiro, sim - respondeu ela, sem dar conta daquela frieza.

- E quantos tiveste?

Ela teve um riso nervoso e ps os olhos na mo
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que arrancava madeira do caixote. Quando os levantou, encontrou o olhar do padre e ficou confusa. -S trs - respondeu por fim.

- E que aconteceu ao primeiro?

- Foi preso, umfundisi.

- E o segundo?

- Foi tambm preso.

- E agora o terceiro foi preso tambm.

O padre levantou-se e o desejo de a ferir assaltou-o. E, embora soubesse que isso era injusto, cedeu a esse desejo e disse-lhe:

- Sim, o teu terceiro foi tambm apanhado, mas agora  por assassnio. J tinhas tido algum que fosse assassino?

Deu um passo para ela e ela recuou, arrastando o caixote e gritando:

- No! No!

Kumalo, receando que pudessem ouvi-la l fora, serenou a voz, disse-lhe que no tivesse medo e deu um passo para trs.

Porm, logo que a viu mais sossegada, voltou-lhe o desejo de a ferir:

- No queres ter um quarto marido? - perguntou.

- No! No! - respondeu ela com desespero. No quero mais maridos.

E uma ideia feroz assaltou o esprito irado de Kumalo:

- Nem mesmo se eu te quisesse?

- O senhor? - exclamou ela, recuando de novo.

- Sim, eu - insistiu ele.

Ela olhou em volta, como se tivesse sido apanhada numa armadilha.

- No! No! Isso no estaria certo.

- E antes, estava certo?

- No, no estava!

- Mas terias querido ento ?

Ela riu-se nervosamente, olhou em roda e ps-se a descascar novamente a madeira do caixote. Mas sentiu os olhos do padre cravados nela e disse baixinho :

- Podia ter querido.

Kumalo deixou-se cair na cadeira e tapou o rosto com as mos. A rapariga, ao v-lo assim, desatou a soluar de desespero e vergonha. E ele, olhando para ela, vendo
a fragilidade do seu corpo franzino, ficou cheio de vergonha tambm, no pela complacncia da rapariga, mas pela sua prpria crueldade.

Inclinou-se para ela e perguntou:

- Quantos anos tens, minha filha?

- No sei - respondeu ela por entre soluos -, mas suponho que tenho dezasseis.

E ele, avassalado por uma piedade infinita, ps-lhe a mo na cabea.

E, devido ou  carcia do sacerdote, ou  profunda piedade de que ele estava possudo e que lhe flua da mo, ou a qualquer outro motivo, cessaram os soluos e ele
sentiu aquietar-se a cabea sob a sua mo.

Com a outra mo pegou nas dela, sentindo-lhes as cicatrizes dos trabalhos grosseiros nesta casa abandonada.

- Perdoa-me - disse. - Sinto-me cheio de vergonha pela pergunta que te fiz.

- Eu no sabia o que havia de dizer.

- Eu sabia que tu no sabias, e  por isso que tenho vergonha. Dize-me: queres, na verdade, casar com o meu filho?
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Ela agarrou-lhe as mos e respondeu: -  isso que eu quero.

- E queres ir para uma terra muito  longe e sossegada e ser nossa filha?

Com transparente alegria na voz, ela respondeu:

- Quero. --Deveras?

- Deveras.

- Minha filha.

- Umfundisi.

- Devo fazer-te uma pergunta um pouco dura.

- Estou a ouvir, umfundisi.

- Que fars nessa terra sossegada quando fores assaltada pelo desejo? Eu sou padre, vivo para a minha igreja, e a nossa vida l  tranquila e simples. No quero
pedir-te nada que no possas fazer.

- Eu compreendo, umfundisi; compreendo perfeitamente - respondeu a rapariga, olhando-o por entre as lgrimas. -No se envergonhar de mim. No tenha receio disso,
no tenha receio de ser um lugar tranquilo; tranquilidade  o que eu desejo.

E a palavra "desejo" excitou-a de tal forma que ela continuou num tom que deixou atnito o velho:

- Esse  que  o meu desejo,  o desejo que sinto dentro de mim.

- Compreendo-te. s mais inteligente do que eu julgava.

- Eu era inteligente quando andava na escola acudiu ela vivamente.

Ele soltou uma gargalhada, que o deixou estupefacto pelo seu som estranho.

- A que igreja pertences?

-  igreja inglesa, umfundisi - respondeu ela
148 com igual vivacidade.

Ele riu de novo perante a simplicidade da rapariga e, subitamente, tornou-se grave:

- Vais fazer-me uma promessa, uma promessa muito sria.

Ela tomou tambm um ar cheio de gravidade e disse:

- Sim, umfundisi.

- Se um dia te arrependeres da tua resoluo, quer aqui, quer quando fores para minha casa, no guardars isso s para ti nem fugirs como fizeste da casa da tua
me. Vais prometer que me dirs que te arrependeste.

- Prometo - disse ela solenemente.

E, no mesmo tom de veemncia, acrescentou:

- Nunca me arrependerei!

Ele riu-se de novo, deixou-lhe as mos e pegou no chapu.

- Virei  buscar-te  quando  tudo   estiver  pronto para o casamento. Tens roupa?

- Tenho alguma, umfundisi. Eu vou tratar dela.

- E  no  deves  continuar aqui.  Queres que te arranje um quarto ao p de mim?

Ela bateu as palmas como uma criana e exclamou:

- Quero,  quero,  umfundisi.  Arranje  depressa, para eu deixar este quarto.

- Fica em bem, ento, minha filha!

- V em bem, umfundisi!

Saiu da casa, e ela seguiu-o at ao portozinho. Quando se voltou para trs, para a ver, ela estava sorrindo para ele.

Caminhava como um homem a quem tivessem aliviado um pouco a sua dor, no completamente, mas um pouco. Lembrava-se tambm de que se tinha rido
e que isso o incomodava fisicamente como incomoda um doente que no pode rir.

Recordou-se tambm, sentindo um sbito abalo, da promessa do padre Vicente: "Rezarei noite e dia." Antes de dobrar a esquina voltou-se novamente para trs e viu
a rapariga a segui-lo ainda com a vista.

17

H poucas pessoas que no aluguem quartos, e a Sr.a Lithebe  uma delas. O marido, mestre-de-obras de profisso, era um homem honesto e bom, mas o casal no tivera
a alegria de ter filhos.

Construra para ela aquela casa linda e grande, com uma sala que fazia de casa de jantar e de estar e trs quartos de cama, dos quais um era para ela, outro para
o padre, com grande satisfao sua, visto que  sempre bom ter um padre de portas adentro,  sempre bom   ter em casa quem reze, e o outro era para Gertrudes e para
o filho, que, no fim de contas, tambm pertenciam ao padre. Estranhos  que ela no queria, pois o dinheiro chegava-lhe perfeitamente.

Era uma histria triste a do padre, era uma histria triste a de Gertrudes e do filho, era uma histria ainda mais triste a do filho dele. Da bondade do velho no
duvidava ela, porm. Ele  amvel e bom, trata-a com respeito e cortesia e comporta-se em casa como se esta fosse dele. Admirava-o tambm pelo que ele havia feito
para salvar Gertrudes e o filho, dando  irm um vestido novo e um pano branco e limpo para cobrir a cabea e ao menino uma camisa, uma camisola e umas calas. Conforme
150 o uso, ela tambm agradecera essas prendas.

E  agradvel ter em casa Gertrudes e o filho. A rapariga  prestvel e asseada, embora um pouco Descuidada consigo prpria e muito amiga de falar com gente estranha,
principalmente com homens.  que a Sr." Lithebe sabe que ela  uma mulher casada, e Gertrudes, dando-se conta de quanto ela  escrupulosa com a sua casa,  compreensiva
e obediente.

A histria mais triste  a do filho do velho, que, segundo o costume, as tem feito chorar e lament-lo. Ela e Gertrudes falam do caso sem cessar; na verdade,  a
nica coisa de que falam agora. O velho permanece calado e a sua face tomou um ricto de dor. Mas ela ouve todas as suas preces e sente com ele no fundo do seu corao.

E, embora fique longas horas sentado na cadeira, olhando em frente com os olhos magoados de sofrimento, anima-se quando ela lhe fala, deixando ttransparecer um sorriso
na mscara dolorosa e respondendo sempre, amvel e corts.

Da mesma forma, quando brinca com o rapazinho, perde qualquer coisa da sua rigidez e a sua face transforma-se. Contudo, mesmo nessas ocasies h por vezes um silncio
e ela ouve a criana fazer perguntas que ficam sem resposta, e ento espreita pela porta e v-o silencioso, sentado na cadeira, sozinho com os seus pensamentos e,
na sua face, a mscara da dor.

- Sr." Lithebe.

- Umfundisi.

- A senhora tem sido muito amvel,  mas eu tenho outro favor a pedir-lhe.

152

- Diga, diga, umfundisi.

- A senhora j ouviu falar daquela rapariga que est para tter uma criana do meu filho?

- Sim, j ouvi.

- Ela vive em Pimville, num quarto em casa de gente estranha. Quer casar com meu filho e eu julgo que isso se poder arranjar. Assim, acontea o que acontecer, ela
quer ir comigo para Ndotsheni e ter a criana numa casa limpa e decente. Mas eu estou ansioso por a tirar daquele lugar e queria saber... No gostaria de a incomodar,
me.

- Queria traz-la para aqui, umfundisi?

- Sim, seria uma grande bondade sua.

- Traga-a! Pode dormir na sala onde comemos. Mas cama  que no tenho.

- Isso no tem importncia. Mais lhe vale dormir no cho de uma casa decentie que...

- Decerto, decerto.

- Fico-lhe muito obrigado, me. A senhora  para mim uma verdadeira me.

- Para que serve vivermos, se no nos ajudarmos uns aos outros?

Depois disto ele ficou alegre, chamou o rapazinho, sentou-o nos joelhos, fazendo-o saltar como num cavalo. Mas no  brincadeira prpria para velhos, pois os velhos
cansam-se depressa e as crianas no. Por isso foram buscar os cubos de madeira e construram edifcios como os de Johannesburg, que depois faziam desmoronar no
meio de rudo e gargalhadas.

- E agora tenho de ir -disse Kumalo por fim. Tenho uma nova irm para te trazer.

Contou o dinheiro e viu que s restavam uma ou duas notas. No tardaria que precisasse de comear



[a gastar o dinheiro da caderneta dos Correios. Suspirou, vestiu o casaco, ps o chapu e pegou na bengala. A mulher teria de esperar mais tempo pelo fogo e ele
por um fato preto novo e pelos colarinhos que um padre deve usar.

A rapariga no  como Gertrudes. Sente-se satisfeitssima por estar nesta casa. Traz pouca roupa, mas limpa, pois tratou dela com esmero; poucas coisas mais possui.
Abre as portas e mira os quartos; v-se que se sente feliz, que nunca tinha vivido antes numa casa como esta. Trata a Sr.a Lithebe por me, o que desvanece a boa
mulher, bem como o facto de ela falar sesuto, embora atrapalhadamente. Gertrudes alegra-se com a sua vinda, pois a atmosfera na casa deve tornar-se menos sombria
e ter ocasio de falar muito com ela.

Mas a Sr.a Lithebe vem para junto delas quando as ouve rir e elas calam-se, Gertrudes divertida e a rapariga embaraada.  que a Sr.a Lithebe no gosta dessas gargalhadas
disparatadas. Chama a rapariga para a ajudar na cozinha e diz-lhe que no gosta disso.

- Ests numa casa decente, minha filha - diz-lhe.

- Sim, me - responde a rapariga de olhos no cho.

- E trouxe-te para aqui um homem bom e generoso, bom e generoso como h poucos.

A rapariga fita-a com ardor e exclama:

- Eu sei isso muito bem!

- Se te sentes feliz por ele te ter trazido, no te deves rir assim.

153
- Est bem, me.

- Tu s ainda uma criana e o riso  prprio das crianas, mas h vrias maneiras de rir.

- Sim, me.

- Compreendes o que quero dizer?

- Sim, sim, perfeitamente.

- Esse  pobre  velho   sofreu  um  grande  golpe. Sabes ao que me refiro?

- Sei, sim.

- E no deve sofrer outro, pelo menos em minha casa.

- Compreendo.

- Podes ir ento, minha filha, mas no fales da

nossa conversa.

- Compreendo.

- Ests contente por ter vindo para aqui, minha filha?

A rapariga fitou-a profundamente, abriu os braos, procurando um gesto com que pudesse exprimir os seus sentimentos, e exclamou:

- Sinto-me feliz. No quero estar seno aqui; no quero outro pai seno o umfundisi; no h nada que eu deseje que aqui no tenha.

- Vejo que estas contente. E outra coisa, minha filha. Quando o pequenito brincar contigo, no o deixes apertar-te tanto;  tempo de teres cuidado.

- Compreendo.

- Vai ento, minha filha. Esta casa  a tua casa.

E, assim, no houve mais gargalhadas despropositadas e a rapariga tornou-se sossegada e obediente. Gertrudes viu que ela era uma criana e tratou-a com indiferena,
divertindo-se  sua maneira.

154

Transps de novo o grande porto aberto no muro alto e sombrio e trouxeram-lhe o filho. De novo lhe apertou a mo sem vida, de novo lhe correram as lgrimas, desta
vez por ver a imensa tristeza do rapaz.

- Ests bem de sade, meu filho?

O filho estava de p e virou a cabea para um lado, olhando por momentos para uma janela, depois olhou para o outro lado sem encarar o pai.

- Estou, sim, meu pai.

- Tenho um assunto para tratar contigo, meu filho. Queres, de verdade, casar com a rapariga?

- Posso casar com ela?

- H um amigo meu, um padre branco, que anda a tratar do caso e que vai falar ao bispo para ver se isso se pode arranjar depressa. E tambm anda a tratar de arranjar
um advogado para ti.

Um relmpago de vida, de esperana, passou pelos olhos do rapaz.

- Gostarias de ter um advogado ?

- Dizem que ter advogado ajuda muito.

- Disseste  polcia que os outros dois estavam l contigo?

- Disse e tornei a dizer-lhes h pouco.

- E depois?

- Depois mandaram busc-los s celas.

- E depois?

- Depois ficaram ambos furiosos comigo, rogaram-me pragas diante dos polcias, dizendo que o que eu queria era met-los em trabalhos.

- E depois?

- Depois perguntaram-me que provas eu tinha
156

disso. A nica prova que tenho  que  verdade; foram eles os dois, e no outros, que estiveram comigo na casa, eu aqui, eles ali.

Fez um gesto a exemplificar e, com os olhos cheios de lgrimas, continuou:

- Tornaram a rogar-me pragas, olhando para mim cheios de raiva e dizendo um para o outro; "Como  que ele pode dizer tanta mentira a nosso respeito?"

- Eles eram teus amigos?

- Sim, eram meus amigos.

- E ento deixam-te sofrer sozinho ?

- Agora estou a ver que sim.

- E at ento eram amigos em que confiavas?

- Eu confiava neles.

- Eu sei o que queres dizer. Eram daquela espcie de amigos que um homem de bem pode escolher: honrados trabalhadores* respeitadores da lei ?

Velho, deixa-o sossegado. Leva-lo longe de mais e depois cais sobre ele. Ele olha-te sombriamente e em breve no obters resposta alguma.

- Dize! Eram amigos desses?

Mas o rapaz no responde. ,

- E agora deixam-te sozinho.

O outro continuou calado e depois murmurou:

-  o que estou vendo.

- E no vias isso antes?  Contrafeito, o rapaz respondeu:

- Tinha visto.

O velho sentiu a tentao de lhe perguntar: "Ento porque continuaste a acompanh-los?" Mas os olhos do rapaz estavam marejados de lgrimas e a piedade do pai venceu
a tentao. Tomou as mos do

filho,   agora  j   no   inanimadas,   mas   palpitantes de vida, e apertou-lhas fortemente e com carinho.

- Tem coragem, meu filho.  Lembra-te de que tens um advogado. Mas deves dizer-lhe somente a verdade.

- Direi s a verdade, meu pai.

Abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas no proferiu palavra alguma.

- No tenhas medo de falar, meu filho.

-  bom que ele venha depressa, meu pai. Olhou para a janela e nova onda de pranto o

assaltou. E, tentando falar com serenidade, concluiu:

- Ou talvez j seja tarde de mais.

- No tenhas receio disso. Ele vir em breve. Queres que v saber quando ele vem?

- V j, depressa, meu pai, depressa.

- O padre Vicente vir ver-te e assim poders confessar-te, receber a absolvio, reparar a tua vida.

- Isso ser muito bom, meu pai.

- E o casamento tambm se arranjar, se puder ser. A rapariga, ainda no te tinha dito, est a viver comigo em Sophiatown. Lev-la-ei para Ndotsheni e a criana
nascer l.

- Isso alegra-me, meu pai.

- E agora podes escrever a tua me.

- vou escrever, meu pai.

- E enxuga as lgrimas.

O rapaz levantou-se e enxugou os olhos com o leno que o pai lhe dera. Apertaram as mos, e na do rapaz havia j alguma vida.

O guarda disse para este:

- Fica aqui, h um advogado que te quer falar. O senhor tem de sair.

Kumalo partiu e viu  porta um homem branco
 157
pronto para entrar. Era um homem alto e grave com o aspecto de pessoa habituada a tratar de assum, tos complicados, ao qual o guarda, que o devia conhecer, tributou
mostras de grande respeito. Tinha a aparncia de um homem acostumado a lidar com coisas importantes, mais importantes que o caso de um rapaz negro que matou um branco,
e por isso entrou solenemente na sala, com -a solenidade prpria de um chefe.

Kumalo voltou para a Casa da Misso e tomou ch com o padre Vicente. Quando acabaram, ouviu-se bater  porta e o homem alto e grave apareceu.

E tambm o padre Vicente o tratou com respeito, tratando-o por excelncia e depois por Sr. Carmichael. Fez a apresentao de Kumalo, a quem o Sr. Carmichael apertou
a mo, tratando-o por Sr. Kumalo, o que no era costume. Tomaram mais ch, acabando por discutir o caso.

- Trato-lhe do caso, Sr. Kumalo - disse o advogado. - Trato-lhe disso pr Deo, como ns dizemos.  um caso simples, pois o rapaz diz que disparou somente porque
teve medo e sem inteno de matar. Isso depender do juiz-presidente e dos adjuntos, porque eu penso que  melhor requerer o julgamento assim do que ser feito por
jurados. Mas a respeito dos outros dois rapazes, no sei o que diga. Ouvi dizer, Sr. Kumalo, que seu irmo arranjou outro advogado para eles, e, na verdade, eu no
poderia tomar a sua defesa, porque, segundo creio, ela baseia-se em que eles no estavam no local e que   o seu filho, por motivos por ele somente sabidos,

que pretende implic-los tambm no caso. Se isso  verdade ou no, o tribunal decidir; todavia, inclino-me para a opinio de que seu filho fala a verdade, pois
no deve ter motivos para pretender incrimin-los falsamente. A mim compete-me convencer o tribunal de que ele diz toda a verdade e que diz a verdade quando afirma
que disparou por medo; consequentemente,  evidente que eu no poderia defender os outros dois, que dizem que ele no fala verdade. Compreendeu, Sr. Kumalo?

- Compreendi, senhor.

- Agora desejo obter todos os elementos acerca de seu filho, Sr. Kumalo; quando e onde nasceu, que espcie de criana foi, se era obediente e verdadeiro, quando
e porque saiu de casa e o que tem feito desde que chegou a Johannesburg. Compreende?

- Sim, compreendo.

- Preciso dessas informaes o mais cedo possvel,   porque o   caso ser  provavelmente  decidido numa das prximas audincias. Trate de saber o que ele tem feito,
no s por ele, mas tambm por intermdio de outras pessoas. Confronte as declaraes duns e doutros, compreende? E, se no corresponderem, diga-me tambm em que
diferem. Eu farei o mesmo, por minha parte. Compreende ?

- Compreendo, sim, senhor.

- E agora, padre Vicente, podemos ns tratar daquele assunto da escola?

- Com todo o prazer. D-nos licena, meu amigo? Conduziu Kumalo at  porta e, ficando de fora,

fechou-a.

- Deve dar graas a Deus por eu ter conseguido arranjar este homem.  um grande homem, um dos maiores advogados da frica do Sul e um grande amigo do seu povo.

159
- Darei todas as graas a Deus e agradeo-lhe a si tambm, meu padre. Mas, diga-me uma coisa, que estou ansioso por saber: quanto vai custar isto? O meu dinheiro
est quase gasto.

- No lhe ouviu dizer que tratava do caso pr Deo? Ah! sim, o senhor talvez nunca tivesse ouvido falar disso.  latim e significa por Deus. Quer dizer que no custar
nada ou custar pouqussimo.

-Ele trata disso por amor de Deus?

- Era o que isso significava nos velhos tempos em que havia f, embora agora tenha perdido muito desse sentido; mas ainda significa que o assunto  tratado de graa.

Kumalo balbuciou:

- Nunca na vida encontrei tanta bondade. Virou a face para o lado, para esconder as lgrimas, to fceis agora, nestes amargurados dias.

O padre Vicente sorriu-lhe e rematou:

- V em paz! - E voltou para junto do advogado que estava tratando do caso por Deus.

160

LIVRO  II



18

H uma estrada encantadora que vai de Ixopo at aos montes. Montes cobertos de relva ondulante e to belos que no h palavras para os descrever. A estrada serpenteia-os
na extenso de duas lguas, at Carisbrooke. Daqui, se no h nevoeiro, pode ver-se l em baixo um dos vales mais maravilhosos de tioda a frica.  nossa volta h
erva e fetos e pode ouvir-se o grito da titihoya, uma das aves do vela,. Em baixo fica o vale do Umzimkulu, na sua jornada de Drakensberg para o mar; e para alm,
muito para alm do rio, montes e mais montes; e mais para l, por detrs dos montes, as montanhas de Ingeli e de East Griqualand.

A erva, to forte e entranada que no nos deixa ver o cho, conserva a chuva e o nevoeiro, que penetram na terra e vo alimentar os riachos que se despenham por
todas as ravinas. Est bem conservada a erva, to escasso  o gado que a come e to poucos os incndios que lhe pem o solo a nu.

C em cima, no alto, h um lindo e pequeno vale, entre dois montes que o abrigam. Alm h uma casa e campos planos e lavrados; dir-vos-o que  uma das mais belas
quintas da regio. Chama-se Stio Alto, quinta e casa de habitao do Sr. James Jarvis, sobranceiro a Ndotsheni e ao grande vale do Umzimkulu. 163
Jarvis vigiava a lavra com ar sombrio. O sol quente dessa tarde de Outubro banhava os campos e no cu no se via uma nuvem. Chuva! Chuva! Mas no vinha chuva. Os
torres saltavam duros e inteiros e a charrua corria inutilmente dum lado para o outro sobre o cho de ferro. No extremo do campo parava e os bois ficavam ofegantes,
encharcados de suor.

- No vale a pena, umnumzana.

- Continua, Toms. vou at l acima ver o que se passa.

- No ver nada, umnumzana. Sei porque tambm j l fui ver.

Jarvis resmungou e, chamando o co, ps-se a subir o caminho dos pretos que vai dar ao cimo dos montes. L no havia sinais de seca, porque a erva era regada pelos
nevoeiros, e a brisa refrescava-lhe a face suada. Mas abaixo dos cumes a erva estava seca e os montes de Ndotsheni apresentavam-se vermelhos e nus. E os lavradores
das terras altas comeavam a recear que aquela desolao alastrasse, de ano para ano, milha por milha, at os alcanar.

De facto, falavam disso muitas vezes, quando se visitavam uns aos outros e se sentavam nas varandas frescas, tomando ch e contemplando os vales estreis e os montes
despidos, estendidos a seus ps. Uma boa parte dos seus trabalhadores vm de Ndotsheni e, por isso, sabem que de ano para ano h menos po nessas aldeias. Havia
l demasiado gado, e os campos, esgotados, tornaram-se estreis. Alguma
164
 coisa se podia ter feito, se essa gente tivesse
aprendido a lutar contra a eroso do solo, se tivesse construdo muros que impedissem as guas de levarem as terras, se tivesse lavrado no sentido dos contornos
dos montes. Mas os montes eram to ngremes que muitos deles no podiam ser lavrados e o gado estava to fraco que era mais fcil lavrar de cima para baixo. E o
povo era ignorante, no sabia nada de processos de cultivo.

Na verdade, isto  um problema quase insolvel. Alguns dizem que deve haver mais instruo, mas um jovem com certa educao no quer trabalhar no campo; larga para
a cidade em procura de profisso mais digna. O trabalho  feito por velhos e mulheres, e os homens, quando regressam das minas e da cidade, sentam-se ao sol, a beber
e a conversar o dia inteiro.

Outros dizem que a terra  muito pouca e que, mesmo com modernos processos de cultivo, no pode dar de comer aos indgenas. Mas h vrias formas de ver a questo.
Porque, se lhes do mais terras e eles as tratam como trataram as que j tinham, a regio tornar-se- num deserto. E donde viro essas terras e quem as pagar? Alm
disso, h outra razo: se lhes derem mais terras onde eles possam trabalhar e sustentar-se, quem trabalhar nas herdades dos Brancos? Havia um sistema pelo qual
o indgena podia viver em Ndotsheni e ir trabalhar de livre vontade nas quintas vizinhas. Havia ainda um outro, segundo o qual o indgena podia tomar terras do lavrador,
construir l o seu kraal para ele e para a famlia, ser-lhe dada Uma poro de terra onde ele trabalhasse para si, em troca do trabalho que ele e os seus, todos
os anos, prestassem ao lavrador branco. Mas mesmo este processo no era perfeito, porque

165

Alguns deles tinham filhos e filhas que se escapavam para as cidades e nunca mais voltavam para cumprir a sua parte no contrato, outros arruinavam as terras concedidas,
outros roubavam gado e matavam-no para comer e outros ainda eram preguiosos e vadios at que eram expulsos das herdades. E, de qualquer maneira, nunca se sabia
se os que lhes sucediam seriam melhores.

Assim pensava Jarvis enquanto subia at  cumeada dos montes, e, ao chegar, sentou-se numa pedra e tirou o chapu, para gozar melhor a frescura da brisa.

Era um panorama que uma pessoa nunca se cansava de contemplar, este grande vale de Umzimkulu. Dali podia olhar em volta para os ricos montes verdes que herdara do
pai, e para baixo, para o opulento vale que cultivava e onde construra a casa. Era a sua aspirao que o filho, o nico filho que tiveram, tomasse conta de tudo
quando ele desaparecesse. Mas o rapaz tivera outras ideias e fizera-se engenheiro, um engenheiro de nome, felizmente para ele. Casara com uma excelente rapariga
e tinha presenteado os pais com um lindo casal de netos. Tinha sofrido -um forte abalo quando ele se desinteressou do Stio Alto, mas cada qual tem o direito de
escolher o que quer e ningum deve impedi-lo de o fazer.

No vale, em baixo, um carro corria na direco da casa. Reconheceu o carro da polcia de Ixopo; devia ser Binnendyk, um africnder, alis bom tipo, que fazia a ronda.
Na verdade, viam-se agora muitos africnderes em Ixopo, onde, tempos atrs, nem um existia. Havia-os na polcia, nos correios, nos caminhos de ferro, e a gente das
aldeias dava-se bem com eles em todos os sentidos. Com efeito, muitos deles tinham
 casado com raparigas de lngua inglesa, o que, afinal, estava acontecendo em todo o pas. Seu prprio pai jurara que deserdaria qualquer filho que casasse com pessoa
de raa africnder, mas os tempos agora estavam mudados. A guerra tinha complicado um pouco a questo, pois alguns africnderes tinham ingressado no exrcito, outros
concordavam com a guerra mas no se alistaram, alguns eram pela neutralidade e, se tinham algumas simpatias, escondiam-nas, e ainda outros eram a favor da Alemanha,
mas, por uma questo de precauo, no o confessavam.

Sua mulher saa de casa ao encontro do automvel, donde desciam dois polcias. Um parecia o prprio comandante Van Jaarsveld, figura popular na aldeia, famoso jogador
de rugby no seu ttempo e combatente da primeira guerra mundial. Parecia que escolhiam com tacto os oficiais da polcia para servirem em distritos de lngua inglesa,
como Ixopo. Tudo indicava que o tinham vindo procurar, pois sua mulher apontava para o cimo dos montes. Decidiu-se a descer, deitando antes um novo olhar para o
vale. No havia chuva nem sinais de que se aproximasse. Chamou o co e ps-se a descer o ngreme caminho por entre as fragas. Ao atingir uma pequena plataforma que
quebrava a descida, notou que Van Jaarsveld e Binnendyk vinham j a trepar a encosta, tendo deixado o carro junto ao caminho que levava ao campo lavrado. Deram por
ele, que os saudou com a mo e se sentou numa pedra  sua espera. Binnendyk ficou para trs e somente o capito veio ter com ele.

- Ol, comandante! O senhor vem-nos trazer chuva? '67

O outro parou, olhou para o vale e para as montanhas distantes e disse:

- No vejo sinais disso, Sr. Jarvis.

- Nem eu. Que o traz por c hoje? Apertaram as mos e o capito fitou-o.

- Sr. Jarvis!

- Que h?

- Tenho ms notcias para si.

- Ms notcias ?

Jarvis sentou-se, com o corao num tumulto.

-  do meu filho? - perguntou.

- , Sr. Jarvis.

- Morreu ?

- Morreu, Sr. Jarvis.

E, depois de uma pausa, acrescentou:

- Foi morto  uma e meia da tarde de hoje em Johannesburg.

Jarvis ps-se em p, com os lbios a tremer.

- Assassinado ? Por quem ?

- Suspeita-se dum ladro indgena. Sabia que a sua nora no estava em casa?

- Sim, sabia.

- Ele tinha ficado em casa durante o dia, por estar ligeiramente indisposto. Julgo que o assassino supunha no estar ningum em casa. Parece que o seu filho ouviu
barulho e desceu para ver o que era. O indgena deu-lhe um tiro mortal; no h sinais de luta.

- Meu Deus!

- Sinto muito, Sr. Jarvis, sinto bastante ter de lhe dar esta notcia.

E  estendeu-lhe a mo, mas  Jarvis,  sem ver o gesto, sentou-se de novo.

- Meu Deus! - repetiu.

Van Jaarsveld ficou silencioso, enquanto o outro Dentava recompor-se.

- Disse alguma coisa a minha mulher, comandante?

- No, Sr. Jarvis.

Jarvis contraa as sobrancelhas sem cessar, como
se a si mesmo impusesse tal tarefa.

- Ela no  forte. No sei o que acontecer.

- Recebi instrues para lhe prestar todo o auxlio, Sr. Jarvis. Binnendyk pode lev-lo a Pietermaritzburg de carro, se o senhor quiser. L pode tomar o comboio
rpido s nove horas e chegar a Johannesburg amanh s onze da manh. J tem um compartimento reservado para si e para sua esposa.

-  muita bondade da sua parte.

- Estou  ao  seu  dispor  para  o  que  precisar, Sr. Jarvis.

- Que horas so?

- Trs e meia.

- Foi h duas horas.

- Sim, h duas horas.

- H trs horas ainda ele estava vivo.

- Ainda, Sr. Jarvis.

- Meu Deus!

-- Se quer apanhar o comboio, deve ir s seis horas. Ou, se prefere, pode tomar um avio. H um  espera em Pietermaritzburg, mas temos de lhe dar uma resposta at
s quatro horas. Podia chegar a Johannesburg  meia-noite.

- Sim, sim, o senhor  que sabe; eu no tenho cabea para pensar.

  -Compreendo-o perfeitamente.

 - Que ser melhor?

   - Julgo que o avio, Sr. Jarvis.69
170

- Est bem ento o avio. Mas o senhor disse que era precisa uma resposta?

- Eu falo para l logo que cheguemos a casa. Posso falar do seu telefone, de forma que sua esposa no d conta?  urgente, como sabe.

- Sim, sim, faa o que quiser.

- Acho que  melhor irmos. Mas Jarvis no se movia.

- Pode levantar-se, Sr. Jarvis? No queria ajud-lo porque sua esposa est a ver-nos.

- Ela  est  intrigada,   comandante.   Mesmo  de longe ela v que se passa algo de anormal.

-  muito provvel. Ela percebeu qualquer coisa na minha cara, embora eu tivesse tentado nada deixar transparecer.

Jarvis levantou-se e murmurou:

- Meu Deus! Ainda mais isso!

E puseram-se a descer o ngreme caminho, precedidos de Binnendyk.

Jarvis caminhava titubeando.

- Morto a tiro ? - tornou.

- Sim, Sr. Jarvis.

- J apanharam o criminoso?

- Ainda no, Sr. Jarvis. Encheram-se-lhe os olhos de lgrimas e mordeu
os lbios.

- E de que vale isso agora? - murmurou. Chegaram ao sop do monte, perto  do campo,

onde, atravs da nvoa que lhe embaciava os olhos, viu a charrua arrancando os torres, percorrendo inutilmente a superfcie do cho de ferro.

- Deixa isso, Toms. Era o nosso nico filho, comandante.

- Eu sei, Sr. Jarvis.

Subiram para o carro e, poucos minutos depois, chegaram a casa.

- Que h, James?

- Nada de bom, minha querida. Anda comigo para o escritrio. Comandante, pode servir-se do telefone; sabe onde est?

- Sei, sim, Sr. Jarvis.

O capito foi telefonar. Era uma linha indirecta e dois vizinhos tinham-na tomado.

- Faam o favor de desligar - pediu o capito.- Esta  uma chamada urgente da polcia; faam favor de desligar.

Tocou com energia a campainha, mas sem resultado. Devia haver um sinal especial para a polcia nestas linhas de provncia. Iria tratar disso. Tornou a tocar com
mais energia.

- Troncas ? Polcia de Pietermaritzburg, muito urgente.

- vou ligar imediatamente - responderam. Esperou impaciente, ouvindo estranhos e ininteligveis rudos.

- Ateno  chamada para a polcia de Pietermaritzburg.

Comeou logo por tratar do assunto do avio, mas tomou o segundo auscultador, que ps no outro ouvido para no ouvir os gritos da mulher, que chorava e soluava.



19

Um homem novo esperava-os no aerdromo.

-  o casal Jarvis?

- Sim.

- Chamo-me Joo Harrison, sou irmo da Maria Julgo que no se lembram de mim; era um garoto quando me viram pela ltima vez. Deixem-me levar as malas; tenho ali
um carro  espera.

E, caminhando para o edifcio do aerdromo, o rapaz continuou:

- Avalio bem o vosso desgosto, Sr. Jarvis. Q Artur era o homem mais admirvel que tenho conhecido.

No automvel retomou a conversa:

- A Maria e os meninos esto em casa da minh me e esperamos que tambm l fiquem.

- Como est a Maria?

- Muito abalada pelo choque, mas ela  muito corajosa.

- E as crianas?

- Foi um golpe terrvel para elas, a ponto de ter sido uma grande preocupao para Maria.

No tornaram a falar. Jarvis tomou a mo da mulher, mas ficaram ambos em silncio, mergulhados nos seus pensamentos, at o carro passar pelo porto de uma casa dos
arrabaldes e parar junto  porta iluminada. Uma jovem apareceu ao rudo do carro e abraou-se  Sr.a Jarvis, chorando ambas. Depois abraou Jarvis tambm. Pouco
depois o Sr. e a Sr.a Harrison apareceram e, aps as palavras habituais em tais circunstncias, entraram todos.

Harrison dirigiu-se a Jarvis:

- Toma alguma coisa?

- Com prazer, obrigado.

- Venha ento para o escritrio.

Ali chegados, Harrison continuou: '

- E agora esteja  sua vontade. Se precisar de
172  alguma coisa de ns,  s dizer. Se quiser ir j 

morgue, o Joo vai consigo. Ou podem ir amanh, se preferir. A polcia queria falar consigo, mas no creio que o incomodem hoje mesmo.

- Tenho de perguntar a minha mulher, Harrigon. O senhor compreende, pouco falmos ainda nisto. vou ter com ela; deixe-se ficar, no se incomode.

- Espero aqui por si.

Foi encontrar a mulher e a nora de mos dadas, caminhando em bicos de ps no quarto onde os netos dormiam. Disse-lhe ao que ia e ela comeou a chorar e a soluar,
encostada a ele.

--Vamos agora - disse.

Jarvis voltou para junto de Harrison; pegou no copo e bebeu; depois, com a mulher e a nora, subiu para o carro, onde os esperava Joo Harrison.

A caminho da morgue, Joo Harrison relatou a Jarvis tudo o que sabia a respeito do crime, que a polcia estava  espera que o criado recuperasse os sentidos e que
tinham esquadrinhado as plantaes de Parkwold Ridge. Falou-lhe tambm do trabalho que Artur Jarvis estava escrevendo quando foi morto: A Verdade acerca da Criminalidade
Indgena.

- Gostaria de ver isso - disse Jarvis.

- Amanh trago-lho, Sr. Jarvis.

- Eu e o meu filho no estvamos de completo acordo na questo dos indgenas. Algumas vezes tivemos discusses sobre o assunto, mas gostava de ler o que ele escreveu.

- Eu e o meu pai tambm diferamos de opinio a respeito do assunto. O senhor sabe bem que no havia ningum na frica do Sul que ligasse mais importncia ao caso
e que o estudasse com mais compreenso do que o Artur. Ele costumava dizer que
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174

no havia na frica do Sul problema que merecesse um estudo to profundo e atentto.

Chegaram  morgue e, enquanto Joo Harrison permanecia no carro, os outros desceram para enfrentar mais aquela dura prova. Saram depois en silncio, s perturbado
pelo pranto das duas mulheres, e em silncio regressaram a casa, onde lhes abriu a porta o pai de Maria.

- Quer beber mais  alguma  coisa,  Jarvis?  Ou prefere ir j para a cama?

- Margarida, queres que v j para cima contigo?

- No, querido, fica e toma alguma coisa.

- Ento boa noite, querida.

- Boa noite, James.

Beijou-a e ela ficou, por momentos, abraada a ele.

- Muito obrigada a todos por tudo - disse ela, enquanto os olhos se lhe enchiam novamente de lgrimas.

Jarvis ficou a v-la subir a escada, acompanhada pela nora, e, depois de se ter fechado a porta do quarto, voltou com Harrison para o escritrio.

- Isto  sempre pior para as mes, Jarvis.

- Pois .

E, considerando um pouco, acrescentou:

- Fui sempre muito amigo do meu filho. Nunca me deu qualquer desgosto.

Sentaram-se a beber e Harrison contou-lhe como o crime tinha chocado a gente de Parkwold e que era enorme o nmero de cartas recebidas.

- Cartas dos stios mais inconcebveis e de toda a qualidade de gente. A propsito, Jarvis, ns marcmos  provisoriamente o  funeral  para amanh  


tarde, depois da cerimnia na igreja de Parkwold, s trs horas.

Jarvis concordou com um gesto e respondeu:

- Muito obrigado.

- Tambm guardmos todas as cartas que vieram para si; do bispo, do primeiro-ministro interino, do presidente da Cmara e de dezenas de outras pessoas. At de organismos
de indgenas, qualquer coisa parecida com Filhas de frica, e de um sem-nmero de outros cujos nomes me no ocorrem agora. At de mulatos, indianos e judeus.

Jarvis sentiu apoderar-se de si um orgulho melanclico.

- Ele era esperto. Saa  me.

- Era. E tinha carradas de razo ...

- Devia ouvir o Joo a esse respeito. Mas gostavam dele, toda a gente gostava dele. Sabia que ele falava afrikoans como um africnder?

- Sim, sabia que ele tinha aprendido.

-  uma algaraviada de que no percebo nada, graas a Deus. Mas ele pensava que tinha obrigao de a saber e aprendeu; foi at passar um tempo a uma quinta de africnderes.
Falava zulu,  como sabe, e tinha a inteno de aprender sesuto. O senhor sabe que h esses deputados que representam os indgenas...  Pois bem, falava-se para a
em ele ser proposto deputado pelos indgenas nas prximas eleies.

- No sabia disso.

- Pois era assim. Ele no cessava de falar por toda a parte, em comcios e conferncias, dessas coisas que o senhor sabe: criminalidade indgena, mais escolas para
os indgenas, etc. Foi um burburinho nos jornais quando ele levantou a questo das con-

!75
dies no Hospital para No-Europeus. Sabe tambm que ele foi s do cabo com a questo do sistema das casas de malta nas minas e queria que a Cmara estabelecesse
totalmente o processo da fixao do trabalhador, isto , a mulher e os filhos viriam para junto do homem.

Jarvis enchia vagarosamente o cachimbo e ouvia a histria do filho, a histria dum estranho.

- O Hathaway, da Cmara de Minas, falou-me a esse respeito. Pediu-me que avisasse o rapaz de que devia gritar menos, porque a firma dele fazia muitos negcios com
a Cmara. Por isso falei-lhe, dizendo-lhe que sabia a dedicao que ele tinha por essas coisas, mas que era melhor lev-las mais devagar. Que era preciso pensar
na Maria e nos filhos.  claro que eu no falava em nome dela, est a compreender-me? No gosto de meter o nariz nos negcios da gente nova.

- Bem compreendo.

"- J falei disso com a Maria", disse-me ele, "e concordmos que  mais importante dizer a verdade que arranjar dinheiro."

Harrison deu uma gargalhada, logo reprimida ao lembrar-se da gravidade do momento.

- O meu filho Joo tambm estava presente e olhava para o Artur como se ele fosse Deus, Todo-Poderoso. Assim, que mais poderia eu dizer?

Fumaram em silncio por um momento e depois Harrison continuou:

- Interroguei-o a propsito dos scios, porque, afinal, o negcio deles  vender maquinaria para as minas. "J discuti isso com eles", respondeu-me, "e disse-lhes
que, se houver complicaes, sairei da

176
 sociedade." "E que farias?", perguntei-lhe. "Qualquer
outra coisa", exclamou ele. Estava um tanto excitado e achei bem ficar por ali.

Jarvis nada disse. Sim, este seu filho tinha gravitado num mundo estranho, mais distante do que os pais julgavam. Ou talvez a me soubesse, o que no o surpreenderia;
mas ele  que nunca tinha ido to longe e por isso nada podia dizer.

- Estou  a ma-lo,  Jarvis?  Talvez haja qualquer coisa mais que deseje saber? Ou quer ir para a cama?

- Harrison, o melhor que me pode fazer  falar.

- Pois bem,  era assim  que  ele  procedia. Ns no falvamos muito destas coisas, porque eu no as vejo da mesma maneira. Fao por tratar o Preto decentemente,
mas  no os  trago  ao  colo.  E para dizer a verdade, estes crimes pem-me fora de mim. Digo-lhe mesmo, Jarvis, ns, em Johannesburg, vivemos presentemente num
constante terror.

- Terror do crime ?

- Sim, dos crimes dos indgenas. Assassinatos e roubos  mo armada no tm conta. Devo dizer-lhe que  noite, antes de nos irmos deitar, barricamos as casas. Aqui
a terceira casa a seguir, a dos Phillipsons, foi uma noite assaltada por uma quadrilha. Agrediram o velho Phillipson, que ficou estendido no cho sem sentidos, e
espancaram a mulher. Foi uma sorte as raparigas terem sado para um baile, pois, se elas l estivessem, no sei o que aconteceria. Falei nisso ao Artur e ele foi
de opinio que a ns nos cabia alguma culpa. No afirmo que concordasse sempre com ele, mas a verdade  que ele tinha uma maneira extraordinria de ser sincero.
Ficava-se com a impresso de que, com o andar do tempo, se reconheceria razo no que ele dizia.
177

- H uma coisa que est fora de toda a razo
- interrompeu Jarvis. - Porque aconteceria isto?..

- Precisamente a ele,  o que quer dizer?

- Exactamente.

- Foi uma das primeiras coisas em que pensamos. Dia e noite andava sempre nessa espcie de misso; e, afinal, foi a ele que mataram.

- Repare - atalhou    Jarvis - que       sempre assim. Lembre-se do que acontecia antes: os missionrios  que eram assassinados.

Harrison no respondeu e quedaram-se a fumar em silncio.

Um missionrio, pensava Jarvis. Como era estranho chamar ao filho um missionrio, ele que nunca ligara muita importncia a missionrios.  verdade que a Igreja alguma
coisa faz e ele mesmo alguma coisa tinha dado, quando lho pediam, mas isso fazia-se sem acreditar muito em missionrios. Havia uma misso perto dele, em Ndotshen.
Mas era um lugar Uriste, se bem se lembrava. Uma igreja suja, de madeira e lata, coberta de colmo, desprezvel, e um velho padre sujo, num vale estril, onde at
a erva crescia a custo. Uma escola velha e suja onde ele tinha ouvido recitar lies papagueadas, quando por ali passava a cavalo, onde as crianas recitavam coisas
de que pouco ou nada compreendiam.

- Para a cama, Jarvis? Ou vai outro whisky?

- vou para a cama. No me disse que a polcia viria aqui?

- Vem s nove.

- Gostava de ir ver a casa.

- Penso que pode l ir; eles levam-no l.

- Bem, ento vou para a cama. Diga "boa noite"
178
 por mim a sua mulher.


- Eu lhe direi. Sabe onde  o quarto? E o pequeno almoo? s oito e meia?

- s oito e meia. Boa noitle, Harrison, e mil agradecimentos por tudo.

- No tem nada que agradecer. Boa noite, Jarvis. Estimo que consigam passar pelo sono.

Jarvis subiu a escada e entrou no quarto. Fechou a porta, caminhando sem rudo e sem acender a luz. O luar entrava pela janela, onde ele se quedou olhando para fora.
Pelo pensamento passava-lhe serenamente tudo o que tinha ouvido. A mulher voltou-se no leito e chamou:

- James!

- Querida!

- Em que ests a pensar?

Ficou um momento calado, meditando na resposta, e disse:

- Nisto tudo.

- Parecia-me que nunca mais vinhas.

Ele precipitou-se para ela, que lhe agarrou as mos.

- Estivemos a falar do nosso filho, do que ele fez e do que tencionava fazer. Toda a gente est desolada.

- Conta-me tudo.

E ento ele disse-lhe tudo o que ouvira.

A Sr.a Jarvis ficou um tanto admirada, pois o marido costumava ser pessoa de poucas falas. Mas agora contava-lhe tudo o que ouvira a Harrison.

- Isso enche-me de orgulho - murmurou ela.

- Mas tu sempre soubeste que ele era assim.

- Sim, sabia.

- Eu tambm sabia que ele era um homem perfeito, mas nunca o conheci to bem como tu.

179
-  mais fcil para as mes, James.

- Penso que sim. Mas agora tenho pena de o no ter conhecido melhor. Compreendes, as preocupaes dele nunca tiveram para mim grande interesse.

- Nem para mim, James. A sua vida era completamente diferente da nossa.

- Era uma vida magnfica, em todo o caso.-Sentou-se e ela permaneceu deitada, ambos silenciosos, com os seus pensamentos, com as suas recordaes, com as suas penas.

- Embora  a  sua  vida fosse  diferente - disse ele -, tu compreendia-la.

-  verdade, James.

- Eu tenho pena de no a ter compreendido. E acrescentou baixinho:

- No sabia que era to importante t-la compreendido.

- Querido,   meu   querido - suspirou   ela,   agarrando-se a ele a chorar.

E ele continuou baixinho:

- S  h  uma  coisa  que eu  no  compreendo: porque lhe teria acontecido isto, a ele?

Ela quedou-se a pensar nisso. A dor era profunda, profunda e avassaladora. Estreitou-o mais nos braos e disse:

- Vamos fazer por dormir, James.

20

Jarvis sentou-se na cadeira do filho; sua mulher

e Maria tinham partido para casa dos Harrisons.

tantos Livros, livros, e mais livros, tantos como nunca vira
em casa alguma. Na mesa, papis, cartas e mais livros:
Sr. Jarvis, querer falar na reunio da Irmandade Metodista de Parkwold? Sr. Jarvis, por favor, venha falar na Associao da Mocidade Anglicana de gophiatown! Sr.
Jarvis, quer ter a bondade de discursar no banquete da Universidade?

No, ao Sr. Jarvis  impossvel falar agora em qualquer desses lugares.

Sr. Jarvis, fica convidado para o congresso anual da Sociedade de Judeus e Cristos. O Sr. Jarvis e sua Esposa so convidados para o casamento de Sarajini, filha
mais velha do Sr. e Sr." H. B. Lingh. O Sr. Jarvis e sua Esposa so convidados para uma festa no vale de Van Vyk.

No, o Sr. Jarvis no pode aceitar nenhum destes amveis convites.

Nas paredes, entre os livros, viam-se quatro quadros: Cristo crucificado, Abrao Lincoln, a casa branca, de fachada triangular, de Vergelegen, e um quadro de salgueiros
sem folhas junto a um rio, numa campina e no Inverno.

Levantou-se da cadeira e examinou os livros, todos acerca de Abrao Lincoln. No sabia que se tinham escritlo tantos livros a respeito de um s homem. Uma estante
estava cheia deles e outra repleta de livros sobre a frica do Sul: A Vida de Rhodes, de Sarah Gertrude Millin, A Vida de Smuts, da mesma escritora, A Vida de Louis
Botha, de Engelenburg, livros sobre os problemas raciais da frica do Sul, sobre pssaros da frica do Sul, sobre o Kruger Park e uma imensidade de outros. Outra
estante estava cheia de livros em afrikaans, mas os ttulos nada lhe revelavam. E, aqui e alm, livros
sobre religio, sobre a Rssia Sovitica, sobre crime e criminosos e livros de versos. Procurou Shakespeare, e ali estava Shakespeare tambm.

Voltou a sentar-se e ps-se a olhar para os quadros de Cristo crucificado, de Abrao Lincoln, de Vergelegen e dos salgueiros junto ao rio. Depois puxou para si uns
papis.

O primeiro era uma carta para seu filho, do secretrio do Clube da Mocidade Africana de Claremont, na qual se lamentava que Jarvis no tivesse podido comparecer
na reunio anual e informando-o de que tinha sido reeleito presidente do Clube. E a carta terminava com estas frases, duma simplicidade primitiva:

Pede-me a assembleia geral que felicite V. S. por essa razo e lhe exprima os nossos sinceros agradecimentos por todo o tempo que tem gasto connosco e pelos presentes
que V. S. deu ao Clube. Como poderia fundar-se o Clube sem a participao de V. S.,  um mistrio para muitos de ns. Por todas estas razes,  nosso desejo eleger
V. S. outra vez para a presidncia.

Peo desculpa deste papel, mas o papel de cartta do nosso Clube perdeu-se devido a circunstncias imprevistas.

Sou de V. S. servidor obediente

Washington Lefifi

Os outros  papis  eram escritos  por  seu filho.
182   Era  evidente  que  faziam  parte  de  um  outro  love
maior, visto que na primeira linha terminava uma frase e na ltima havia outra frase por acabar, procurou as partes que faltavam, mas, no as encontrando, ps-se
a ler as que tinha na mo:

.. era lcito. O que fizemos quando viemos para a frica do Sul era lcito. Era lcito desenvolver os nossos enormes recursos com a ajuda da mo-de-obra de que
podamos lanar mo. Era lcito usar homens no especializados em trabalhos no especializados. Mas no deixar que os homens se especializem por causa do trabalho
no especializado  que no  lcito.

Era lcito trazer trabalhadores para as minas, quando descobrimos o ouro. Era lcito construir casas de maltla e conservar as mulheres e as crianas longe da cidade.
Era lcito, como experincia,  luz do que ento sabamos. Mas  luz do que sabemos agora, salvo certas excepes, j no  lcito. No nos  lcito destruir a vida
da famlia, quando sabemos que estamos a destru-la.

 lcito desenvolver quaisquer recursos se os trabalhadores deles beneficiarem, mas no  lcito desenvolver quaisquer recursos  custa somente dos trabalhadores.
No  lcito explorar o ouro, manufacturar qualquer produto, cultivar qualquer terra, se essa explorao  , essa indstria ou essa cultura fazem depender o seu xito
do trabalho mal remunerado. No  lcito a ningum aumentar os
 seus haveres, se estes somente podem ser
183
184

obtidos  custa dos outros homens. Esse sistema s pode ter uma designao verdadeira: explorao. Tudo isto podia ter sido lcito nas primeiras eras do nosso pas,
antes de conhecermos o seu preo: a desintegrao da vida da comunidade indgena, a pobreza, bairros de misria e crime. Mas agora, que sabemos o preo, j no 
lcito.

Era lcito deixar a educao do indgena a cargo dos que queriam desenvolv-la; era lcito, at, duvidar dos seus benefcios. Mas j no  lcito agora,  luz do
que nos  dado conhecer; em parte, porque ela ajudou o progresso industrial, em parte porque, mau grado nosso, h j hoje uma grande populao indgena urbanizada.
Hoje, a sociedade tem sempre, por razes de interesse prprio, se no por outras, de educar os seus filhos de forma que eles cresam no respeito da lei e com propsitos
e objectivos de vida em sociedade. No h outro caminho a seguir. E, no entanto, ns continuamos a confiar a educao da nossa sociedade indgena urbana a uns poucos
de europeus que a tal se dedicam esforadamente e a recusar oportunidades e dinheiro para a sua expanso. Isto no  lcito. Mesmo por razes de interesse prprio,
isto  perigoso.

Foi lcito consentir na destruio do sistema da tribo, que impedia o crescimento do Pas. Foi lcito acreditar que essa destruio era inevitvel. Mas no  lcito
contemplar a sua destruio e no arranjar substituto para

f

o sistema ou substitu-lo por to pouco que cause a deteriorao fsica e moral dum povo inteiro.

O velho sistema da tribo, com toda a sua selvajaria e violncia, com toda a sua superstio e bruxarias, era um sistema moral. Os nossos indgenas de hoje produzem
criminosos, prostitutas e alcolicos, no porque a sua natureza os leve a isso, mas porque o seu sistema simples de ordem, tradio e conveno foi destrudo. Destrudo
pelo choque da nossa prpria civilizao. Por conseguinte, a nossa civilizao tem o inelutvel dever de erigir um outro sistema de ordem, tradio e conveno.

 certo que tivemos esperana na poltica de segregao para preservar o sistema da tribo. Era lcito, mas nunca o aplicmos inteira ou honestamente. Reservmos
uma dcima parte da terra para quatro quintos da populao. E ento deu-se o inevitvel e muitos dizem que o fizemos deliberadamente: a massa trabalhadora afluiu
s cidades. Fomos colhidos nas redes do nosso prprio egosmo.

Ningum quer que o problema parea mais simples do que . Ningum pretende que a sua soluo parea fcil. Ningum deseja negar o medo que nos acomete, mas, tenhamos
ou no medo, nunca ns, que somos um povo cristo, poderemos falsear os princpios da moral.

 altura ...

, ",", ->,
Ali acabava a pgina e o manuscrito. Jarvis, qy. tinha sido absorvido pela leitura, fez nova busca por, entre os papis espalhados pela mesa, mas nada mais encontrou
que pudesse ser a continuao do que lera Acendeu o cachimbo, puxou para si os papis e comeou a ler de novo.

Depois de ter lido pela segunda vez, ficou a fumar o cachimbo, mergulhado nos seus pensamentos Por fim, levantou-se e ficou de p junto  estante dos livros de Lincoln,
contemplando o retrato do homem que tanta influncia exercera sobre o filho. Mirou as centenas de livros, abriu a porta envidraada e tirou um. Voltlou para a cadeira
e comeou a virar as folhas. Um dos captulos tinha por ttulo: "O famoso discurso de Gettysburg", aparentemente um discurso falhado, mas que tinha sido considerado,
desde ento, como uma das melhores peas de oratria do mundo. Voltou as pginas do prembulo e ps-se a ler interessadamente o discurso. Quando acabou, ps-se de
novo a fumar, perdido numa profunda meditao. Algum tempo depois levantou-se e ps o livro na estante, que fechou. Mas logo a abriu de novo, meteu o livro no bolso
e fechou a estante. Olhou o relgio, bateu o cachimbo na lareira do fogo, ps o chapu e pegou na bengala. Desceu devagar a escada e abriu a porta que dava para
o corredor fatal. Tirou o chapu e inclinou-se para ver no cho a mancha escura do sangue. E, sem querer, contra sua vontade, a imagem do rapazinho do Stio Alto,
que brincava com espingardas de madeira, apareceu, viva, no seu esprito. Olhando em frente, mas sem nada ver, caminhou pelo corredor at  porta, atravs da qual
a morte to
186
 inesperadamente viera ao encontro do filho. O polcia ali de

uarda cumprimentou-o e ele respondeu-lhe com palavras sem significao, vazias de sentido. Indeciso, olhou para um e outro lado da rua. Depois, com esforo, principiou
a caminhar.  O polcia deu um suspiro de alvio.

21

Terminara a cerimnia na igreja de Parkwold, demasiadamente pequena para todos os que vieram assistir.

Brancos, pretos, mestios, indianos - era a primeira vez que Jarvis e a mulher se encontravam numa igreja junto de gente que no era branca. O prprio bispo ftinha
feito uma prdica, palavras que mortificavam e aliviavam. Disse que os homens no decifravam o mistrio pelo qual um homem novo, de cuja vida tanto se esperava,
era assim derrubado em plena juventude, pelo qual uma mulher sofria a viuvez e os filhos a orfandade, pelo qual o Pas era privado de um filho que tantos servios
lhe prestara. A sua voz exaltava-se, numa linguagem cheia de beleza, e Jarvis, por certo tempo, ouviu-a, esquecido do desgosto, fascinado pelas palavras. E o bispo
disse que ali estava uma vida dedicada  frica do Sul, vida de inteligncia, de coragem, de amor, que repele o medo e fazia o Pas orgulhar-se do estrangeiro que
fora seu filho.

Findara o funeral. As portas de bronze abriram-se sem rudo e o caixo deslizou para a fornalha que o iria reduzir a cinzas. E pessoas que ele
188

no conhecia vieram apertar-lhe a mo, uns manifestando-lhe a sua simpatia em palavras convencionais, outros falando-lhe com simplicidade do filho A gente negra
- sim, a gente negra tambm - pela primeira vez na vida lhe apertou a mo.

Voltaram para casa dos Harrisons, pois que se avizinhava a mais terrvel dessas noites, pelo menos para Margarida, que ele no deixaria voltar a deitar-se sozinha.
Para ele seria diferente. Sentar-se-ia no escritrio de Harrison, beberia o seu whisky, fumaria o seu cachimbo e conversaria sobre qualquer assunto ao gosto de Harrison,
mesmo acerca do filho.

- Quanto tempo fica connosco, Jarvis ? Teremos o maior prazer que fique o mais tempo possvel.

- Obrigado, Harrison.  Julgo que a Margarida quer regressar com a Maria e os pequenos e pediremos ao filho de um dos meus vizinhos que olhe por eles.  um excelente
rapaz que veio agora da tropa. Eu fico mais algum tempo para tratar dos assuntos do Artur, pelo menos dos principais.

- Que disse a polcia, se no  segredo ?

- Esto ainda  espera que o criado recupere os sentidos. Tm esperana de que ele tenha reconhecido pelo menos um deles. Doutra forma, dizem que o caso  difcil.
Correu tudo to depressa! Esto esperanados em que algum os tivesse visto fugir, pois deviam estar assustados e excitados de forma a dar nas vistas.

- Tenho f em Deus de que lhes deitaro a mo e os penduraro na corda. Desculpe, Jarvis.

- Bem sei o que quer dizer.

- Ns no estamos em segurana, Jarvis. No sei at se o facto de os pendurarem nos dar mais
tranquilidade; algumas vezes penso que no est na nossa mo.

-- Compreendo-o,  mas  eu ...   talvez  seja  ainda muito cedo para se falar disso.

- Estou a compreend-lo. Eu de certo modo concordo que aquele aspecto da questo no seja o que mais o preocupa. Eu talvez sinta o mesmo. Na realidade, no sei.

- Eu tambm, na verdade, no sei. Mas voc tem razo; no  esse o aspecto mais importante da questo, pelo menos por agora. Mas eu julgo que h outro aspecto.

- Ns temos clamado por mais polcia, Jarvis. Vai haver um grande comcio em Parkwold, amanh  noite. O bairro ferve de indignao.  que, Jarvis,  raro o inquilino
nestes subrbios que saiba quem vive nas acomodaes para os criados. Isso  que eu no tolero. Digo aos criados que no quero ningum desconhecido c dentro, nem
que seja s para dormir. O marido da criada vem c algumas vezes, do lugar onde trabalha, Benoni, Springs ou qualquer coisa assim, mas  um casal srio, e eu no
me oponho. Mas no consinto mais ningum. Se no tiver cuidado, enche-se-me a casa de primos, tios, irmos, e a maior parte deles no vm para coisa boa.

- Sim, suponho que sucede isso   de   facto   em Johannesburg.

- E   estas   quelhas   sanitrias   por   detrs   das casas? Temo-nos ralado para que vedem essa coisa, agora que j temos esgotos em condies. So escuras  e
perigosas,  pois  acoita-se l  essa maldita vadiagem. S Deus sabe o que ser feito desta terra; eu no. No sou um mata-pretos, Jarvis. Esforo-me

189
por trat-los bem, dar-lhes ordenado decente, uum quarto limpo e tempo razovel para descanso. Os criados, aqui em casa, ficam anos. Mas aos Pretos duma maneira
geral, j se no tem mo neles. At comearam agora com as reuniis. J sabia?

- No, no sabia.

- Pois j as tm. Ameaaram ir para a greve se no lhes derem dez xelins por dia. Esto a tirar  roda de trs xelins por turno e algumas minas encontram-se em risco
de fechar. Vivem em camaratas decentes; nalgumas delas, as ltimas construdas, no me importaria eu  prprio  de viver.  Tm  alimentao cuidada, bem melhor, sem
comparao, que a que tinham em  casa,  assistncia mdica  grtis e Deus sabe mais o qu! Pois digo-lhe, Jarvis, se o custo de produo das minas se elevar, adeus
minas. E que ser da frica do Sul ento? E que ser dos prprios indgenas? Morrero de fome aos milhares.

- No sou de mais? - perguntou Joo Harrison, entrando.

- Senta-te, Joo - respondeu o pai.

E, logo que o filho se sentou, excitado como estava, voltou ao assunto:

- E que ser dos lavradores, Jarvis ? Onde iro eles vender os seus produtos e quem lhos poder comprar? No haver subsdios, no haver outras indstrias, visto
que as indstrias dependem das minas, que fornecem o dinheiro para a compra dos seus produtos. E o nosso Governo todos os anos suga as minas com a taxa de setenta
por cento sobre os lucros. E que seria deles se no houvesse minas? Metade dos africnderes em todo o Pas ficariam

190
 desempregados. Tambm deixaria de haver funcionalismo pblico. Metade dele ficava tambm sem emprego.

Deitou mais whisky para os dois e continuou: .- Posso garantir-lhe que no haveria frica do gul se no fossem as minas. Podiam fechar a porta e entregar tudo aos
indgenas.  por isso que fico furioso quando me falam mal das minas. E  o que fazem principalmente os africnderes; tm a noo parva de que a gente das minas
 gente estrangeira que vem sugar o sangue do nosso pas e que largaro de c logo que a galinha deixe de pr os ovos de ouro. Mas posso afirmar-lhe que a maior
parte das aces das minas pertencem a gente daqui; elas so as nossas minas. Fico doente quando ouo falar assim. Repblica! Onde iramos parar se tivssemos uma
repblica?

- Harrison, vou indo para a cama, no quero deixar a Margarida sozinha.

- Desculpe, meu caro! Receio ter-me excedido.

- No tenho nada que desculpar. Fez-me bem ouvi-lo. Se eu no falei muito, no foi porque no tivesse interesse no assunto; estou certo de que compreende.

- Desculpe-me, desculpe-me! - voltou o outro.- Esqueci tudo.

- Creia que falo sinceramente quando digo que me fez bem ouvi-lo. No sou pessoa que me sente e me ponha a falar da morte sem parar.

Harrison fitou-o, pouco  vontade.

- Se assim , sinto-me na verdade mais aliviado.

- Quanto   eu    desejaria - continuou   Jarvis que ele aqui estivesse esta noite e que eu pudesse ouvi-lo discutir consigo!

- Havia de apreciar imenso, Sr. Jarvis - disse

192

Joo Harrison vivamente, com o desejo natural de falar de uma pessoa morta h pouco. - Nunca encontrei ningum capaz de discutir estas coisas to bem como ele.

- Eu no concordava com ele - acudiu o velho Harrison, j mais calmo -, mas tinha um grande respeito pelas suas opinies.

- Era um homem bom, Harrison; nunca tivemos nada a dizer contra ele. Boa noite.

- Boa noite, Jarvis. Dormiu alguma coisa a noite passada? E a Margarida?

- Ambos passmos pelo sono.

- Estimo que hoje suceda o mesmo. No se esquea de que est em sua casa.

- Obrigado. Boa noite. Joo!

- Diga, Sr. Jarvis.

- Conhece o Clube da Mocidade em Claremont, na Rua dos Gladolos?

- Muito bem; era o nosso clube, meu e do Artur.

- Gostaria de o conhecer quando fosse possvel.

- Lev-lo-ei l com todo o prazer, Sr. Jarvis. E...

- Diga, Joo.

- Queria s dizer-lhe que, quando meu pai fala de africnderes, se refere aos nacionalistas. O Artur estava sempre a dizer-lho. E meu pai concordava, mas nem sempre
se lembra.

Jarvis sorriu, primeiro para o rapaz, depois para o pai.

- Isso  um ponto importante. Boa noite, Harrison; boa noite, Joo.

Na manh seguinte, Harrison esperava o hspede ao fundo das escadas.



.- Venha aqui para o escritrio. Entraram e Harrison fechou a porta.

- A polcia acaba de telefonar, Jarvis. O rapaz recuperou os sentidos esta manh e disse que eram trs os assaltantes. Que tinham o nariz e a boca tapados com lenos,
mas que tem a certeza de que o que
o atirou ao cho era um antigo jardineiro que trabalhou em casa da Maria. A Maria tinha-o despedido por qualquer motivo. Ele reconheceu-o pelo defeito que tinha
de estar sempre a piscar os olhos. Quando saiu de casa da Maria, arranjou emprego numa fbrica de tecidos em Doornfontein; depois deixou a fbrica, no se sabendo
para onde foi. Estas informaes foram dadas por outro indgena que se dava muito com ele. Agora andam no encalo desse, na esperana de que ele saiba onde pra
o jardineiro. Essa gente anda sempre a mudar de stio.

- Assim parece.

- E agora aqui tem um manuscrito do Artur acerca da criminalidade indgena. Quer que lho deixe na mesa para o ler com sossego depois do pequeno almoo ?

- Muito obrigado; deixe-o l ento.

- Dormiu bem? E a Margarida?

- Ela   dormiu   profundamente,   Harrison.   Bem precisava.

- Com certeza. Vamos ao pequeno almoo.

Depois da refeio, Jarvis voltou para o escritrio do dono da casa e ps-se a ler o manuscrito do filho. Leu-o da primeira  ltima pgina e uma dor profunda o
acometeu ao ler o ltimo pargrafo, por

[acabar. Fora a derradeira coisa que seu filho fizera.
 193

Nesse momento estava ainda vivo. Nessa altura precisamente nessa palavra que ficou em suspenso ele levantara-se e descera a escada ao encontro da morte. Se algum
tivesse gritado: "No desas!" se algum tivesse gritado: "Pra a! Olha o perigo!" Mas no houve ningum que gritasse. Ningum, ento, sabia o que tantos vieram
a saber. Mas de que valia agora pensar nisso? No era hbito seu perder tempo a pensar no que podia ter sido, mas j no podia acontecer. No valia a pena pensar
que, se algum l estivesse, se poderia ter evitado uma coisa que acontecera somente porque no tinha sido evitada. Era a dor que o levava a isso, que o obrigava
a estis pensamentos que nada remedeiam. Queria compreender o filho, e no desejar aquilo que j no era possvel desejar. E, assim, obrigou-se a ler o ltimo pargrafo,
vagarosamente, com a cabea, no com o corao, no intuito de o compreender.

A verdade  que a nossa civilizao crist se debate contra vrios dilemas. Ns cremos na fraternidade dos homens, mas no a queremos na frica do Sul. Ns cremos
que Deus concede aos homens graas diferentes e que a vida humana depende, para a sua plenitude, do seu emprego e da sua fruio, mas temos medo de sondar essa crena
com demasiada profundeza. Ns cremos no auxlio aos prias da sociedade, mas queremos que eles se conservem em baixo. E somos assim levados, para preservar a crena
de qi somos cristos, a atribuir a Deus Todo
194 -Poderoso, Criador do Cu e da Terra, ;
as
nossas prprias intenes e a dizer que, porque Ele criou o Negro e o Branco, Ele d a Divina Aprovao a qualquer aco humana no sentido de evitar o progresso
da gente negra. Chegamos mesmo a imputar a Deus Todo-Poderoso o ter criado os Negros para irem cortar lenha e para transportarem gua para os Brancos. Chegamos a
supor que Ele abenoa qualquer aco que possa impedir os Negros do uso das graas que Ele lhes concedeu. Paralelamente a estes argumentos, usamos outros sem qualquer
consistncia, no intuito de podermos refutar a acusao de represso. Alegamos que a nossa recusa de lhes dar educao provm da incapacidade da inteligncia das
crianas negras para dela tirarem proveito; negamos-lhes oportunidade para desenvolverem os seus dons naturais, alegando que o Negro os no possui; justificamos
o nosso procedimento explicando que, se a nossa civilizao levou milhares de anos para ser o que  hoje, seria insensato supor que o Negro viria a ser como ns
em menos tempo e que, por isso, no h necessidade de nos apressarmos. Mudamos de opinio quando h um negro que faz qualquer coisa de notvel: sentimos um d profundo
por o ver condenado  solido de ser famoso e decidimos que  uma bondade crist no deixar que os Negros se evidenciem. E, assim, at o nosso Deus se torna um ente
confuso e incoerente, pois que concede
 195
que, a nossa Civilizao

venha a debater-se com vrios  dilemas?      : A verdade  que a nossa civilizao no       ] crist;  uma mistura trgica de um ideal grandioso   e   uma   prtica
medrosa,   (de uma convico elevada e uma ansiedade       desesperada, de caridade cheia de amor e      : uma  temerosa  luta  por  riquezas.   Conceda-se-me um
minuto ...

Jarvis sentou-se, profundamente abalado. Se por ser o seu filho, se por ser o ltimo acto do filho, no o podia dizer. Se era o significado das palavras, tambm
o no podia dizer, ele que durante a vida dedicara pouco tempo  apreciao de palavras. Se havia qualquer virtude nas ideias, tambm no o podia confessar, ele
que pouco ou nenhum tempo tinha gasto com estes assuntos.

Levantou-se e subiu a escada para o quarto, ficando satisfeito por no ver l a mulher, para no interromper a sequncia das ideias. Pegou no livro de Abrao Lincoln
e voltou novamente para o escritrio. Abriu o livro no "Segundo discurso inaugural", que leu sem interrupo, sentindo, ao terminar, numa sbita exaltao de esprito,
a existncia de um segredo, a revelao de um caminho novo, um crescente interesse por algum que lhe fora estranho. Comeou a compreender a razo do retrato e de
tantos livros desse homem na casa de seu filho. Tornou a pegar no manuscrito, mas por causa do filho, e no das palavras ou das ideias.

"Conceda-se-me um minuto!..."

E nada mais. A mo que escrevera aquilo j no
196
 escreveria mais.

Conceda-se-me um minuto, ouvi um rudo na cozinha. Conceda-se-me um minuto, que vou procurar a muorte. Concedam-se-me milhares de minutos, que eu nunca mais voltarei.

Jarvis agitou os papis, reacendeu o cachimbo i depois de ler novamente, quedou-se como num sonho, fumando.

- James!

Ele teve um sobressalto.

- Que , minha querida?

- No deves ficar assim sozinho. Ele sorriu-lhe e respondeu:

- No  meu hbito perder-me a magicar.

- Ento que tens estado a fazer?

- A pensar, no a magicar. E a ler. Olha o que estive a ler.

Ela pegou nos papis, mirou-os e apertou-os contra o peito.

- L - disse-lhe ele serenamente. -  digno de ser lido.

Ela sentou-se para ler e ele ps-se a ver-lhe no rosto a reaco da leitura. Leu at  ltima pgina, at s ltimas palavras, e murmurou:

"-Conceda-se-me um minuto..."

Olhou para ele, parecendo que ia falar. A dor no desaparece assim to depressa.

22

No topo da sala do tribunal h um cadeiro onde o juiz se senta. Por baixo h uma mesa para os escrives e dos dois lados da mesa h cadeiras. Algumas delas formam
um bloco dentro dum recinto fechado;
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 a que se senta o jri, quando o h.  frente da mesa, outras cadeiras dispostas em arcos de crculo com mesas curvas em frente;  o lugar para os advogados. Atrs,
onde termina a teia, h uma passagem para um lugar subterrneo;  da, debaixo do cho, que trazem os homens que vo ser julgados. Ao fundo da sala h mais cadeiras
dispostas em filas, as da direita para europeus, as da esquerda para no-europeus, segundo a praxe.

No se pode fumar nesta sala, nem rir, nem falar, nem sequer cochichar. Deve-se estar decentemente vestido e, se se tratar de um homem, sem chapu na cabea, a menos
que a sua religio o no permita.

E isto  assim em honra do juiz e em honra do rei, que ele representa. E em honra da lei, que est por detrs do juiz, e em honra do povo, que est por detrs da
lei. Quando o juiz entra, todos se levantam e ningum se senta antes de ele se sentar. Quando o juiz se levanta, todos se levantam e ningum se retira antes de ele
sair.

Isto  assim em honra do juiz e de tudo que est por detrs dele. Porque ao juiz est confiada uma grande misso: julgar e dar sentena, mesmo a sentena de morte.

Por causa do seu alto cargo, os juizes tm o tratamento de excelncia e tm precedncia sobre muitos outros em ocasies de grande cerimonial. E so venerados por
toda a gente, branca e negra. E embora a terra seja uma terra de medo, um juiz no deve ter medo, para que a justia seja ministrada em conformidade com a lei. Por
isso um juiz deve ser incorruptvel.

A lei no  feita pelo juiz, mas sim pelo povo.
Assim, se uma lei  injusta e o juiz julga conforme a lei, isso  justia, mesmo que no seja justo.

 dever do juiz fazer justia, mas s o povo pode ser justo. Dessa forma, se a justia no for justa, a culpa no cai sobre os ombros do juiz, mas sim sobre os do
povo, isto , sobre os do povo branco, porque so os Brancos que fazem a lei.

O povo da frica do Sul orgulha-se dos seus juizes, porque cr na sua integridade. At os homens negros tm f neles, embora nem sempre a tenham na lei. Numa terra
de medo esta integridade  como uma lmpada posta num pedestal e que d luz a todos os que esto na casa.

Pedem silncio na sala e todos se levantam. Ainda que houvesse ali algum de maior categoria que o juiz, tambm se levantaria, porque por trs do juiz esto coisas
de mais importncia que qualquer homem. E o juiz entra com os dois adjuntos, senta-se e toda a gente se senta tambm. Est aberta a audincia.

Do lugar debaixo do cho vm os trs que vo ser julgados e toda a gente olha para eles. A alguns parece que tm cara de assassinos e transmitem baixinho aos outros
a sua opinio, embora seja proibido falar, mesmo em voz baixa; outros dizem que s um tem cara de criminoso e os outros dois no.

Um branco levanta-se e diz que os trs so acusados do assassinato de Artur Trevelyan Jarvis, na sua prpria casa, em Plantiation Road, Parkwold, Johannesburg, na
tera-feira 8 de Outubro de 1946, ao comeo da tarde. O primeiro  Absalo Kuinalo, o 199
segundo  Mateus Kumalo e o terceiro  Joo Pa, furi. Perguntaram-lhes se confessavam o crime e o primeiro disse: "Confesso ter matado, mas no tinha inteno de
matar." O segundo afirmou: "Estou inocente", e o terceiro disse o mesmo.

Tudo  dito em ingls e zulu, para que os trs possam compreender; embora Pafuri no seja zulu compreende bem a lngua, segundo disse.

O advogado, o branco que tomou conta da causa por Deus, diz que Absalo Kumalo confessa o crime de ofensas corporais de que resultou a morte, mas nega a inteno
de matar. Mas o acusador pblico replica que a acusao no  por ofensas de que resultou a morte, mas por homicdio voluntrio, sendo, portanto, por este crime
que ele tem de responder. Ento, Absalo Kumalo, como os outros, diz que est inocente.

Em seguida o acusador pblico fala durante muito tempo, fazendo a histria do crime para o tribunal. Absalo Kumalo fica imvel e silencioso, mas os outros dois
mostram-se aflitos e abalados com as palavras que ouvem.

- Ento, depois de aprovado o plano, vocs escolheram esse dia, o dia oito de Outubro?

- Sim, senhor.

- Porque escolheram esse dia?

- Porque o Joo disse que no haveria ningum na casa.

- Este Joo Pafuri?

- Este mesmo que  acusado como eu.

- E vocs escolheram a uma e meia da tarde?
       - Sim, senhor.



- No era uma hora m ? A gente branca costuma a essa hora ir almoar.

O acusado no respondeu.

- Porque escolheram essa hora?

- Foi o Joo que escolheu a hora. Disse que tinha ouvido uma voz.

- Que voz ?

- No sei.

- A voz do mal?

De novo o ru no respondeu.

- Depois vocs os trs foram para a porta traseira da casa?

- Fomos, sim, senhor.

- Voc e estes dois que esto aqui a responder tambm?

- Eu e estes dois.

- E depois?

- Depois atmos os lenos na cara.

- E depois?

- Depois entrmos na cozinha.

- Quem  que l estava?

- O criado da casa.

- Ricardo Mpiring? -No sei o nome dele.

"-  aquele homem que est ali?
- Sim,  aquele homem.  -E depois? Diga ao tribunal o que se passou.

- Aquele homem  ficou cheio  de medo;  tinha visto o meu revlver; encostou-se  pia onde estava a trabalhar e perguntou:   "Que  que vocs querem?", e o Joo respondeu:
"Queremos dinheiro e roupa"; e esse homem voltou a dizer:  "Vocs no podem fazer isso!"; e o Joo tornou a dizer-lhe:
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"Queres morrer?" O homem teve medo e no respondeu. O Joo disse ento: "Quando eu falo, toda a gente treme", e repetiu: "V l se queres morrer." O homem no lhe
respondeu, mas de repente gritou; "Patro! Patro!" Ento o Joo deu-lhe uma pancada na cabea com o ferro que tinha escondido atrs das costas.

- Quantas pancadas lhe deu ele ?

- Uma.

- Ele tornou a gritar?

- No disse uma palavra.

- E o que  que voc fez?

- Nada. O Joo disse que ficssemos calados.

- E o que fizeram? Puseram-se  escuta?

- Sim, pusemo-nos  escuta.

- Ouviram alguma coisa?

- No ouvimos nada.

- Onde tinha voc o revlver?

- Na mo.

- E depois?

- Depois um homem branco  apareceu no  corredor.

- E depois?

- Fiquei assustado e disparei o revlver.

- E depois?

O ru olhou para o cho e respondeu: -O branco caiu no cho.

- E depois ?

- Depois o Joo disse: "Vamo-nos embora, depressa", e ns fugimos todos.

- Pela porta das traseiras?

- Sim, senhor.

- E fugiram depois para a plantao, do outro lado da estrada?



- Sim, senhor.

- Continuaram juntos?

- No, eu fiquei sozinho.

- Quando  que voc tornou a ver aqueles dois?

- Na casa de Baby MMze.

Mas o juiz interrompeu o interrogatrio:

- Em breve continuar as suas instncias, Sr. Delegado, mas eu queria fazer agora algumas perguntas ao primeiro ru.

- Como V. Ex.a entender.

- Porque  que voc levava o revlver?

- Era para meter medo ao criado.

- Mas porque  que voc o tinha? O rapaz no respondeu.

- Responda  minha pergunta.

- Disseram-me para andar com ele.

- Quem foi que lhe disse isso ?

- Disseram-me   que   Johannesburg   era   muito perigoso.

- Quem foi que lho disse?

O rapaz voltou a ficar calado.

- Foi algum que tinha por profisso assaltar e roubar?

- No, no foi.

    -Pois bem, quem foi ento?

   - No  me  lembro.   Disseram-mo  em  qualquer
parte de que j me no lembro tambm.

- Voc quer dizer ento que, estando num lugar qualquer, algum lhe disse que era preciso um revlver em Johannesburg porque era um lugar perigoso?

- Sim, senhor.

- E voc sabia que o revlver estava carregado ?

- Sabia, sim, senhor.

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- Se o revlver era para assustar, para que era preciso estar carregado?

O rapaz no respondeu.

- Voc estava, portanto, pronto a fazer uso dele a dispar-lo?

- No, eu nunca o dispararia contra uma pessoa de bem; s atiraria contra algum que disparasse contra mim.

- Voc  dispararia  contra  um  polcia  que lhe tivesse atirado, a si, no cumprimento do seu dever?

- No, contra um polcia no.

O juiz fez uma pausa, no meio dum profundo silncio. Depois perguntou num tom grave:

- E esse homem branco, a quem voc atingiu, no era uma pessoa de bem?

O acusado ps novamente os olhos no cho e respondeu em voz baixa:

- Tive  medo!   Tive  medo!   Eu   no  o   queria matar.

- Onde  que voc arranjou o revlver?

- Comprei-o a um homem.

- Onde?

- Em Alexandra.

- Quem  esse homem? Como se chama?

- No lhe sei o nome.

- Onde  que ele mora ?

- No sei onde mora.

- Voc poderia dar com ele?

- Podia tentar encontr-lo.

- O revlver estava carregado quando voc o comprou ?

- Tinha duas balas.

- Quantas balas tinha quando voc o levou para
204 a tal casa?

- S tinha uma.

- Que foi feito da outra?

- Fui com o revlver para uma plantao nos Contes, para l de Alexandra, e fiz fogo com ele.

- Que  que voc alvejou?

- Alvejei uma rvore.

- Acertou na rvore?

- Acertei, sim, senhor.

- Ento voc depois pensou: "Agora j sei fazer fogo com este revlver"?

- Sim, senhor.

- Quem levava o ferro ?

- Era o Joo.

- Voc sabia que ele o levava?

- Sabia.

- Voc sabia que era uma arma perigosa? Que podia matar um homem?

A voz do rapaz subiu de tom

- No era para matar nem para bater. Era s para fazer medo.

- Mas para fazer medo tinha voc um revlver.

- Tinha, mas o Joo disse que levava o ferro porque tinha sido benzido.

,     -Tinha sido benzido?

 - Foi o que ele disse.

 - Que  que o Joo queria dizer quando afirmou que o ferro fora benzido?

 -No sei.

    - Queria dizer que tinha sido benzido por um
padre?
 - No sei.

- Voc no lhe perguntou?

- No, no perguntei.

- O seu pai  padre?
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O rapaz tornou a fixar os olhos no cho e respondeu baixinho:

- , sim.

- Ele seria capaz de benzer esse ferro?

- No.

- Voc disse ao Joo: "No leves esse ferro"?

- No.

- Voc perguntou-lhe: "Como  que se pode benzer um ferro"?

- No.

- Queira continuar,  Sr.  Delegado.

- E se esses dois disserem que no houve qualquer discusso sobre o crime em casa de Baby Mkize, esto a mentir?

- Esto a mentir.

- E se eles disserem que voc inventou essa histria depois do encontro em casa de Baby Mkize, esto a mentir?

- Esto a mentir.

- E se Baby Mkize disser que no se discutiu nenhum crime na sua presena, est a mentir?

- Est a mentir. Ela ficou cheia de medo e disse-nos que sassemos de sua casa e nunca mais l voltssemos.

- Vocs saram juntos?

- No, eu sa primeiro.

- E para onde foi ?

- Para uma plantao.

- E que fez l?

- Enterrei o revlver.

- O revlver  este que aqui est ?
Passaram o revlver para a mo do acusado, que o examinou e disse:

-  este o revlver.

.- Como  que o acharam?

- Fui eu quem disse  polcia onde ele estava.

- E que fez depois ?

- Rezei.

O acusador pareceu perturbado por um momento, mas o juiz continuou:

- E porque  que voc rezou ?

- Pedi perdo.

- E porque mais rezou voc ?

- Por mais nada, no havia mais nada por que eu pudesse rezar.

- E no segundo dia voc voltou para Johannesburg?

- Voltei, sim, senhor.

- E continuou a andar no meio da gente que fazia a greve contra os autocarros?

- Sim, senhor.

- E essa gente falava do crime?

- Falava. Alguns afirmavam que tinham ouvido dizer que os criminosos seriam descobertos sem demora.

- E depois?

- Tive medo.

- E que fez ento?

- Nessa noite fui para Germiston.

- Mas que fez durante o dia? Escondeu-se outra vez?

- No; comprei uma camisa e andei de um lado para o outro com o embrulho debaixo do brao.

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- Mas para qu?

- Para dar a impresso de que ia fazer um  recado.

- Houve mais alguma coisa que voc fizesse ?

- No, no fiz mais nada.

- Ento   voc   foi   para   Germiston;  para   que stio?

- Para a casa de Jos Bhengu, na Rua Maseru, n.o 12.

-E depois?

- Estava l quando chegou a polcia. - E que aconteceu ?

- Perguntaram-me   se   me   chamava   Absalo Kumalo e eu disse que sim. Fiquei cheio de medo. Tinha pensado ir nesse dia confessar tudo  polcia e vi que fizera
mal em no me ter decidido mais cedo.

- Prenderam-no ?

- No, senhor; perguntaram-me se eu sabia onde estava o Joo. Disse-lhes que no sabia, mas que no tinha sido o Joo quem matara o homem branco, mas sim eu. Mas
que foi o Joo quem atirou com o criado ao cho. E disse-lhes ainda que o Mateus tambm l estava,  que lhes mostraria onde  tinha escondido o revlver, que tencionava
confessar tudo nesse dia e que tinha feito tolice em no confessar mais cedo, mas que tinha tido medo.

- Depois voc respondeu a um auto na presena do  meritssimo   Andries   Coetzee,   juiz   adjunto   de Johannesburg?

- No sei o nome dele. - Foi este o auto ? Passaram-lhe o auto, que ele leu.

- Sim, foi este.

- E tudo que nele est escrito  verdade?

-  tudo verdade.

- No h nele nenhuma mentira?

-- No, nada  mentira, porque eu disse para [nim mesmo: "Nunca mais mentirei durante o resto da minha vida nem praticarei qualquer m aco."

- Na verdade, voc arrependeu-se ?

- Arrependi-me, sim, Sr. Juiz.

 Mas foi porque se viu em perigo ? Sim, porque me vi em perigo. No se arrependeu por qualquer outra razo? No tinha outra razo. .

A audincia foi suspensa e o pblico levantou-se quando os juizes se retiraram da sala. E, logo que eles saram, escoou-se a sala pelas portas do fundo, europeus
por um lado, no-europeus por outro, conforme o costume.

Kumalo, Msimangu, Gertrudes e a Sr.a Lthebe saram juntos e ouviram dizer: "Este  o pai do homem branco que mataram." Kumalo olhou e viu que, na verdade, era o
pai do homem assassinado, o homem que tinha a quinta nos altos por cima de Ndotsheni, o homem que ele costumava ver passar a cavalo junto da igreja. Kumalo sentiu
uma tremura e no voltou a olh-lo. Sim, como poderia olhar para esse homem?

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Pouca ateno se d ao julgamento dos acusados do assassnio de Artur Jarvis, de Parkwold. Descobriu-se ouro, mais ouro, rico ouro! H um lugarejo
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chamado Odendaalsrust, na provncia de Orange que ontem era quase desconhecido e hoje  um dos lugares mais famosos do mundo.

Este ouro  to rico como qualquer outro at agora descoberto na frica do Sul, to rico como no importa o qu em Johannesburg. H j quem prfetize que se erguer
uma nova Johannesburg, uma grande cidade de altos edifcios e de ruas repletas de gente. Aqueles que sombriamente anteviam o esgotamento do ouro de Johannesburg
esto alegres e excitados. Um novo padro de vida, dizem eles, a frica do Sul vai ter um novo padro de vida.

Em Johannesburg cresce o entusiasmo. Na Bolsa, os homens enlouquecem. Gritam, berram, atiram com os chapus ao ar, porque as aces que eles compraram esperando
a sorte, as aces que compraram de minas que no existiam, essas aces sobem a um preo fora de qualquer previso.

No havia l nada a no ser a campina ondulada do Estado Livre de Orange, rebanhos de carneiros, manadas de vacas e pastores negros. No havia l nada seno erva
e mato e, aqui e alm, um campo de milho. No havia l nada que lembrasse uma mina, excepto as mquinas de perfurar e engenheiros que pacientemente punham  prova
os mistrios do solo. Ningum parava a v-los, salvo um preto, ou um pastor, ou um velho lavrador africnder que por ali passasse a cavalo, olhando-os com desprezo,
medo ou esperana, conforme o seu temperamento.

Olhem para as aces-maravilha do Tweede Vlei! Estavam a vinte xelins, subiram para quarenta, depois para sessenta e depois, acreditem ou no, para oitenta xelins!
E quantos no desataram a chorar porque venderam ao meio-dia em vez de s duas da


tarde ou porque compraram s duas em vez de comprarem ao meio-dia! E os que j venderam encher-se-o de desespero amanh de manh, quando as aces subirem para
cem xelins.

Oh!, mas isto  maravilhoso! A frica do Sul  maravilhosa! Poderemos ir de cabea bem erguida quando nos deslocarmos ao estrangeiro, porque eles diro :"Ah!, como
vocs so ricos na frica do Sul!"

Odendaalsrust  um nome cheio de magia. Contudo, alguns, cujo conhecimento de afrikaans  quase nulo, j dizem na Bolsa que se lhe devia dar um nome mais simples.
No seria mais fcil chamar-lhe Smuts ou Smutsville? No seria mais fcil Hofmeyr? No... j h um lugar chamado Hofmeyr e alm disso... talvez no fosse o nome
mais adequado.

O pior das minas so os seus nomes, difceis de pronunciar. Que pena que esta enorme indstria, dirigida por tais cabeas, desenvolvida por tais empresas, seja entravada
por nomes to arrevesados: Blyvooruitzicht, Welgedacht, Langlaate e agora este de Odehdaalsru&tf! Mas digamos isto para os nossos botes, nos nossos clubes, em particular,
pois a maioria de ns pertence ao Partido Unido, que se bate pela cooperao, pela camaradagem, pelo amor fraternal, pela compreenso mtua. Mas poupava-se uma poro
de dinheiro se os africnderes vissem, ao menos, o que custa o bilinguismo.

Ouro, ouro, ouro! O Pas vai ficar rico outra vez! As aces subiram de vinte para cem xelins. Pensem bem nisso e dem graas a Deus. H gente,  certo, que no
est agradecida. Mas devemos partir
do princpio de que  porque no possuem muitas aces ou porque, de facto, no possuem mesno nenhumas. Algumas dessas pessoas discursam em pblico - e na verdade
 interessante, e irritante para alguns, notar que neste caso, e na maior parte das vezes, esta gente sem aces possui uma habilidade oratria que, segundo parece,
o destino, a natureza, a fora vital ou o que quer que dirige estas coisas lhes concedeu  guisa de compensao. No  lisonja, mas tambm no  ironia dizer isto:
 falar imparcialmente. Ser isto uma ideia fantasiosa de que seria melhor no ter falado. Mas  certo que essa gente, com o seu fluxo oratrio, mas sem situao
financeira, fala, em regra, em pequenos organismos, como clubes das esquerdas, associaes religiosas e sociedades para a promoo da fraternidade e do amor. Tambm
escrevem, geralmente para pequenas publicaes, tais como a Nova Sociedade e A Humanidade em Marcha e para essa extraordinria Cruz nas Encruzilhadas, um obscuro
panfleto de oito pginas, dado  luz semanalmente pelo no menos extraordinrio padre Beresford, que parece no comer h vrias semanas. Mas fala um belo ingls,
o ingls que se fala em Oxford, segundo parece, e no o que se fala em Rhodes ou Stellenbosch, o que o torna aceitvel, apesar de no escovar o cabelo e trazer as
calas sem vinco. Tem o aspecto de um tigre convertido e possui olhos ardentes; de facto, arde com fulgor nas florestas da noite, escrevendo o seu estranho jornal.
 missionrio e cr em Deus intensamente, quero dizer.

Pois bem, algumas destas pessoas dizem que seria

bonito se essas  aces  tivessem parado nos  vinte

212 xelins e se os outros oitenta xelins tivessem sido

J
einpregados, por exemplo, em fazer grandes obras Contra a eroso e salvar, assim, o solo do Pas. Teria sido bonito subsidiar clubes de rapazes, clubes de raparigas,
centros associativos, construir mais hospitais, pagar melhor aos mineiros.

Toda a gente pode ver a confuso destas opinies, pois, na realidade, o preo das aces nada tem que ver com a questo dos salrios, visto que  um assunto determinado
somente pelo custo da explorao e pelo preo do ouro. E, diga-se de passagem, ouve-se tambm dizer que h actualmente nas minas grandes homens que no possuem aces
nenhumas, o que , na verdade, um fenmeno digno de nota, porque deve ser, realmente, uma tentao. Em qualquer dos casos, no sejamos pessimistas, como sucede quando
pensamos que esses oitenta xelins se aplicaram em qualquer coisa que no  diferente do que era antes de l entrar aquele dinheiro. Vejamos as coisas por outro prisma.
Quando as aces subiram de vinte para cem xelins, algum ganhou oitenta. No foi necessariamente uma s pessoa, pois seria demasiadamente bom para ser verdade,
visto que tal pessoa seria celebrada como um mgico financeiro e uma figura por detrs do Governo. O mais provvel  terem sido esses oitenta xelins divididos por
vrios homens, porque cada um foi vendendo durante a fase da subida das aces.  certo, todavia, que nenhuma dessas pessoas, afinal, trabalhou para ter esse dinheiro,
isto , no suou nem calejou as mos para obter tal lucro; mas tambm  certo que alguma coisa merece a sua coragem, a sua previso e o seu trabalho mental. Ora
essas pessoas gastaro os oitenta xelins e daro mais trabalho ao povo, e assim o Pas enriquecer mais oitenta xelins. E algumas 213
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dessas pessoas daro generosamente para os clubes de rapazes, para os clubes de raparigas, para os centros associativos, para os hospitais. No h razo para dizer,
como dizem nessas remotas paragens <Je Bloemfontein, Grahamstown e Beaufort West, qUe em Johannesburg s se pensa em dinheiro. Temos to bons maridos e pais como
em qualquer outra cidade e alguns dos nossos grandes homens fazem grandes coleces de obras de arte, o que representa trabalho para os artistas e evita a extino
da arte; outros possuem grandes tapadas no Norte, onde caam e gozam o contacto da natureza.

E ento, desde que h mais trabalho para a outra gente, essa gente comea a gastar parte daqueles oitenta xelins. Uma parte e no tudo, naturalmente, pois aqueles
que venderam a cem xelins devem guardar alguma coisa para comprarem novas aces, quando a sua subida estiver prestes a parar. Mas os agricultores podero produzir
mais alimentos, os fabricantes podero produzir mais artigos e mais lugares pblicos sero oferecidos, embora seja outra questo o perguntar-se porque sero precisos
mais funcionrios pblicos. E os indgenas no morrero de fome nas casas de malta. Os homens podero vir para as minas, ser-lhes-o dadas maiores e melhores casas
e comida com mais vitaminas. Mas devemos ter cautela, porque um indivduo descobriu que o trabalho pode tornar-se supervitaminizado, como  um exemplo a lei do rendimento
no-profissional.

E talvez uma grande cidade venha a nascer, uma segunda Johannesburg, com um segundo Parktown e um segundo Houghton, um segundo Parkwold e um segundo Kensington,
um segundo Jeppe e um segundo Vrededorp, um segundo Pimville e uma segunda


Cidade das Barracas, uma grande cidade que ser o orgulho das gentes de Odendaalsrust. Mas no  este nome difcil de pronunciar?

H, porm, outros que dizem que isto no deve ser assim. Todos os da assistncia social e este padre Beresford e outros Kafferboeties clamam que no pode ser assim,
embora tenha de se confessar que a maior parte deles no possuem um nico papel-aco. E sentem-se encorajados porque Sir Ernest Oppenheimer, um dos maiores homens
das minas, tambm diz que no h razo de isto ser assim. Que h oportunidade, diz ele, para se fazer a experincia da fixao dos trabalhadores das minas em aldeias,
no em casas de malta, onde um homem possa viver com a mulher e com os filhos. Tambm se diz que o Governo vai estabelecer qualquer coisa semelhante ao Tennessee
Valley, para regular o desenvolvimento das reas mineiras do Estado Livre.

Eles querem ouvi-lo de novo, Sir Ernest Oppenheimer. Eles aplaudi-lo-o e pediro que Deus o abenoe, rezaro at por si,  hora de se deitarem. Sim, porque as minas
so para homens, no so para dinheiro. E o dinheiro no  coisa que faa endoidecer, que faa atirar com o chapu ao ar. O dinheiro  para comer, vestir, para dar
conforto, para poder ir, uma vez por outra, ao cinema. O dinheiro  para tornar feliz a vida das crianas. O dinheiro  para segurana, para sonhos, para esperanas,
para realidades. O dinheiro  para comprar os frutos que d a terra, a terra onde se nasceu.

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No  precisa na Terra uma segunda Johannesburg. Uma  suficiente.

24

Jarvis decidiu voltar de novo  casa. No era agradvel atravessar a cozinha, passar pela mancha de sangue no cho, para subir a escada que vai dar ao quarto de
dormir. Mas foi este o caminho que escolheu para ir, no para o quarto de dormir, mas para o escritrio que estava cheio de livros. Relanceou mais uma vez os olhos
pelos livros, mirando as estantes relativas a Abrao Lincoln,  frica do Sul, a de livros em lngua afrikaans, as da religio, da sociologia, do crime e criminosos
e a que estava repleta das peas e poesias de Shakespeare. Sentou-se  secretria onde estavam os convites para isto e para aquilo e o papel que dizia o que era
lcito e o que no era lcito na frica do Sul.

Abriu as gavetas da secretria, onde deu com recibos e contas, papis e sobrescritos, lpis e canetas e cheques velhos, carimbados, enviados dos bancos. Numa delas
encontrou acessrios da mquina de escrever, cuidadosamente arrumados, e quatro artigos com os ttulos Necessidade de Centros Sociais, Aves do Jardim de Parkwold,
ndia e frica do Sul e Ensaio sobre a Evoluo de Um Sul-Africano. Pegou neste ltimo e leu:

 difcil nascer sul-africano. Pode nascer-se africnder, sul-africano de lngua inglesa, mestio ou zulu. Pode andar-se a ca-

(valo, como eu andei quando era menino, por montes verdes e vales profundos. Podem ver-se, como eu vi quando era rapaz, as reservas do povo bantu e nada se ver do
que l se passa.   Pode  ouvir-se dizer,   como   eu   ouvi quando era criana, que na frica do Sul h mais africnderes que gente de lngua inglesa, e no se conhecer
nada, no se ver nada a seu respeito. Podem ler-se, como eu li quando era moo, folhetos acerca da frica do Sul bem-amada, a terra do sol e da beleza, resguardada
das  tempestades   do   mundo,   sentir-se orgulho dela e am-la, e no saber nada a seu respeito.      somente quando crescemos   que sabemos que h aqui outras
coisas, diferentes         do sol, do ouro e das laranjas.  s ento que         se d conta do dio e do medo da nossa terra.           s ento que o nosso amor
cresce, profundo          e apaixonado, amor com que um homem pode          amar uma mulher que  verdadeira, falsa,          fria, amorosa, cruel e tmida.

Nasci numa herdade e fui criado por pais honestos,  que me  deram  tudo  o  que  uma criana pode necessitar ou desejar. Eram pais rectos, afectuosos e respeitadores
da lei; ensinaram-me a rezar e levavam-me   igreja; nunca tiveram dificuldades com os que os serviam nem falta de quem quisesse servi-los.  Com eles aprendi tudo
o que uma criana

 pode aprender em pontos de honra, caridade

e generosidade. Mas da frica do Sul nada aprendi, absolutamente nada.

Chocado e melindrado, Jarvis deixou cair os papis. Por um momento sentiu qualquer coisa parecida
 com a clera, mas limpou os olhos com os dedos e tentou reagir. Tremia, porm, e no pde continuar a leitura. Levantou-se, ps o chapu, desceu as escadas e foi
at ao stio da mancha de sangue. a polcia preparava-se para o cumprimentar, mas ele voltou-se, subiu as escadas e sentou-se novamente  secretria. Pegou nos papis
e leu ento at ao fim;

Portanto, dedicarei o meu tempo, a minha energia, as minhas capacidades, ao servio da frica do Sul. Nunca mais perguntarei a mim prprio se isto ou aquilo  oportuno,
mas somente se  justo. E procederei assim, no por grandeza de nimo ou altrusmo, mas porque a vida foge e eu tenho necessidade de uma estrela que alumie o resto
da minha jornada com a luz da verdade, preciso de uma bssola que no me minta. Procederei assim, no porque seja um negrfilo e odeie os da minha raa, mas porque
no posso proceder de outro modo. Sinto-me perdido quando ponho em equilbrio isto com aquilo, sinto-me perdido quando me pergunto se isto  ou no seguro, perco
o meu rumo quando pergunto se os homens, brancos ou negros, ingleses ou africnderes, cristos ou judeus, concordaro comigo. Portanto, tentarei fazer o que  justo,
dizer o que  verdadeiro.

Procedo assim no porque seja corajoso e honesto, mas porque  o nico meio de aniquilar o conflito que se trava nas profundezas da minha alma. Procedo assim porque
j no sou capaz de aspirar ao que  superior com uma parte de mim mesmo e neg-lo com a

outra. No quero viver tal vida; prefiro morrer a viver assim. Compreendo melhor aqueles que morreram pelas suas convices sem haverem pensado que era maravilhoso,
cheio de bravura ou cheio de nobreza, morrer. Preferiram morrer a viver - e foi tudo.

Contudo, no seria honesto pretender que  um egosmo invertido que dita o meu procedimento. Sou levado a proceder assim por alguma coisa que no  de mim mesmo,
mas que me impele a fazer o que  justo, custe o que custar. Nisto sou um homem feliz, porque casei com uma mulher que pensa como eu, que tem tentado sufocar os
seus prprios       receios e dios. A aspirao  mais fcil assim.      Os meus filhos so pequenos de mais para      compreender. Seria doloroso que eles crescessem
para me odiar, ou para me temer, ou para       pensar que eu trara aquelas coisas que chamo a        a nossa riqueza. Seria uma fonte de infinita        alegria
se eles crescessem a pensar como ns. Seria reconfortante, animador e caso para dar graas. Isto no pode, porm, ser um caso de regateio; deve ser dado ou recusado
e, em qualquer dos casos, no pode alterar o curso das coisas justas.

Jarvis permaneceu sentado durante longo tempo, a fumar, sem ler mais. Ps os papis na gaveta, que fechou. E ali ficou at se lhe apagar o cachimbo. Depois ps o
chapu e desceu as escadas. Ao fundo das escadas voltou-se na direco da porta principal. No era por medo do corredor e da mancha de sangue; no voltaria a passar
pela outra porta, e era tudo. 219
A porta da frente fechava de trinco, e ele saiu batendo-a. '

Com o hbito de lavrador, olhou o cu, mas este cu de uma terra estranha nada lhe dizia. Atravessou o carreiro do jardim e o porto da rua. O polcia, nas traseiras,
ouviu o bater da porta e abanou a cabea com um ar de compreenso. "Ele j no pode encarar mais com isto", disse de si para si, "o velhote j no pode aguentar
isto."

Uma das sobrinhas predilectas de Margarida Jarvis, Brbara Smith, tinha casado com um homem de Springs. Num dia em que no havia audincia, Jarvis e a mulher foram-no
passar com eles. Jarvis pensou que o passeio faria bem a sua mulher, abalada mais do que ele previra pela morte do filho. As duas mulheres falaram da gente de Ixopo,
de Lufafa, de Higflats, de Umzimkulu, sentadas no jardim onde ele as deixara. Passado algum tempo convidaram-no a ir  cidade, mas ele recusou, dizendo preferir
ficar em casa a ler o jornal.

O jornal vinha cheio com as notcias do aparecimento de ouro em Odendaalsrust e da excitao que a descoberta produzira na Bolsa. Um articulista prevenia o pblico
contra a compra das aces a altos preos, afirmando que no havia prova alguma de que valessem tal aumento e que se baixassem, como poderia acontecer de um momento
para o outro, haveria prejuzos importantes. Tambm falava de crimes, principalmente de europeus assaltados por indgenas, mas no daqueles crimes de natureza to
grave que fazem as pessoas ter receio de abrir o"
220
 jornais.



Quando estava enfronhado na leitura, bateram  porta da cozinha. Abriu-a e viu-se perante um padre preto, de p ao fundo dos trs degraus de pedra que Desciam da
cozinha. Era velho o padre e os trajes negros estavam verdes de velhos e o colarinho escurecido pelo tempo ou pela sujidade. Tirou o chapu, mostrando a cabea branca,
e ps-se a fitar Jarvis, receoso e a tremer.

- bom dia, umfundisi - disse Jarvis em zulu, que falava correntemente.

O padre respondeu numa voz trmula, chamando-lhe umnumzana, que significa senhor, e, com surpresa de Jarvis, sentou-se no ltimo degrau, como se estivesse doente
ou a cair de fome. Jarvis compreendeu que no era por m educao, pois notou que o velho era humilde e de boas maneiras. Por isso desceu os degraus e perguntou-lhe:

- Est doente, umfundisi?

Mas o velho no respondeu. Continuou a tremer, olhando para o cho, de forma que Jarvis no conseguia ver-lhe o rosto, a menos que lhe levantasse o queixo, o que
ele no fez, pois no  coisa que se faa sem uma razo forte.

- Est doente, umfundisi ?

- Estou a ficar melhor, umnumzana.

- Quer gua? Ou quer comer? Tem fome?

- No,   umnumzana, estou a sentir-me melhor. Jarvis  permaneceu  no  ladrilhado  ao  fundo  do

ltimo degrau, mas o velho no se recompunha. Continuava a tremer e a olhar para o cho. No  fcil um branco ficar  espera, mas Jarvis esperava, pois o velho
estava, sem dvida, doente ou cheio de fraqueza. Fez um esforo para se levantar, auxiliando-se com a bengala, mas a bengala escorregou no ladrilho 221
 e caiu no cho ruidosamente. Jarvis apanhoue entregou-lha, mas o velho p-la de lado como  estorvo, bem como o chapu, e tentou levantar-Se apoiando as mos nos
degraus. A tentativa falhou porm, e ele sentou-se novamente e continuou a tremer. Jarvis poderia ajud-lo, mas isso no  to fcil como apanhar uma bengala. Por
fim, o velho apoiou de novo as mos nos degraus e ps-se de p Em seguida levantou tambm a cabea, fitando Jarvis, que lhe notou na face uma dor profunda que no
era motivada por doena ou por fome. E ento Jarvis baixou-se para lhe entregar a bengala e o chapu, no qual pegou com as pontas dos dedos, tal era o seu estado
de velhice e sujidade.

- Muito obrigado, umnumzana.

- Tem a certeza de que no est doente, umfundisi?

- J estou bom, umnumzana.

- E que deseja, umfundisi?

O velho padre pousou novamente no degrau a bengala e o chapu e, com as mos trmulas, tirou do bolso do casaco esverdeado uma carteira, deixando cair, devido 
tremura das mos, uma poro de papis.

- Peo desculpa, umnumzana.

Curvou-se para apanhar os papis, mas teve de ajoelhar, e ento os papis velhos e sujos caam-lhe das mos ao querer junt-los, e por fim deixou cair tambm a carteira,
o que lhe causou maior tremura e atrapalhao. Jarvis olhava a cena, pouco  vontade, entre apiedado e irritado.

- Peo que me desculpe faz-lo esperar, umnumzana.

222        -No tem importncia, umfundisi.


por fim os papis foram juntos e postos na carteira, excepto um, que entregou a Jarvis e no qual vinha escrito um nome e o endereo da casa.

-  aqui a casa, umfundisi.

- Pediram-me que viesse aqui, umnumzana, um homem chamado Sibeko, de Ndotsheni...

- Ndotsheni? Conheo. Eu venho de Ndotsheni.

- Esse homem tinha uma filha, umnumzana, que trabalhava em casa dum branco, o Sr. Smith, em Ixopo ...

- Sim, sim.

- E quando a filha do Sr. Smith se casou, f-lo com um branco cujo nome vem a escrito nesse papel.

- Sim,  isso.

- E eles vieram viver aqui em Springs e a filha de Sibeko veio tambm para aqui com eles, como criada. Mas agora h j doze meses que Sibeko no tem notcias da
filha e pediu-me que viesse saber dela.

Jarvis voltou-se, entrou em casa e tornou a sair com o rapaz que l trabalhava.

- Pergunte-lhe o que quer saber - disse. E de novo entrou em casa.

Mas l dentro ocorreu-lhe subitamente que aquele era o prprio padre velho de Ndotsheni. E por isso saiu novamente.

-Soube o que queria, umfundisi?

- Este rapaz no a conhece, umnumzana; quando ele para c veio, j ela se tinha ido.

- A dona da casa, a filha do Sr. Smith, saiu. Mas deve estar a chegar e pode esperar por ela, se quiser.

Mandou embora o rapaz e, logo que ele desapareceu, continuou:

223
- Eu conheo-o, umfundisi.

Na face do velho transpareceu tamanha aflio que ele disse-lhe:

- Sente-se, umfundisi.

A cabea do velho curvou-se, desviando a vista do outro. E Jarvis desviou o olhar tambm, confrangido e perturbado.

O velho sentou-se e Jarvis, sem o olhar, continuou:

- H qualquer coisa entre mim e o senhor, mas no sei o que .

- Umnumzana.

- O senhor tem medo de mim e no sei porqu; no h razo para me recear.

-  verdade, umnumzana. O senhor no sabe o que .

--Eu no o sei, mas queria sab-lo.

- No lho posso dizer, umnumzana.

- Deve diz-lo, umfundisi.  coisa sria ?

-  muito sria, umnumzana; a coisa mais sria de toda a minha vida.

Levantou o rosto e Jarvis viu nele uma expresso de amargura como nunca vira at ento.

- Diga, que ficar aliviado.

- Tenho medo, umnumzana.

- Eu vejo que tem medo, umfundisi, e  isso que no entendo. Mas afirmo-lhe que no tem que recear; no ficarei zangado consigo.

- Pois bem,  a coisa mais grave de toda a minha vida e  tambm a coisa mais grave de toda a sua vida.

Jarvis  fitou-o,  primeiro  com espanto,  mas  de-
224 pois adivinhando do que se tratava.

-- H s uma coisa a que se pode referir; s uma Coisa, mas, mesmo assim, no compreendo.

- Foi o meu filho que matou o seu - exclamou o velho.

Fez-se um silncio enorme. Jarvis afastou-se, caminhando por entre as rvores do jardim. Encostou-se ao muro e olhou para fora, para a campina, para a terra branca
sada das minas, grandes montes ao sol. Ao voltar-se, viu que o velho se levantara, permanecendo com a cabea baixa, os olhos no cho, com o chapu e a bengala na
mo. Aproximou-se dele e disse-lhe:

- Ouvi o que me disse e compreendo o que no compreendia. No tenho contra si nenhum rancor.

- Umnumzana.

- A dona da casa j voltou, a filha do Sr. Smith. Quer falar com ela? Sente-se melhor?

- Foi isso que me trouxe aqui, umnumzana.

- Estou a perceber. E ficou assustado quando me viu; no pensava encontrar-me aqui. Como me conheceu ?

- Via-o passar a cavalo em Ndotsheni, junto  minha igreja.

Jarvis ps-se a escutar os rudos que vinham da casa. Depois falou calmamente:

- Talvez tambm visse passar o menino, o meu filho. Ele tambm costumava ir a cavalo a Ndotsheni; num cavalo avermelhado com a cabea branca. Costumava trazer pistolas
de pau no cinto, como fazem as crianas.

A face do velho contraa-se. Continuava a olhar para o cho, onde Jarvis viu cair as lgrimas do velho. Ele prprio se sentia comovido, desalentado, ansioso por
pr termo  situao, mas sem lhe ocorrer o meio.


226

- Eu lembro-me, umnumzana, havia nele um resplendor!

- Sim, sim, havia nele um resplendor.

- Umnumzana,  difcil dizer estas coisas, mas sinto o corao profundamente amargurado por si, pela inkosikazi, pela jovem inkosikazi e pelos meninos.

- Sim,   sim - disse   ferozmente   Jarvis. - vou chamar a dona da casa.

Entrou em casa e voltou com ela.

- Este   velho - disse   Jarvis   em   ingls - veio aqui saber da filha de um indgena chamado Sibeko, que trabalhou em sua casa em Ixopo, pois j h meses que
no tm notcias dela.

- Tive de a mandar embora. Era boa no princpio e prometi ao pai olhar por ela, mas depois deu-lhe para se portar mal; comeou a fabricar bebidas no quarto. Foi
presa e esteve na cadeia um ms. Depois disso,  claro, no a tornei a aceitar.

- E no sabe para onde foi ? - perguntou Jarvis.

- No fao a menor ideia - respondeu a filha de Smith em ingls. - E  coisa que me no importa.

- Ela diz que no sabe - traduziu Jarvis, sem aludir ao que ela tinha dito no fim.

- Muito obrigado - disse o velho, tambm em zulu. - Fique em bem, umnumzana.

E baixou a cabea  filha de Smith, que lhe correspondeu com um aceno.

Em seguida ps o chapu e comeou a descer o carreiro que dava para o porto. A filha de Smith retirou-se e Jarvis foi na peugada do velho, vagarosamente, insensivelmente.
Kumalo abriu o porto para sair e, ao voltar-se para o fechar, deu com Jarvis, a quem baixou a cabea.



-- V em bem, umfundisi - disse Jarvis.

.- Fique em bem, umnumzana.

E o velho tirou o chapu e p-lo de novo na cabea. Depois principiou a descer a rua a caminho da estao. Jarvis seguiu-o com o olhar at o ver desaparecer; ao
voltar-se, deu com sua mulher, que, vinda da casa, se aproximava, caminhando a custo, Como se tambm j fosse velha.

Dirigiu-se ao seu encontro e ela meteu o brao no dele.

- Porque ests to perturbado, James? Porque vinhas to agitado quando entraste em casa?

- Foi uma coisa que saiu do passado. No te acontece o mesmo s vezes, de repente?

Mais tranquilizada, ela concordou:

- Sim,  verdade.

Apertou com mais fora o brao do marido e disse:

- A Brbara chama-nos para o almoo.

26

Ouve-se na praa a enorme voz de trovo. H l muitos polcias, brancos e negros; d, sem dvida, uma sensao de fora v-los ali a falar para tanta gente, porque
a voz ruge e sobe e desce de tom.

H aqueles que se impressionam com o simples som da voz. H os que se recordam, como se fosse hoje, da primeira vez que a o-uviram, que se lembram da excitao e
das estranhas sensaes dos seus corpos, como se por eles passasse uma corrente elctrica. Sim, porque na voz havia fascinao, havia ameaas, havia nela a prpria
frica. Havia nela

227
228

rugidos de leo, ecos de trovo sobre montanhas negras.

Dubula e Tomlinson ouvem-na com desdm e iu, veja, pois, sendo embora uma voz que abalava milhares de seres, no tinha atrs dela um crebro a ditar-lhe o que devia
dizer nem coragem para o dizer se soubesse.

Os polcias ouvem-na e um diz para outro: "Este homem  perigoso"; e o outro responde: "No me compete pensar nessas coisas."

No pedimos o que no pode ser dado
- diz Joo Kumalo-; pedimos somente a nossa parte naquilo que o nosso trabalho produz. Encontrou-se ouro novo, a frica do Sul enriqueceu outra vez. Queremos a nossa
parte na riqueza. Esse ouro continuaria nas entranhas da terra se ns o no arrancssemos. No afirmo que esse ouro seja nosso: digo apenas que queremos a parte
que nos pertence.  ouro do povo todo: do branco, do preto, do mulato, do indiano. Mas quem fica com a maior parte desse ouro?

E a voz enorme ruge na garganta de touro. Uma onda de excitao percorre a multido. Os polcias redobram de ateno, excepto aqueles que j ouviram aquilo mais
vezes e que sabem que Kumalo vai at ali, mas no mais longe. O que no seria se esta voz proferisse as palavras que j profere em particular, se o seu tom aumentasse
sem qualquer quebra, cada vez mais, se o povo se levantasse com ela, enlouquecesse com ideias de revolta, de mando e de posse?

Que aconteceria se essa voz lhes pintasse a frica



despertando do seu sono, a frica a ressurgir, a frica negra e selvagem? No seria difcil faz-lo, nen era necessrio um crebro para pensar tais palavras. Mas
o homem tem medo, o rugido trovejante diminui de intensidade, o povo tem um arrepio de frio e volta a si.

 errado pedir mais dinheiro? Ns, que temos to pouco, s pedimos o nosso quinho, o suficiente para que as nossas mulheres, as nossas famlias, no morram de fome.
Sim, porque ns no temos o suficiente. A Comisso Lansdown disse que no tnhamos o suficiente. A Comisso Smit disse que no tnhamos o suficiente.

E aqui a voz troveja de novo e o povo estremece.

Ns sabemos que no temos o suficiente. Ns s exigimos aquelas coisas pelas quais luta a massa trabalhadora em todos os pases do mundo: o direito de vendermos
o nosso trabalho por um preo digno, o direito de darmos s nossas famlias uma situao decente.

 Dizem que os salrios elevados causariam

a morte das minas. Ento para que serve isso, essa indstria mineira? Porque no h-de morrer, se  s a nossa misria que a conserva com vida? Dizem que  ela que
faz o Pas rico; mas o que vemos ns dessas riquezas? Somos ns que devemos continuar a ser pobres para que os outros continuem a ser ricos?

A multido agita-se como que movida por um vendaval.

229
 agora o momento, Joo Kumalo,  agora o momento de a voz enorme atingir mesmo as portas  do Cu.  agora o momento para palavras de paixo para indiscriminadas
palavras de ferocidade que despertem, que enlouqueam, que quebrem algemas. Mas ele sabe. Ele sabe o grande poder que tem, o poder que teme. E a voz diminui de tom
como o rudo do trovo nas montanhas, que o eco e o contra-eco vo reduzindo a um murmrio.

- Digo-te que o homem  perigoso - diz um dos polcias.

- Sim, agora, que o ouvi, creio que sim.

- Porque se no mete este filho do Diabo na cadeia? -pergunta o outro.

- Porque no se lhe d um tiro?-; acode o primeiro.

- Sim, ou mat-lo-concorda o segundo.

- O Governo anda a brincar com o fogo - diz o primeiro.

- Tambm me parece - acorda o outro.

Tudo o que pedimos  justia-diz Kumalo.
- No vamos exigir aqui igualdade, direitos polticos ou a abolio da separao de raas, Exigimos somente mais dinheiro da indstria mais rica do mundo.

Essa indstria  impotente sem o nosso trabalho. Cessemos o trabalho, e essa indstria morrer. E digo-vos que  melhor parar o trabalho que trabalhar' por tais
salrios.

Os polcias indgenas esto atentos, firmes nos

seus postos como soldados. Quem sabe o que eles

230 pensam desta oratria, quem sabe, at, se pensam
alguma coisa. O comcio decorre pacfica e ordeiraminte e, desde que haja paz e ordem, nada pode acontecer. Ao primeiro sinal de desordem, porm, Joo Cumalo ser
tirado do estrado, posto na camioneta e levado para outro local. E que acontecer depois  oficina de carpinteiro que d oito, dez ou doze libras por semana? Que
ser feito das conversas na oficina, onde vm homens de toda a parte para o ouvir?

H homens que anseiam pelo martrio, h os que sabem que a entrada na priso lhes dar grandeza, h ainda os que vo para a priso sem cuidarem de saber se isso
os torna grandes ou no. Mas Joo Kumalo no  desses; dentro da cadeia no h aplausos.

No vos tomo mais tempo; est a fazer-se tarde, h ainda outro orador e muitos de vs tero complicaes com a polcia se no forem para casa. Comigo no haver
novidade, mas pode hav-la com os que precisam de ter um passe. E eu no quero desentendimentos com a polcia. Dizia-vos que temos o nosso trabalho para vender e
que o homem tem liberdade de vender o seu trabalho por um preo digno. Foi pela liberdade que se combateu nesta guerra; foi pela liberdade que muitos dos nossos
prprios soldados africanos estiveram a combater.

A voz troveja; alguma coisa vai sair:

No somente aqui, mas em toda a frica, em todo este grande continente onde ns, Africanos, vivemos. 231
A multido ruge tambm. Um dos sentidos (ja frase  inocente, mas o outro  perigoso, e Joo Kumalo fala num sentido e quer significar o outro

Por conseguinte, vendamos o nosso trabalho pelo seu justo valor. E, se a indstria no puder compr-lo, deixe-se morrer a indstria mas no vendamos barato o nosso
trabalho para deixar viver a indstria.

Joo Kumalo senta-se e a multido aplaude-o, gritando e dando palmas.  uma gente simples, que no sabe que para ele ser um dos grandes oradores do Pas s uma coisa
lhe falta. Essa gente ouviu somente a voz trovejante, foi incitada e reprimida, mas por um homem que pode de novo excit-la depois de a ter deixado cair.

- Ento ouviu-o,  no    verdade? - perguntou Msimangu.

Stephen Kumalo abanou a cabea.

- Nunca  ouvi   coisa   semelhante.   Comigo   mesmo, seu irmo, ele brincava como se eu fosse uma criana.

- Fora - disse Msimangu. - A razo por que Deus concede semelhante fora no est ao alcance da nossa inteligncia. Se este homem fosse um pregador, toda a gente
iria atrs dele, toda a gente o seguiria.

- Nunca, at hoje, ouvi coisa semelhante - repetiu Kumalo.

- Talvez seja de dar graas a Deus por ele estar corrupto -disse Msimangu com solenidade -, porque-

232   se o no estivesse, poderia fazer mergulhar a
nossa terra num mar de sangue. Mas ele est corrompido pelos seus haveres, receia perd-los, receia perder o poder que j tem. Ns nunca poderemos Conpreender isto.
Vamos embora ou ficamos para ouvir esse tal Tomlinson? -- Gostaria de o ouvir.

- Ento   cheguemo-nos  mais     frente,  porque (jaqui  difcil ouvi-lo.

- Vamos, Sr. Jarvis?

- Sim, Joo, vamos embora.

- E que lhe parece isto, Sr. Jarvis?

- No ligo importncia a estas  coisas - disse Jarvis incisivamente.

- No digo isso; refiro-me ao que est a acontecer.

Jarvis resmungou:

- No me importo com isso. Vamos at ao teu clube.

" velho de mais para enfrentar estas coisas", pensou Joo, "tal como meu pai."

Subiu para o carro e ps o motor a trabalhar.
 "Mas temos de as encarar", disse para si mesmo.

 O capito cumprimentou o oficial superior.

 - O relatrio, meu comandante.

 -Como correu isso, capito?

 - Sem    complicaes,    meu    comandante.    Mas

aquele Kumalo  perigoso; maneja o povo at onde
 233
no sei o que

lhe apetece e depois recua. Mas no sei o que seria se ns l no estivssemos.

- Pois bem, temos de l estar sempre.  tenho todos os relatrios dizem o mesmo: ele vai sempre muito longe, mas no longe de mais. Porque  parece que ele  perigoso?

- Por causa da voz,  meu  comandante.  NunCa ouvi coisa igual.  como o fole grande de um rgo Toda a multido se agita. A mim mesmo me sucedeu isso...  quase
como se ele visse o que se est passando e se refreasse a tempo.

-    extraordinrio - disse  o  oficial  superior numa voz breve. - J ouvi tambm falar dessa coisa da voz. Qualquer dia vou eu tambm ouvi-la.

- Haver greve, meu comandante?

- Prouvera a Deus que eu o soubesse.  o diabo se houver. Como se ns no tivssemos j bastante que fazer. So horas de voc ir para casa.

- Boa noite, meu comandante.

- Boa noite, Harry. Harry!

- Meu comandante!

- Ouvi falar numa promoo para si.

- Muito obrigado, meu comandante.

- Isso  coloca-o  na brecha para me substituir qualquer dia. bom ordenado, posio elevada, prestgio ... e todas as complicaes que h no mundo.  como estar sentado
no cimo dum vulco. S Deus  que sabe se vale a pena. Boa noite, Harry.

- Boa noite, meu comandante.

O oficial superior suspirou e puxou os papis para si. Vincos de preocupao riscaram-lhe a fronte.

"bom ordenado, alta posio, prestgio!", murmurou. Em seguida ps-se a trabalhar.

234

Vai ser um caso srio se houver greve. Sim, porque h trezentos mil mineiros negros aqui em Vitwatersrand. Vieram do Transkei, da Basutolndia, da Zululndia, da
Bechuanalndia, da Sekukunilndia e de outras regies fora da frica do Sul.  gente simples, analfabeta, gente de costumes tribais, instrumentos fceis de manejar.
E, quando vai para a greve, enlouquece; encerram os funcionrios das minas nas reparties, atiram com pedras e garrafas e incendeiam.  certo que, na maior parte
das minas, vivem em casas de malta e por isso  mais fcil ter mo neles, mas, de qualquer forma, no se pode evitar que destruam a propriedade, que ponham em perigo
vidas humanas, que paralisem a grande indstria da frica do Sul, a indstria sobre que foi construda e da qual depende.

Correm boatos alarmantes de que a greve se no limitar s minas, mas se espalhar a todas as indstrias, aos caminhos de ferro e s docas. Corre at o boato de
que todos os negros, homens e mulheres, cessaro o trabalho e de que todas as escolas e igrejas fecharo. Ficaro ociosos oito milhes de negros, que percorrero,
mal humorados e sombrios, as ruas das cidades e das aldeias e os caminhos ,das quintas. Mas uma coisa dessas  fantstica, quase impossvel; eles no esto organizados
para isso, sofrero privaes inenarrveis, morrero de fome. E, no entanto, a ideia de uma coisa to fantstica  de apavorar, e s agora a gente branca avalia
quanto est

dependente do trabalho da gente negra.

     Os tempos vo maus, no h dvida. Coisas estranhas

235
 esto a acontecer pelo mundo, e o mundo nunca deixou s a frica do Sul.

A greve veio e foi-se. Nunca passou alm das minas. O pior incidente foi em Driefontein, onde a polcia foi chamada para obrigar os mineiros negros a entrarem para
as minas. Houve luta e trs mineiros negros foram mortos. Mas tudo est sossegado, dizem, tudo est tranquilo.

Parece que o snodo anual da Diocese de Johannesburg no percebe muito de minas. Um dos seus clrigos fez um discurso sobre o assunto, agora que parece terem passado
os tempos de os snodos se limitarem a assuntos religiosos. No discurso o padre instou pelo reconhecimento da Unio dos Trabalhadores Mineiros Africanos e vaticinou
um mar de sangue se isso no se desse. Pensava-se que ele queria significar que a Unio devia ser considerada como um organismo responsvel, com competncia para
negociar com os patres as questes de trabalho e de salrios. Mas um porta-voz veio declarar que os mineiros africanos eram almas ingnuas, muito pouco versados
na arte das negociaes e instrumentos de manejo fcil nas mos de agitadores sem escrpulos. E, em qualquer dos casos, toda a gente sabe que o custo de aumento
do salrio ameaaria a prpria existncia das minas, a prpria existncia da frica do Sul.

H diversas formas de encarar este difcil problema. E h gente que se obstina a discutir a eroso
236 do solo, a falncia da tribo, a falta de escolas, a criminalidade, como se tudo isto fossem elementos do mesmo problema. E, quando se comea a cogitar denasiadamente
nisto, -se levado a pensar na repblica, no bilinguismo, na imigrao, na Palestina e s Deus sabe em que mais. Por isso, de certo modo,  melhor no pensar em
nada disto.

Entretanto, a greve acabou, com um nmero de perdas de vidas considervelmemte baixo. Tudo est sossegado, dizem, tudo est tranquilo.

No porto deserto h, contudo, gua que bate de leve no molhe. Na floresta escura e silenciosa h uma folha que cai. Detrs dos apainelados polidos h formiga branca
que devora a madeira. Na verdade, nada est tranquilo, excepto para os loucos.

27

 A Sr.a Lithebe e Gertrudes entraram para casa e a primeira fechou a porta atrs delas.

- Fiz todo o possvel para te compreender, mas no o consegui, minha filha.

- Eu no fiz mal nenhum.

- Eu no disse que fizeste mal, mas tu no compreendes que casa  esta, no compreendes a gente que aqui vive.

Gertrudes ficou amuada.

- Eu compreendo - disse.
a
- Ento porque falas  com  essa gente,  minha filha?

- Eu no sabia que no era gente decente.
 237


- No reparas na maneira como falam, na   maneira como se riem? No os ouves rir de uma maneira parva e desbragada?

- Eu no sabia que isso fazia mal.

- Eu no disse que fazia mal. Disse  que era parva e desbragada a maneira como falam e se riem.  No ests a tentar ser uma mulher sria?

- Sim,  o que me esforo por ser.

- Nesse caso, no  essa gente que te serve.

- Estou a ouvir.

- Eu no gosto de te censurar, mas o teu irmo, o umfundisi, tem sofrido tanto!

- Sim, tem sofrido muito.

- Ento no lhe aumentes os desgostos, minha filha.

- Quem me dera ir para longe desta terra! exclamou Gertrudes, com lgrimas nos olhos. - No sei o que hei-de fazer num lugar como este.

- No  s nesta terra - respondeu a Sr.a Lithebe. - Mesmo   em   Ndotsheni   hs-de   encontrar dessa gente que por nada se pe a rir e a falar estupidamente.

-  esta terra! Em Johannesburg nunca tive seno desgostos. Quem dera sair de c!

- J no falta muito. O julgamento acaba amanh, mas tenho muito medo por ti e pelo umfundisi tambm.

- No h razo para ter medo.

- Muito folgo em te ouvir isso, minha filha. No tenho medo pela rapariga, que  obediente, tem boa vontade e se esfora por agradar ao umfundisi. E, na realidade,
s faz o que deve, pois tem recebido

238
  dele o que o prprio pai lhe recusou.

 Ela tambm diz coisas sem propsito.

- No sou surda que no oua, mas ela faz por  se corrigir e tem-se corrigido depressa. Mas acabemos com isto; vem a algum.

Ouviu-se bater  porta, onde apareceu uma mulher de enorme estatura, respirando pesadamente por causa da caminhada.

- H   coisas   ms   nos   jornais - disse   ela. Trouxe este para lhes mostrar.

Estendeu o jornal na mesa e indicou s outras os ttulos em letras grandes:

OUTRO CRIME DE ASSASSINATO NA CIDADE.

PROPRIETRIO   MORTO    A   TIRO    POR   UM

LADRO INDGENA

As mulheres ficaram muito excitadas. Estes ttulos dos jornais eram o que os homens mais temiam actualmente. Os proprietrios temiam-nos; temiam-nos suas mulheres;
todos os que trabalhavam pela frica do Sul os temiam; temiam-nos todos os homens negros respeitadores da lei. Muita gente pedia que os jornais no pusessem a palavra
"indgena" nos ttulos das notcias, outros receavam o pior no caso de se esconder parte da verdade.

-  mau que isto tenha sucedido agora, que a coisa est para ser decidida - disse a mulher forte, que sabia tudo acerca do caso e tinha ido assistir s audincias
com a Sr.a Lithebe.

- Tem muita razo no que diz - respondeu esta.

Ouviu ranger o porto e atirou o jornal para debaixo de uma cadeira. Era Kumalo e a rapariga. Esta segurava-lhe o brao, porque ele andava muito abatido. Levou-o
para o quarto. E, mal tinham entrado
 239 ambos, o porto rangeu de novo e Msiniangu apareceu. Deu logo com os olhos no jornal, que apanhou do cho.

- Ele viu isto? - perguntou.

- No, umfundisi - respondeu a mulher grande. - No  uma coisa aborrecida isto ter acoutecido agora?

- O juiz  um grande juiz - tornou Msimangu-, mas a senhora tem razo no que diz:  uma coisa terrvel isto ter acontecido agora. Ele gosta de ler o jornal. Que
havemos de fazer?

- No temos aqui nenhum jornal - disse a Sr.' Lithebe -, porque este foi trazido por esta senhora. Mas,   quando   ele  for   comer      Casa   da   Misso, h-de
l-lo.

- Foi por isso que c vim, me. No poderemos comer hoje c?

- Muito pouco  pede, umfundisi;  h  de  comer para todos, embora seja comida simples.

- Na verdade, me, nem a senhora sabe quanto nos tem ajudado.

-Para que andamos ns neste mundo? - respondeu ela.

- Depois de comermos vamos logo para a reunio - continuou Msimangu. - Amanh no h perigo, porque ele no costuma ler os jornais nos dias de audincia; e depois
disso j no tem importncia.

Escondido o jornal, comeram todos em casa da Sr.a Lithebe e, acabada a refeio, foram para a reunio na igreja, onde uma mulher negra falou do apelo que tivera
para ser freira, renunciando ao mundo, e de como Deus a libertara daqueles desejos
240
 inerentes a todas as mulheres.

Em casa, depois de Msimangu se ter retirado e cumalo ter ido para o quarto, Gertrudes, deixando a rapariga a fazer a cama na sala de jantar, procurou a Sr.a Lithebe
no seu quarto.

- Posso dar-lhe uma palavra, me?

- Nem tens de pedir, minha filha.

E a Sr.a Lithebe, fechando a porta, esperou que ela falasse.

- Ouvi o que disse a irm preta, me, e tive a ideia de me fazer freira tambm.

A Sr.a Lithebe bateu as palmas num acesso de alegria; depois tornou-se solene.

- Bati as palmas de contente, no porque devas faz-lo, mas porque pensaste nisso. Mas h o pequeno.

Os olhos de Gertrudes rasaram-se de lgrimas.

- Talvez a mulher do meu irmo tome conta dele melhor do que eu. Eu sou uma mulher fraca, bem sabe. Rio-me e falo sem propsito. Por isso, talvez seja melhor fazer-me
freira.

- Queres dizer que ... o desejo, o apetite de mulher ...

Gertrudes deixou pender a cabea.

- Sim,  isso que quero dizer.

A Sr.a Lithebe agarrou-lhe as mos.

- Seria uma grande coisa, mas dizem que no se deve tomar uma resoluo apressada e ligeira. No foi isso que ela disse?

- Foi, sim, me.

- Vamos fazer disto um segredo entre ns. Eu rezarei por ti e tu rezars tambm. Daqui a uns tempos voltaremos a falar no caso. Achas bem assim?

Acho muito bem, me.

241

- Ento dorme em paz, minha filha. No podemos saber se isso acontecer; mas, se acontecer,   um grande conforto para o nosso velho.

- Durma bem, me.

Gertrudes fechou a porta e, no caminho para o seu quarto, ao passar junto da cama da rapariga num sbito impulso, deitou-se no cho, junto dela,

- Ando com ideias de me fazer freira - segredou ela.

A rapariga sentou-se no leito.

- Ah!  uma vida muito difcil.

-  uma vida difcil, , mas ainda no resolvi. Se eu for para freira, tu olhas-me pelo meu filho?

- Com  certeza - respondeu a  rapariga,  cuja face se iluminou. - Com certeza que olharei por ele.

- Como se fosse teu?

- Evidentemente. Como se fosse meu filho.

- E no tens conversas sem propsito na frente dele?

A rapariga tomou um ar grave.

- Nunca mais tenho conversas sem propsito.

- Eu tambm nunca mais tenho conversas disparatadas. No te esqueas de que ainda no est resolvido.

- No me esquecerei.

- E no digas a ningum. Meu irmo teria um grande desgosto se ns andssemos a falar nisto e depois eu resolvesse outra coisa.

- Bem compreendo.

- Dorme bem, pequena.

- Durma em paz.

242


28

O pblico levantou-se quando o grande juiz entrou na sala. Conservou-se de p, mais solene que usualmente, pois esse era o dia da sentena. O juiz sentou-se, sentaram-se
os dois adjuntos e, por fim, o pblico. E os trs rus apareceram, vindos do recinto por debaixo da sala de audincias.

- Dedicmos   a   este   caso   um  longo estudo   e muita ponderao - principiou o juiz -, tanto eu como os juizes adjuntos deste tribunal. Ouvimos cuidadosamente
toda a prova produzida em audincia, que discutimos e analismos em todos os seus pormenores.

E o intrprete traduzia em zulu o que o juiz dizia.

- O ru Absalo Kumalo no procurou negar o crime. A defesa decidiu que o ru fosse ouvido em declaraes e o ru relatou franca e simplesmente a forma como matou
Artur Jarvis na residncia da vtima, em Parkwold. Mais declarou que no teve inteno de matar ou sequer de disparar a arma, que trazia somente para intimidar o
servial Ricardo Mpiring, supondo que o assassinado no estivesse em casa. A apreciao dessas declaraes ser feita mais tarde, mas elas so j da maior importncia
para determinar a culpa do segundo e do terceiro rus. O primeiro ru declara que o plano foi traado pelo terceiro ru, Joo Pafuri, e que foi este quem vibrou
a pancada que prostrou sem sentidos o criado Mpiring. Neste ponto  apoiado pelo prprio Mpiring, que diz ter reconhecido Pafuri pelo seu tique nervoso de piscar
os olhos, que a mscara no podia esconder. Alm disso,  certo que ele reconheceu
 243
paf uri entre dez homens disfarados da mesma forma numa parada de identificao, alguns dos quais Siriam dum tique semelhante ao de Pafuri. Mas a defesa alegou
que esses tiques eram semelhantes mas no idnticos, que era difcil encontrar homens de estatura semelhante com tiques da mesma espcie e que Pafuri era bem conhecido
de Mpiring. Mais alegou a defesa que a parada de identificao somente teria mrito se os dez homens fossem todos da mesma estatura e com os mesmos tiques nervosos.
No podemos aceitar inteiramente tal argumentao, porque isso nos levaria  concluso de que a parada de identificao s teria valor quando todos os seus componentes
fossem idnticos. Mas a validade parcial do argumento  clara: uma caracterstica proeminente como a dos tiques pode conduzir facilmente tanto a uma errada como
a uma correcta identificao, especialmente quando a metade inferior do rosto est escondida. Deve aceitar-se o princpio de que a identificao se baseia no reconhecimento
de um tipo, de um todo, e que no oferece a certeza quando o tipo est invisvel em parte. De facto, tornar-se-ia perigoso, porque seria indubitavelmente possvel
esconder feies dissemelhantes, revelando s as semelhantes. Duas pessoas com cicatrizes semelhantes, diremos, so mais facilmente confundidas uma com a outra quando
a rea que envolve a cicatriz  mostrada e o resto fica escondido. Parece, por conseguinte, que a identificao feita por Mpiring no  por si prova suficiente de
que Pafuri fosse o seu atacante. Alm disso, devemos lembrar-nos de que, embora o primeiro ru, Absalo Kumalo, declarasse que Pafuri estava presente,
244  e que fora ele, Pafuri, quem agredira Mpiring,

estas declaraes foram feitas somente quando a polcia o interrogou acerca do paradeiro de Pafuri. foi ento que, pela primeira vez, ele se lembrou de implicar
Pafuri? Ou havia uma prvia ligao entre pafuri e o crime? O defensor do primeiro ru alegou que o seu constituinte, Absalo Kumalo, se encontrara sob uma obsesso
de medo durante vrios dias e que, uma vez detido, fossem quais fossem os nomes que lhe tivessem sido apresentados, ele teria confessado tudo aquilo que lhe oprimia
a conscincia e que foi este estado de esprito que o levou  confisso, e no a meno do nome de Pafuri. De facto, a sua prpria verso desse estado de medo d
uma certa verosimilhana a essa suposio. Mas no se pode excluir a possibilidade de que ele lanasse mo do nome de Pafuri, afirmando que este estava no local,
com o propsito de no ficar sozinho sob o peso de to grave imputao. Em qualquer dos casos, porque no daria ele os nomes dos seus verdadeiros cmplices, visto
que parece no haver razo alguma para duvidar da declarao de Mpiring, segundo a qual foram trs os homens que estiveram na cozinha? Ele fez um relato completo
de todas as suas aces; porque implicaria ele, depois, dois homens inocentes, ocultando o nome dos verdadeiros culpados?

Deve tambm ter-se presente a estranha coincidncia de aquilo a que se chamou uma errada identificao ter levado  priso de um cmplice que imediatamente confessou
o crime.

H mais uma dificuldade neste caso confuso. Nenhum dos outros rus nem essa mulher de nome Baby Mkize negam ter estado os quatro presentes em Alexandra, na casa
da Avenida Vinte e Trs, nmero setenta e nove, na noite seguinte ao crime. 245
Foi este encontro casual que levou o primeiro ru a denunciar o segundo e o terceiro como seus cmplices? Ou foi, de facto, este encontro aquilo que o ru afirma
ter sido? Foi o crime discutido nessa reunio? A mulher, Baby MMze,  uma testemunha das mais duvidosas e, se bem que a parte acusadora e a defesa do primeiro ru
o demonstrassem claramente, nenhum foi capaz de provar concludentemente que o crime ali tivesse sido discutido. De princpio, essa mulher mentiu  polcia quando
afirmou que no via o primeiro ru h mais de um ano. O testemunho dessa mulher foi confuso, contraditrio, feito a medo, mas seria esse medo causado apenas pelo
facto de estar perante o tribunal? Ou tem a sua causa noutros crimes a que ela esteve ligada? Ou ser o resultado de, na verdade, o crime ter sido discutido em sua
casa? No nos parece que isto tivesse sido -perfeitamente esclarecido.

A acusao deu o maior relevo  prvia associao criminosa dos trs rus, atribuindo-lhe tamanha importncia que foram requeridas investigaes ulteriores para
exame da natureza dessa associao. Porm, uma associao prvia, mesmo de natureza criminosa, no  por si uma prova de colaborao no grave crime de que estes
homens so acusados.

Depois de longa e atenciosa considerao, os juizes deste tribunal chegaram  concluso de que se no provou o crime em relao ao segundo e ao terceiro rus, e
por isso o tribunal os absolve. No entanto, a sua prvia associao para fins criminosos ser investigada com o maior cuidado.

Houve um suspiro em toda a sala. Um acto do
24s  drama terminara. O ru Absalo Kumalo no fez

U gesto; nem sequer olhou para os outros dois, que esto agora livres. Pafuri, no entanto, olha em volta, como se quisesse dizer: est certo,  justo o que se acaba
de fazer.

- Resta agora o caso contra o primeiro ru. A sua confisso foi inteiramente examinada e, na medida em que pde ser investigada, foi considerada verdadeira. Parece
no haver razo para supor que uma pessoa inocente se decida a confessar um crime que, na realidade, no cometeu. O douto advogado de defesa rogou que lhe no seja
aplicada a pena capital, afirmou que o ru se sente abalado, arrependido, horrorizado pelo seu acto, que se lhe deve levar em conta a confisso completa e verdadeira
e chamou a ateno para a pouca idade do ru e para o efeito malfico que uma cidade enorme e cheia de vcios imprime no carcter de um jovem rstico vindo h pouco
da sua tribo. Argumentou com a desgraa que tem despedaado a sociedade fundada na tribo, apresentou, com grande poder de convico, a cumplicidade que nos cabe
nessa desgraa. Porm, ainda admitindo que fosse verdade termos sido ns, por medo, egosmo ou negligncia, quem forjou tal destruio, que nada fizemos por reparar,
admitindo ser verdade que devssemos sentir vergonha por isso e fazer qualquer coisa de recto e corajoso, h, todavia, uma lei, e um dos mais altos feitos desta
defeituosa sociedade foi ter feito a lei, ter designado juizes que a apliquem e ter isento esses juizes de obrigaes de qualquer espcie, excepto a de aplicar a
lei. Mas um juiz no pode menosprezar a lei por a sociedade ser defeituosa. Se a lei  a lei de uma sociedade, que alguns julgam injusta, so a lei e a sociedade
que
 247
248

devem ser modificadas. Entretanto, h uma lei em vigor que deve ser aplicada, e  dever sagrado do juiz aplic-la. E o facto de ele ter liberdade para a aplicar
s pode ser levado  conta de justia numa sociedade que, a muitos respeitos, pode no ser considerada justa. No estou a insinuar,  bem de ver que o douto representante
da defesa pensasse, por um s momento que fosse, que a lei no devesse ser aplicada. Estou somente a indicar que um juiz no pode, no deve, no ousa consentir que
os defeitos existentes na sociedade o possam influenciar de forma que ele deixe de aplicar a lei. Perante a lei, um homem  responsvel pelos seus actos, excepto
sob certas circunstncias, que ningum aqui alegou para serem apreciadas. No compete ao juiz, alis, decidir at que ponto um ser humano , na verdade, responsvel;
perante a lei ele tem completa responsabilidade. Ao juiz no cabe mostrar piedade. Uma autoridade mais alta, neste caso o governador-geral, pode conceder a graa,
mas  assunto que diz respeito a essa autoridade. Quais so os factos neste caso? Este rapaz vai a uma casa com inteno de assaltar e roubar. Leva consigo um revlver
carregado. Diz que o levava no propsito de intimidar. Porque o levava ento carregado? Sustenta que no tinha inteno de matar. Contudo, um dos seus cmplices
prostrou brutalmente, com uma pancada, o criado indgena, e deve admitir-se que o criado podia facilmente ter sido morto. Declara que a arma era uma barra de ferro
e, sem dvida, tal acto no podia ter sido praticado de forma mais brutal e mais perigosa. Comparticipou nesse plano e, a perguntas  no tribunal, declarou que nada
objectara contra o uso dessa arma perigosa.  verdade que a vtima foi u
negro e que h uma doutrina que encara tais ofensas com menos gravidade quando a vtima  de raa negra. Mas no h tribunal algum que concorde com semelhante ponto
de vista. O ponto mais importante e digno de considerao  a repetida afirmao do ru de que no teve inteno de matar, que o aparecimento do homem branco foi
inesperado e que disparou a arma sob a aco do medo e do pnico. Se o tribunal pudesse aceitar isso como verdadeiro, no devia considerar o ru como autor do crime
de homicdio voluntrio. De novo se pergunta: quais so os factos concernentes ao caso? Como se pode julgar que no estamos em face de trs jovens e perigosos homicidas?
 certo que eles no se dirigiram  casa com inteno expressa de matar um homem. Mas  verdade que iam munidos de armas de cujo uso resultaria a morte para quem
quer que interferisse na realizao dos seus propsitos criminosos. Este ponto da lei foi bem esclarecido por um grande juiz da frica do Sul: "A inteno de matar
 elemento essencial no crime de homicdio voluntrio, mas a sua existncia pode ser inferida de circunstncias relevantes. A questo  saber se dos factos provados
pode tirar-se com justia tal inferncia. A inteno no  confinada somente aos casos em que h um propsito definido de matar. Existe tambm nos casos em que h
o objectivo de causar ofensas corporais graves, susceptveis de produzir a morte, independentemente de ter ou no resultado a morte." Devemos, pois, supor que, quando
naquele pequeno quarto foi brutalmente espancado um negro inofensivo e morto a tiro um branco inocente, em to diminuto intervalo de tempo, no houve inteno de
causar ofensas corporais graves, mas apenas necessidade
 249
 de as praticar? O meu esprito no pode aceitar tal suposio.

H um grande silncio na sala. Tambm o juiz fica calado. Nenhum rudo. Ningum tosse, se mexe ou suspira. E o juiz continua:

- Absalo Kumalo, o tribunal julga-te culpado do assassnio de Artur Trevelyn Jarvis, na sua residncia de Parkwold, na tarde do dia oito de Outubro de mil novecentos
e quarenta e seis. Mateus Kumalo e Joo Pafuri, este tribunal no vos considera culpados do crime e por isso vos absolve e vos manda em liberdade.

Os dois saram da sala pelo corredor que ia dar ao subterrneo, deixando o outro s. Este ao v-os ir, pensando talvez: "Agora aqui fico eu sozinho." O juiz volta
a falar:

- Que fundamentos tem este tribunal para recomendar a concesso de graa? Examinei o caso com demorada e profunda ateno e no pude encontrar circunstncias atenuantes.
O ru  jovem, mas j atingiu a idade viril. Foi a uma casa com dois companheiros, munidos de duas armas perigosas, qualquer delas capaz de causar a morte de um
homem. Foram usadas as duas armas, uma com graves resultados, outra com um resultado fatal. Este tribunal tem o dever solene de proteger a sociedade contra os ataques
assassinos de gente perigosa, seja velha, seja nova, e de mostrar claramente que infligir a punio apropriada a tais infractores da lei. Consequentemente, no
posso fazer qualquer recomenda-

250
o para a concesso de graa.

O juiz dirige-se ao rapaz:

- Tem o ru alguma coisa a dizer antes de ser pronunciada a sentena?

- S tenho isto para dizer: matei esse homem, nas no queria mat-lo; tive medo simplesmente.

Reina o silncio na sala, mas, apesar disso, um homem branco pede em voz alta silncio. Kumalo esconde o rosto nas mos, pois j ouviu dizer o que isso significa.
Jarvis, na sua cadeira, est severo e erecto. O homem branco olha em frente, com o sobrolho franzido e feroz. A rapariga est sentada como uma criana que  e olha
fixamente para o juiz, no para o amante.

- Absalo Kumalo, condeno-te a voltares para a priso e a seres suspenso pelo pescoo at que a morte sobrevenha. E que possa Deus compadecer-se da tua alma.

O juiz levanta-se e toda a gente se levanta tambm. Mas j no h mais silncio. O condenado atira-se ao cho, chorando e soluando. H uma mulher que geme e um
velho que grita: "Tixo! Tixolt Ningum impe silncio, embora o juiz ainda no se tenha retirado. Pois quem pode impedir que o corao se despedace?

Todos saem do tribunal, os brancos por um lado, os negros por outro, segundo o costume. Mas o jovem branco infringe o costume e ele e Msimangu ajudam o velho sucumbido,
um de cada lado. Tal costume no se infringe muitas vezes. Apenas quando
 251
252

h um motivo grave. O branco tem um ar severo e olha ferozmente em frente. Em parte porque h um motivo grave, em parte porque infringe o costume Porque tal coisa
no se faz de nimo leve.

29

Atravessaram de novo o enorme porto aberto no muro alto e sombrio, o padre Vicente, Kumalo, Gertrudes, a rapariga e Msimangu. Trouxeram-lhes o rapaz, que, sacudido
por um tremor, teve, por um momento, um claro de esperana nos olhos. Mas a luz de esperana desfez-se quando Kumalo lhe disse com brandura:

- Viemos por causa do casamento, meu filho. Aqui est a que h-de ser tua mulher.

O rapaz e a rapariga cumprimentaram-se como dois estranhos e deram-se as mos sem vida, que no se apertaram e caram desajeitadamente. No se beijaram  moda europeia,
mas ficaram-se a olhar um para o outro, extremamente constrangidos. Por fim, ela perguntou:

- Ests bom de sade? Ao que ele respondeu:

- Estou, sim. E tu, como vais?

- Tambm vou bem.

E nada mais disseram.

O padre Vicente deixou-os, e ficaram todos sob o mesmo constrangimento. Msimangu viu Gertrudes prestes a cair em lamentaes e gemidos e, virando as costas aos outros,
disse-lhe em segredo e num tom srio:

- Graves coisas sucederam, mas isto  um casamento e, por isso,  melhor ir l para fora que desatar aqui a gemer e a gritar.

E, como ela no respondesse, ele tornou, com fria severidade:

- Compreendes?

Ento ela respondeu, ressentida:

- Compreendo.

Msimangu desviou-se para uma janela rasgada na parede grande e sombria e ela permaneceu amuada. Mas agora ele sabia que ela j no faria o que tinha em mente.

E Kumalo disse ao filho, com desespero:

- Ests de sade? E o filho respondeu:

- Estou bem, meu pai. E o pai, como vai? E o pai respondeu:

- Estou de boa sade.

Tentou dizer mais alguma coisa, mas as palavras no lhe acorriam e, por isso, foi um alvio para todos quando um homem branco apareceu para os conduzir  capela
da priso.

O padre Vicente, que j ali se encontrava paramentado, ps-se a ler o livro sagrado. Em seguida perguntou ao rapaz se ele a tomava como mulher e  rapariga se ela
o aceitava como marido. E, depois de eles terem respondido, nos termos rituais do livro, que seriam um do outro na prosperidade e no infortnio, na riqueza e na
pobreza, na doena e na sade, at que a morte os separasse, ele uniu-os pelo matrimnio. Depois fez-lhes uma pequena prdica, dizendo que se deviam mtua fidelidade
e que lhes competia educar os filhos que porventura tivessem na obedincia a Deus. E, assim, ficaram casados e assinaram os nomes num livro.

Feito isto, os dois padres, a recm-casada e Gertrudes deixaram pai e filho a ss.

253


254

Kumalo disse ento:

- Sinto-me satisfeito por teres casado.

- Tambm me sinto satisfeito, meu pai.

- Eu cuidarei do teu filho como se ele fosse de mim prprio.

Mas, quando se deu conta do que dissera, tremeram-lhe os lbios e teria feito aquilo que a todo o custo queria evitar se o filho, reagindo contra a sua prpria dor,
lhe no perguntasse:

- Quando volta o pai para Ndotsheni?

- Amanh, meu filho.

- Amanh ?

- Sim, amanh.

- Ento diga  me que no me esqueo dela.

- Sim, decerto que lhe direi. Dar-lhe-ei, evidentemente, o teu recado. - No pronunciou, porm, estas palavras; apenas acenou com a cabea.

- Meu pai.

- Dize, meu filho.

- Tenho dinheiro depositado nos Correios. So quase quatro libras.  para o menino. Eles do-no ao pai, se l for; j tratei disso.

- Sim, decerto l irei busc-lo. Sim, sim.

- Meu pai.

- Dize, meu filho

- Se for um rapaz, quero que se chame Pedro. E Kumalo, numa voz abafada, murmurou:

- Pedro.

- Sim, gostava que lhe pusessem o nome de Pedro.

- E se for uma menina?

- Se for uma menina...   bem,  no  pensei  no nome que lhe devem pr. Meu pai. ''

- Dize, meu filho.

- Tenho um embrulho em Germinston, em casa de Jos Bhengu, na Rua Maseru, n.o 12. Gostaria que vendesse as coisas que tem dentro e o dinheiro fosse para meu filho.

- Sim, tratarei disso.

- Tenho outras coisas em poder de Pafuri, mas estou convencido de que ele vai dizer que no so minhas.

- Pafuri? O tal Pafuri?

- Sim, meu pai.

-  melhor ento no se pensar mais nisso.

- Como o pai entender.

- E essas coisas que esto em Germinston, meu filho, no sei como hei-de ir busc-las, pois ns partimos amanh.

- Ento no tem importncia.

Mas Kumalo viu que tinha importncia e respondeu :

- Eu falarei nisso ao reverendo Msimangu.

- Seria melhor.

- E esse Pafuri - disse o velho com rancor - e teu primo... creio que  difcil perdoar-lhes.

O rapaz  encolheu  os  ombros.

- Eles mentiram, meu pai. Eles estavam l, como eu disse.

- Decerto que estavam l, mas no esto agora aqui.

- Eles esto aqui, meu pai. H um outro caso contra eles.

- No quero dizer isso, meu filho. Quero dizer que eles no  esto...   que eles no esto...-mas no conseguiu palavras para dizer o que queria.

- Esto aqui - tornou o rapaz, sem compreender. - Esto aqui neste mesmo lugar. Na realidade, meu pai, quem se vai daqui sou eu.

255
- Vais?

- Sim, tenho de ir... para... E Kumalo ciciou:

- Para Pretria?

A estas terrveis palavras o rapaz atirou-se ao cho e ficou naquela posio em que os Indianos costumam rezar, comeou a soluar, a chorar, num choro convulso.
Sim, porque a mocidade tem medo da morte. O velho, movido por aquela compaixo que nunca o abandonava, ajoelhou-se junto ao filho e ps-lhe a mo na cabea.

- Tem coragem, meu filho.

- Tenho medo! - gritou ele. - Tenho medo!

- Tem coragem, meu filho.

O rapaz soergueu-se e ficou acocorado. Tinha o rosto desfigurado pelo desespero.

- Ai! Ai! Tenho medo da forca! Tenho medo da forca! - chorava ele.

Ainda de joelhos, o pai tomou as mos do filho nas suas, apertando-lhas fortemente, num apelo desesperado para lhe incutir alvio e confiana, enquanto lhe dizia
de novo:

-  preciso coragem, meu filho.

O guarda branco, ouvindo os gritos, entrou e disse, sem azedume:

- bom homem, so horas de sair.

- vou j, vou j, senhor. Mas conceda-nos mais uns minutos.

- Bem, s uns minutos mais. - E saiu.

- Meu filho, enxuga as lgrimas.

E o rapaz pegou no leno que o pai lhe estendia e enxugou o rosto. Ps-se de joelhos e, embora os soluos tivessem acabado, tinha o olhar vago e
256 perturbado.

- Meu filho, agora tenho de ir; fica em bem, meu filho;  eu  olharei  por tua mulher e por teu filho.

- Muito bem - disse ele.

Sim, ele disse "muito bem", mas os seus pensamentos no esto com a mulher nem com o filho. No lugar onde pairam os seus pensamentos no h mulher nem filhos, no
lugar para onde ele olha no h casamento.

- Meu filho, tenho de ir.

Levantou-se, mas o filho agarrou-o pelos joelhos e bradou:

- No me deixe! O pai no me deve deixar! De novo comeou a soluar e a gritar:

- No! No! No me deixe! No me pode deixar aqui!

O guarda branco entrou novamente e disse com severidade:

- bom homem, tem de se ir embora j.

E Kumalo quis sair, mas o rapaz segurava-o pelas pernas, clamando e soluando. O guarda tentou desapertar-lhe os braos, sem o conseguir, e depois chamou um outro
homem para o ajudar. Os dois arrastaram o rapaz e Kumalo disse-lhe angustiadamente:

- Fica em bem, meu filho. Mas ele no o ouviu.

Esmagado pela dor, Kumalo deixou-o e foi at ao porto, onde os outros o esperavam. A rapariga acercou-se dele e disse-lhe timidamente, mas com um sorriso:

- Umfundisi.

- Dize, minha filha.

- Agora sou sua filha.
257


Ele fez um esforo para lhe sorrir.

-  verdade.

E ela estava ansiosa por continuar o assunto, mas, ao reparar que o pensamento do velho no estava ali, calou-se e no falou mais.

Depois de voltar da cadeia, Kumalo subiu a colina que levava  rua onde seu irmo tinha a oficina de carpinteiro. Era caso para admirao no haver ningum na oficina,
excepto o homenzarro, que o cumprimentou constrangido.

- Vinha dizer-te adeus, meu irmo.

- Bem, bem. Voltas ento para Ndotsheni! Passaste c muito tempo, meu irmo, e tua mulher h-de ficar contente por te ver. Quando partes?

- Partimos amanh, no comboio das nove horas.

- A Gertrudes e o filho vo ento contigo! Fazes uma boa aco, meu irmo. Johannesburg no  terra para uma mulher s. Mas vamos tomar ch.

Levantou-se e foi s traseiras da casa chamar a mulher, mas Kumalo interrompeu-o:

- No tenho vontade de tomar ch, meu irmo.

- Como quiseres.  meu costume oferecer ch a quem me visita.

Sentou-se e fingiu-se muito ocupado em acender um grande cachimbo, segurando-o entre os dentes e procurando os fsforos num monte de papis, sem olhar para o irmo.

-  uma boa aco que praticas, meu irmo repetiu, com o cachimbo nos dentes. - Johannesburg no  lugar para uma mulher sozinha e o pequeno

258
   deve dar-se melhor no campo.

 - Levo tambm uma outra criana - disse Kumalo -, a mulher de meu filho, que tambm est  espera de um filho.

 - Muito bem, muito bem, j ouvi falar nisso volveu o outro, simulando prestar a mxima ateno ao fsforo com que acendia o cachimbo. -  outra boa aco que praticas.

 Aceso o cachimbo, ps-se a calcar o tabaco com fcimulado cuidado. Por fim, no tendo mais em que empregar a ateno, ps-se a olhar para o irmo Ipor entre o fumo.

 -No s uma, mas vrias pessoas me tm dito: Boas aces as que o seu irmo tem feito." Muito bem! D lembranas minhas a tua mulher e aos amigOS. Chegas de madrugada
a Pietermaritzburg e l ppanhas o comboio de Donnybrook.  tarde ests em Sdotsheni. Muito bem, muito bem,  uma grande viagem.

     - Meu irmo, h uma coisa que deve ser esclarecida entre ns.     - Como quiseres, meu irmo.

- Tenho pensado muito nisto. No vim aqui para te censurar.

Joo Kumalo, como se j esperasse o que o irmo dissera, acudiu vivamente:

- Censurar-me? Porque havias de censurar-me? Havia uma questo e um juiz. No era nada contigo, comigo ou com qualquer outra pessoa.

Intumesceram-se-lhe as veias no pescoo de touro, mas Kumalo apressou-se a falar:

- Eu no digo que devia censurar-te. Como afirmaste, havia uma questo e um juiz. H tambm um alto Juiz de que nem tu nem eu falamos. Mas h um outro assunto que
devemos discutir.
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- Bem, bem, compreendo. De que se trata?

- Uma coisa  dizer-te adeus antes de me ir embora. Mas eu no podia vir despedir-me e no dizer nada. Viste o que se passou com o meu filho. Abandonou o lar e perdeu-se.
Portanto, eu pensei que devia abordar esta questo: o que h a respeito de teu filho? Tambm ele abandonou a casa paterna.

- Tenho   pensado   no   caso - respondeu   Joo Kumalo. - Logo que esta complicao acabe, vou traz-lo para casa.

- Ests decidido a isso?

- Estou decidido, podes crer.

Riu-se, com o seu riso de trovo, e acrescentou:

- No deixarei s para ti a prtica das boas aces, meu irmo. O vitelo gordo ser morto c em casa tambm.

- Isto  uma histria para lembrar.

- Bem, bem,  uma histria para lembrar. Eu no rejeito as boas lies porque ... bem ... tu compreendes.

- E h uma coisa ainda - disse o outro.

- Tu s o meu irmo mais velho. Diz o que quiseres.

- A tua poltica, meu irmo. At onde te levar ela?

As veias do seu pescoo possante incharam de novo.

- A minha poltica  c comigo, meu irmo. Eu no te tenho falado de religio.

- Tu declaraste: "Dize o que quiseres."

- Sim, de facto disse. Pois bem, estou a ouvir-te.

- Onde  que ela te levar?

- Eu  sei   pelo  que  combato.   Desculpa-me - e
 riu-se com o seu riso sonoro. - O reverendo Msi-

inangu no est presente e por isso desculpa-me se falo em ingls.

- Fala como quiseres.

- Conheces a histria, meu irmo. E tu sabes que a histria ensina que os homens que trabalham no podem permanecer subjugados para sempre. Se se levantarem unidos,
quem  que se lhes pode opor?  cada vez mais o nosso povo comea a compreender isto. Se eles o decidirem, no haver mais trabalho na frica do Sul.

- Queres dizer: se eles forem para a greve?

- Sim,  isso mesmo que quero dizer.

- Mas a ltima greve no teve xito algum. Joo Kumalo ps-se de p e a voz rouquejou-lhe
na garganta:

- Olha para o que eles nos. fizeram. Obrigaram-nos a ir para as minas, como se fssemos escravos. Temos ou no o direito de largar o trabalho?

- Tu odeias os Brancos, meu irmo? Joo Kumalo olhou-o desconfiado.

- No odeio homem nenhum; s odeio a injustia.

- Mas eu ouvi falar nalgumas coisas que tu disseste.

- Que coisas?

- Ouvi dizer que algumas eram coisas perigosas. Ouvi dizer que te vigiam e que te prendero quando virem que  a altura. So estas as coisas que te queria dizer,
porque tu s meu irmo.

Nos olhos do outro perpassou o medo. O grande homem parecia um garoto apanhado em flagrante.

- No sei que coisas so essas - balbuciou.

- Ouvi que algumas coisas dessas eram ditas aqui na oficina - tornou Kumalo. 261
- Nesta oficina? Quem  que sabe o que aqui se diz?

Apesar das suas splicas para ter poder de perdoar, Kumalo sentiu o desejo de ferir o irmo.

- Conheces todas as pessoas que vm aqui  oficina? No  possvel que uma delas seja aqui mandada para te atraioar?

O homenzarro limpou o suor da testa. Kumalo leu-lhe no rosto a interrogao que a si mesmo fazia sobre a plausibilidade da suspeita. E, apesar das suas splicas,
o desejo de ferir tornou-se mais forte, to forte que, tentado a mentir, sucumbiu  tentao e mentiu:

- Ouvi dizer que um homem foi aqui mandado para te atraioar, apresentando-se como amigo.

- Ouviste isso?

E Kumalo, envergonhado, teve de dizer:

- Ouvi.

- Que amigo! - exclamou o outro. - Que amigo! E em Kumalo explodiu o grito da sua dor:

- Meu filho tambm tinha amigos desses. O irmo olhou-o.

- Teu filho? - perguntou. Compreendendo  ento,  uma  clera  violenta se
apossou dele.

- Fora da minha oficina! - rugiu. - Fora de minha casa!

Deu um pontap na mesa  sua frente e dirigiu-se a Kumalo com tal mpeto que este recuou at  rua. A porta bateu-lhe violentamente na cara e ouviu o irmo, furioso,
fech-la  chave e aferrolh-la. E, na rua, quedou-se humilhado e envergonhado. Humilhado, porque a gente que passava
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 o olhava com espanto; envergonhado, porque no tinha vindo com aquele propsito. Ao contrrio, viera para dizer ao irmo que o poder corrompe, que um homem que
luta pela justia deve, ele prprio, estar limpo e purificado, que o amor  maior que a fora, e nada disto tinha feito.

- Deus se compadea de mim! Jesus se amerceie de mim!

Experimentou a porta, mas estava fechada e trancada.

Um irmo tinha expulsado outro irmo e ambos tinham vindo do mesmo ventre. Os que passavam continuavam a mir-lo e ele ps-se a caminho, sucumbido pelo desgosto.

- No tenho palavras com que lhe agradea disse Jarvis.

- Mais faramos se pudssemos, Jarvis.

Joo Harrison chegou com o automvel e Jarvis e Harrison quedaram-se, por um momento, junto do carro.

- Os nossos cumprimentos para a Margarida, para a Maria e para os meninos, Jarvis. Qualquer dia vamos at l para os ver a todos.

- Dar-me- muito prazer, Harrison, muito prazer.

- H uma coisa que lhe quero dizer, Jarvis disse Harrison, baixando de tom de voz. -  a respeito da sentena. No se pode dar vida a quem morreu, mas foi justa,
absolutamente justa. Por mim, no vejo que pudesse ser de outra forma. Se tivesse
sido de outra maneira, ficaria certo de que no havia justia no mundo. S  pena que os outros dois tivessem ficado de fora. O Ministrio Pblico fez uma tal confuso
no caso! Deviam ter espremido aquela mulher chamada Mkize.

- Sim, tambm acho. Bem, passe bem e, mais uma vez, obrigado.

- No tem nada que agradecer.

Na estao, Jarvis deu a Joo Harrison um sobrescrito.

- Abre isto depois de eu ter partido - disse. Logo que o comboio partiu, o jovem Harrison

abriu-o. Dentro, um papel dizia: "Para o vosso clube. Faam tudo aquilo que tu e o Artur queriam fazer. Se lhe quiseres chamar Clube Artur Jarvis, terei grande prazer.
Mas isto no representa qualquer condio."

Joo Harrison voltou o papel e deu com o cheque. Olhou para o comboio que se afastava como se quisesse correr atrs dele.

- Mil  libras! - exclamou. - Helena  de  Tria! Mil libras!

Houve uma reunio em casa da Sr.a Lithebe na qual Msimangu era o convidado de honra. No foi uma reunio alegre, como  fcil de imaginar. Mas a comida era abundante
e notava-se um certo prazer melanclico em todos. Msimangu presidiu  maneira dos Brancos e fez um discurso exaltando as virtudes do padre irmo e o desvelo maternal
que a Sr. Lithebe proporcionara a todos dentro de sua casa.
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 Kumalo fez tambm um discurso, mas as palavras
saram-lhe gaguejadas e imprecisas, pois o seu esprIto estava impressionado com a mentira que pregara e com a altercao que tivera. No entanto, agradeceu a Msimangu
e  Sr.a Lithebe as gentilezas que recebera. A Sr.a Lithebe no quis falar, mas ria-se como uma rapariga, dizendo que se nasce para se ser bom com o nosso semelhante.
Mas a sua amiga, a mulher forte, falou por ela, num longo discurso que parecia no ter fim, acerca da bondade dos dois padres e da Sr.a Lithebe, do dever de Gertrudes
e a rapariga levarem uma vida honesta para corresponderem  generosidade com que foram tratadas, de Johannesburg e dos perigos de to grande cidade, dos pecados
da gente de Sophiatown, Claremont, Alexandra e Pimville. Falou tanto que Msimangu se viu obrigado a levantar-se e a dizer-lhe:

- Me, temos de nos levantar cedo, quando no, ficaramos toda a vida a ouvi-la.

A oradora sentou-se, ento, feliz e sorridente.

Em seguida, Msimangu anunciou que tinha uma novidade a dar, uma novidade que conservara em segredo e que revelaria agora pela primeira vez. Ia entrar numa ordem,
abandonando o mundo e tudo > que lhe pertencia, sendo a primeira vez que um lomem negro na frica do Sul tomava tal deliberao. Houve aplausos e todos elogiaram
a
 resoluo. Gertrudes, sentada, com o filho no colo, parecia deleitada com os discursos. E a rapariga ouvia tambm, atenta e sorridente, todas estas coisas inditas
da sua vida.

Por fim, Msimangu disse:

- Temos de nos levantar cedo para apanhar o comboio, meus amigos; so pois horas de ir para a cama. O homem do txi est aqui s sete.

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Terminaram, ento, com hinos e oraes. A mulher corpulenta despediu-se, repetindo os elogios  Sr.a Lithebe. Kumalo acompanhou at ao porto o amigo, que lhe disse:

- vou abandonar o mundo e as suas riquezas. Economizei uma pequena quantia, mas no tenho pai nem me que dependam de mim. Fui autorizado pela Igreja a dar-lhe essa
quantia a si, meu amigo, para o ajudar, por causa das despesas que fez em Johannesburg e dos novos encargos que vai assumir. Esta caderneta est em seu nome.

Ps o livrinho nas mos de Kumalo, que logo conheceu, pela forma, tratar-se duma caderneta de depsito dos Correios. Kumalo, segurando a caderneta, apoiou as mos
na borda do porto, encostou a cabea a elas e ps-se a chorar convulsivamente.

Msimangu disse-lhe:

- No me estrague este prazer, pois nunca tive um to grande.

Estas palavras tiveram o condo de abrandar o pranto de Kumalo, a quem Msimangu voltou a dizer:

- Vem ali um homem; no faa barulho, meu irmo.

Ficaram em silncio at o homem passar e depois Kumalo exclamou:

- Em toda a minha vida no conheci ningum como o senhor!

E Msimangu respondeu severamente:

- Eu sou um homem fraco e pecador, mas Deus estendeu as Suas mos sobre mim. E a respeito do rapaz,  o governador-geral quem decidir a concesso de graa. Logo
que o padre Vicente saiba alguma coisa avis-lo-.

- E se a deciso for contra o perdo?

- Se   decidirem   contra   ele - respondeu   Msimangu com serenidade -, um de ns ir a Pretria nesse dia e depois lhe dir... quando estiver tudo acabado. E agora
tenho de ir, meu irmo. Temos de estar a p muito cedo. Mas tambm lhe quero pedir um favor.

- Pea tudo quanto tenho, meu amigo.

- Quero pedir-lhe que reze por mim, em inteno do que tenciono fazer.

- Hei-de rezar por si, de manh e  noite, em todos os dias da minha vida.

- Boa noite, irmo.

- Boa noite, Msimangu, amigo entre os amigos, e que Deus o conserve sempre sob a Sua proteco.

- E a si tambm.

Kumalo ficou-se a v-lo ir rua abaixo, at entrar na Casa da Misso. Depois foi para o seu quarto, acendeu a vela e abriu a caderneta. Havia trinta e trs libras,
quatro xelins e cinco pence. Caiu de joelhos, lamentando-se, arrependido, da mentira dita e da altercao que tivera. Devia ir ter com o irmo, como manda a boa
lei, mas j era muito tarde. Escrever-lhe-ia uma carta. Agradeceu a Deus a bondade dos homens e sentiu-se aliviado e confortado. Depois rezou pelo filho. No dia
seguinte iriam todos para casa, menos seu filho, que ficaria naquele lugar onde o tinham encerrado, na priso de Pretria, na cela solitria e gradeada. E se no
obtivesse graa, l ficaria at ser enforcado. Ah, mas a mo que matara tinha outrora agarrado o seio da me para o meter na boca sequiosa! A mo assassina tinha
outrora procurado a mo paterna na escurido! O assassino com medo de morrer tinha sido outrora uma criana com medo da noite!

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De manh levantou-se cedo, ainda escuro. Acen. deu a vela e, lembrando-se de repente, ajoelhou e rezou por Msimangu. Abriu a porta sem rudo e abanou a rapariga
docemente.

- So horas de levantar!

Ela deu um salto nos cobertores e disse:

- No me demoro nada.

E ele sorriu ao ver o seu entusiasmo.

- Ndotsheni - anunciou ele. - Amanh  Ndotsheni.

Abriu a porta de Gertrudes e levantou a vela. Mas Gertrudes fora-se. O rapazito l estava e l estavam o vestido vermelho e o turbante branco. Mas Gertrudes fugira.

LIVRO  III

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 A mquina ferve e apita atravs da plancie do fransval. Os montes brancos e chatos das minas ficam para trs e a paisagem estende-se at perder de vista, Vo sentados
lado a lado, Kumalo com o rapazito nos joelhos e a rapariga com todos os seus haveres dentro dum saco de papel, daqueles que se compram nas lojas para encher de
embrulhos. O rapazinho perguntou pela me, mas Kumalo disse-lhe que ela se tinha ido embora e ele ficou calado.

Em Volksrust trocaram a mquina a vapor por outra que tem uma gaiola e tira a fora de cordas metlicas estendidas por cima. Depois andaram s voltas, descendo a
escarpa at aos montes do Natal. E Kumalo disse  rapariga que ali era j o Natal e ela entusiasmou-se, porque era a primeira vez que via a regio.

Caiu a noite e o comboio atroava os campos de batalha de outrora. Passaram, sem os ver, os montes de Mooi River, Rosetta e Balgowan. Ao nascer do Sol tornearam montes
mais altos, descendo para Pietermaritzburg, a cidade encantadora.

A tomaram outro comboio, o que corre ao longo do vale do Umsindusi, passaram as choas negras, Edendale, Elandskop, e desceram para o grande vale do Umkomaas, onde
vivem as tribos e o solo  doente, quase sem esperana de cura. E a gente dos stios disse a Kumalo que no tinha chovido, que no podiam lavrar nem plantar, que
haveria fome na regio. 271


Em Donnybrook entraram ainda noutro comboio o pequeno comboio-brinquedo que corre para Ixopo atravs dos montes verdes e ondulados de Eastwolds e Lufafa. E desceram
em Ixopo, onde vrias pessoas o esperavam e lhe deram as boas-vindas, dizendo-lhe;

- Ah!, mas andou por l muito tempo!

E ali tomaram o ltimo comboio, que corre a par da linda estrada que vai dar aos montes. Conhecido de muita gente, tinha receio que lhe fizessem perguntas. Falam
como as crianas e no teriam tido relutncia em perguntar: "Quem  aquele?", "Quem  esta rapariga?", "Quem  este menino?", "Donde vm?", "Para onde vo?". Percebeu
que queriam perguntar-lhe pela irm e pelo filho e, para evitar a conversa, abriu o livro sagrado e ps-se a ler.

O Sol vai descendo sobre o grande vale do Umzimkulu, para l das montanhas do East Griqualand. Eis sua mulher e o amigo que o ajudou a trazer a bagagem. Dirige-se
para ela, ansioso, e abraa-a  maneira europeia. Sente-se feliz por ter chegado. Ela olhou-o, interrogativa, e ele diz:

- O nosso filho vai morrer, a menos que lhe concedam graa. Mas no falemos nisso agora.

- Compreendo - diz  ela.

- E Gertrudes... Estava tudo combinado para vir; estvamos todos na mesma casa, mas, quando fui para a acordar, tinha desaparecido. Mas no falemos tambm nisso
agora.

Ela anuiu, baixando a cabea.

- Este  o rapazinho e esta  a nossa nova filha. A mulher de Kumalo pega na criana e beija-a

 moda europeia.
272       - s meu filho - diz.

Pousa-o no cho e aproxima-se da rapariga, que a olha humildemente, com o saco de papel na mo. Aperta-a nos braos,  moda europeia, e diz-lhe:

- s minha filha.

A rapariga rompe num pranto sbito e a mulher diz-lhe:

- Que  isso ? No chores! E depois acrescenta:

- A nossa casa  modesta e sossegada; no h l grandes coisas.

A rapariga levanta os olhos cheios de lgrimas e responde:

-  tudo quanto desejo, me.

Qualquer coisa de profundo perpassa, qualquer coisa boa e profunda que, mesmo acompanhada de lgrimas,  conforto nesta desolao.

Kumalo aperta a mo do amigo e todos se pem a caminho pelo carreiro que conduz ao sol poente, ao vale de Ndotsheni. Aqui surge um homem que diz: "De volta, umfundisi?
 bomque tenha regressado. Ali  uma mulher que exclama para outra: "Olha!  o umfundisi que volta!" Uma mulher, vestida  europeia, pe o avental pela cabea e
corre para a cabana, gritando, mais como uma criana que como uma pessoa adulta: " o umfundisi que est de volta." Traz os filhos para a porta e eles pem-se a
espreitar, por detrs das saias da me, o umfundisi que voltava.

Uma rapariga corre para o caminho e pra diante de Kumalo.

- Estamos muito satisfeitos por o tornar a ver aqui, umfundisi.

- Mas vs tendes tido aqui um umfundisi - diz ele, referindo-se ao jovem padre que o bispo enviara Para o substituir.


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- Ns   no   o   compreendemos - diz   ela. - S compreendemos o nosso umfundisi e estamos muito contentes por o termos c de novo.

O caminho agora desce, dos montes verdes onde o nevoeiro alimenta a erva e os fetos; serpenteia por entre pedras e  preciso caminhar com cautela, pois  muito ngreme.
Uma mulher grvida deve ter cuidado, e por isso a mulher de Kumalo caminha junto da rapariga, dizendo: "Olha uma pedra, tem cautela, no escorregues."

A noite vem caindo e os montes do East Griqualand destacam-se no cu, azulados, quase negros.

O caminho desce para a terra vermelha de Ndotsheni.  uma terra gasta, uma terra de velhos e crianas, mas  o lar. O milho mal atinge a altura dum homem, mas 
o lar.

- Est tudo seco por aqui, umfundisi; andamos desesperados por chuva.

- Eu sei, meu amigo, eu sei.

- O nosso milho est quase todo comido, umfundisi; s Tixo sabe o que teremos para comer.

O caminho torna-se mais plano, acompanhando o ribeirito que corre junto  igreja. Kumalo pra para o ouvir, mas no h nada que ouvir.

- O ribeiro no corre, meu amigo. -Secou h um ms, umfundisi.

- Onde vo buscar gua ento?

- As mulheres tem de ir ao rio que vem dos lados da quinta do Sr. Jarvis, umfundisi.

Ao ouvir aquele nome, Kumalo sentiu medo e dor, mas obriga-se a dizer:

- Como est o Sr. Jarvis?

- Voltou ontem, umfundisi.  No sei como ele

est, mas a inkosikazi veio h umas semanas e dizem que est magra e doente. Eu trabalho l agora, umfundisi.

Kumalo fica calado, sem poder falar. Mas o amigo acrescenta:

- Todos sabem, aqui.

- Ah! Todos sabem.

- Toda a gente sabe, umfundisi.

No voltaram a falar. O caminho era agora plano, passando junto de cabanas e campos vermelhos e vazios.

Aqui e alm ouve-se chamar. Na obscuridade do crepsculo vozes chamam outras vozes em lugares distantes. S um zulu pode saber o que dizem, porque algum que no
seja zulu, embora compreenda a lngua, no consegue distinguir por quem chamam. Alguns brancos dizem que so artes mgicas, mas no, no h nada de mgico nisso.
H s uma arte aperfeioada.  a frica, a terra adorada.

- Esto a dizer que j voltou, umfundisi.

- Sim, bem ouvi.

- Esto contentes, umfundisi.

De facto, esto contentes. Saem das cabanas, ao longo do caminho, correm na escurido pelos montes abaixo. O rapazio chama e grita com aquela voz trmula prpria
da regio.

- J voltou, umfundisi.

- Umfundisi, bem-vindo seja.

- Demorou-se tanto tempo, umfundisi. Uma rapariguita grita-lhe:

- Temos uma professora nova na escola! Uma outra reponta:

- s maluca; h que tempos que ela veio!

Um rapazito cumprimenta-o no estilo que lhe ensinaram
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 na escola e grita: "Umfundisi!-", e em seguida, sem esperar resposta, retrocede e solta o estranho e trmulo apelo, sem se dirigir a ningum em particular, mas
ao vento somente. Retrocede e ensaia os primeiros passos lentos de uma dana, no para que algum veja, mas unicamente para si.

H um lampio do lado de fora da igreja, o lampio que se costuma acender quando h servio religioso. Por baixo do lampio esto mulheres vestidas de branco, com
um pano verde  volta do pescoo. Quando o grupo se aproxima, levantam-se e uma delas inicia um cntico num tom de voz to alto que  impossvel de sustentar; mas
as outras vm em seu auxlio, sustentando a voz, e vm homens tambm, que cantam em voz profunda e natural. Kumalo tira o chapu, e ele, a mulher e o amigo juntam-se
ao coro, enquanto a rapariga olha a cena cheia de espanto.  um cntico de gratido, no qual os homens se lembram de Deus, humilhando-se e agradecendo a misericrdia
eterna.  um cntico que ecoa nos montes vermelhos e nus, nos campos vermelhos e vazios da tribo despedaada.  cantado com amor, humildade e gratido, em que o
povo humilde pe toda a sua alma.

E Kumalo tem de rezar:

- Tixo, rendemos-Te graas pela Tua infinita misericrdia; rendemos-Te graas por este bom regresso; rendemos-Te graas pelo amor dos nossos amigos e dos que nos
pertencem; rendemos-Te graas por todas as graas que nos concedes. Tixo, imploramos-Te que mandes chuva ...

E todos dizem amm, e so tantos que ele se v forado a esperar que acabem.

- Tixo, d-nos chuva, para que possamos lavrar

e fazer as nossas sementeiras. E, se no houver chuva, pedimos-Te que nos protejas da fome e da misria.

E tornam todos a dizer amm, de modo que ele tem de esperar que acabem. To bem recebido  que sente no peito um calor que lhe afugenta o medo, e ento ora por tudo
que tem de profundo dentro de si.

- Tixo, que este menino seja bem-vindo a este lugar! Que aqui cresa e se torne forte! E sua me...

Suspendeu-se-lhe a voz como se no pudesse diz-lo, mas tomou uma atitude mais humilde e baixou
a voz:
- E sua me ... perdoa-lhe os seus pecados. Uma mulher solta um gemido. Kumalo conhece-a;

 uma das grandes coscuvilheiras da terra. Por isso acrescenta:

- Perdoa-nos a todos, pois todos ns temos os nossos pecados. E consente, Tixo, que esta moa venha em boa hora a Ndotsheni e que seu filho nasa em boa hora neste
lugar.

Fez uma pausa e continuou com doura:

- Que ela encontre o que procura e que tenha o que deseja.

E depois a coisa mais difcil por que devia orar, mas tornou-se ainda mais humilde:

- E, Tixo, o meu filho...

No se ouviu um nico rudo, tudo ficou silencioso. At a mulher dos mexericos ficou calada. E a voz dele ouviu-se num murmrio:

- E sua me... perdoa-lhe os seus pecados. Acabou-se! Acabou-se a coisa difcil que ele tanto
receava. Sabe que no foi ele quem o conseguiu, mas esta gente que o rodeia.

- Ajoelhem! - diz ele.

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Todos ajoelham na terra vermelha e nua. Kumalo levanta a mo, ergue a voz. Uma fora estranha vem em auxlio deste homem velho e desgraado. Pois no  ele um padre?

- Que o Senhor vos abenoe e vele por vs, que o brilho da Sua face vos ilumine, que Ele vos d paz, agora e sempre. Que a graa de Nosso Senhor Jesus Cristo e o
amor de Deus e do Esprito Santo estejam convosco e com todos os que vos so queridos, agora e para todo o sempre. Amm.

Levantam-se todos e a professora nova diz:

- No poderemos cantar Nkosi Sikelel' iAfrika1? E..a professora velha responde:

- Aqui no se conhece isso; ainda c no chegou. E a professora nova insiste:

- Mas j se canta em Pietermaritzburg, j l  conhecido. No poderamos cant-lo aqui?

E a velha teima:

- Aqui no  Pietermaritzburg. H muitas outras coisas para aprender na escola.

 que a professora velha anda fria com a nova e sente-se vexada porque no conhece o Nkosi Sikelel' iAfrika.

Sim! Deus salve a frica, a terra adorada! Deus nos salve dos abismos profundos do pecado! Deus nos salve do medo que teme a justia! Deus nos salve do medo que
tem receio dos homens! Deus nos salve a todos!

Grita,  rapazito, com o teu grito prolongado e trmulo que ecoa pelos montes! Dana,  rapazito,

TOs

278

i    Deus Salve a frica.

os teus primeiros, vagarosos passos de dana, que so para ti somente! Grita e dana, inocncia, grita e dana enquanto puderes! Porque  um preldio, porque  somente
um comeo. Coisas estranhas ho-de ser urdidas por gente de que nunca ouviste falar, em lugares que nunca viste!  na vida que vais entrar, vida que no receias
porque a no conheces! Grita e dana, grita e dana! Agora, enquanto podes.

Retiraram-se todos e Kumalo voltou-se para o seu amigo:

- H umas coisas que quero dizer-lhe. Noutro dia lhe direi outras, mas peo que oua o que lhe digo agora. Minha irm Gertrudes estava para vir connosco. Estvamos
todos juntos em casa e prontos para vir, mas quando a fui chamar, de manh, ela tinha fugido.

- Oh! umfundisi.

- E o meu filho foi condenado  forca. Talvez lhe concedam o perdo. Ho-de mandar-mo dizer logo que saibam.

- Oh! umfundisi.

- Pode contar isto aos seus amigos e os seus amigos podem contar aos amigos deles. No so coisas que se possam ocultar e, por isso, pode diz-las.

- Eu lhes direi, umfundisi.

- Eu no sei se ficarei aqui, meu amigo.

- Porqu, umfundisi ?

- Porqu? - disse Kumalo com azedume. - Com uma irm que abandonou o filho, com um filho que matou um homem? Quem sou eu para ficar aqui?

- Umfundisi, faa como entender, mas digo-lhe que no h um s homem ou mulher que o deseje.  279
No h homem ou mulher que no tenha sofrido consigo e que no esteja contente por o ver de volta. Pois qu! No viu isso? No sentiu isso?

- Vi-o e senti-o.  alguma coisa, depois de tudo que tenho sofrido. Meu amigo, no  meu desejo ir-me daqui. Esta  a minha terra; vivo nela h tanto tempo que no
tenho desejo algum de a deixar.

- Ainda   bem,   umfundisi.   C   por   mim,   no tenho desejo algum de que parta. Porque eu estava nas trevas...

- Sensibiliza-me, meu amigo.

- Umfundisi, soube alguma coisa da filha de Sibeko? Lembra-se?

- Sim, bem me lembro. Tambm essa fugiu. Para onde, ningum sabe. Disseram-me que no sabiam.

Foi tomado de um sbito azedume e acrescentou:

- Disseram-me tambm que no queriam saber.

- Oh, umfundisi.

- Lamento muito, meu amigo.

-O mundo est cheio de desgraas, umfundisi.

- Quem melhor o sabe que eu?

- Contudo, o senhor cr.

Rumalo olhou para ele, sob a luz do lampio, e disse:

- Eu creio, mas aprendi que isso  um segredo. A dor e a aflio so segredos; a bondade e o amor so segredos. Sim, foi-me ensinado que a bondade e o amor resgatam
a dor e a aflio. Tenho a minha mulher, tenho-o a si, meu amigo, tenho essa gente que to bem me acolheu, essa criana que est ansiosa por viver connosco aqui,
em Ndoteheni... Por isso, na minha dor, eu creio.

- Nunca pensei que um cristo pudesse liber-
280 tar-se da dor, umfundisi. Porque Nosso Senhor sofreu. E sou levado a crer que Ele sofreu no para nos libertar do sofrimento, mas para nos ensinar a suport-lo.
Porque Ele sabia que no h vida sem sofrimento.

Kumalo olhou para o amigo com alegria.

- O senhor  um pregador.

O outro estendeu-lhe as mos grosseiras e calejadas.

- Acha que pareo um pregador? Kumalo sorriu.

- Eu olho-lhe para o corao, no para as mos. Muito obrigado pela sua ajuda, meu amigo.

- Estou sempre ao seu dispor, umfundisi. Fique em bem.

- V em bem, meu amigo. Mas que caminho vai tomar?

O homem suspirou.

- vou passar por casa de Sibeko. Prometi-lhe ir l logo que soubesse alguma coisa.

Kumalo dirigiu-se lentamente para a pequenina casa. Mas voltou-se de sbito e chamou o amigo:

- Quero dar-lhe uma explicao. Foi a filha do Sr. Smith quem disse que no sabia e que no queria saber. Disse isto em ingls. E quando o Sr. Jarvis mo transmitiu
em zulu, s me disse que ela no sabia, no disse que ela no queria saber.

- Compreendo, umfundisi.

- V em bem, meu amigo.

- Fique em bem, umfundisi.

Kumalo voltou-se de novo e entrou em casa, onde sua mulher e a rapariga estavam a comer.

- Onde est o menino?

- A dormir,  Stephen.  Estiveste a falar muito tempo. 28i
- Sim, tinha muitas coisas a dizer.

- Apagaste o lampio?

- Deixa-o estar aceso mais um bocadinho.

- Tem assim tanto dinheiro a igreja? Ele sorriu-lhe e disse:

- Hoje  uma noite especial.

Ela enrugou a testa com desgosto e ele  compreendeu-lhe o pensamento.

- vou apag-lo - disse.

- Deixa-o estar aceso um bocadinho, at acabares de comer.

- Est bem - concordou ele. - Deixemo-lo estar aceso pelo que aconteceu aqui e apaguemo-lo pelo que aconteceu fora daqui.

Ps a mo na cabea da rapariga e perguntou-lhe:

- Comeste bem, minha filha? Ela olhou-o, sorrindo:

- Estou satisfeita.

- Ento, cama, minha filha.

- Sim, pai.

E, levantando-se da cadeira, despediu-se:

- Durma bem, pai; durma bem, me.

- vou mostrar-te o teu quarto, minha filha. Quando a mulher voltou, Kumalo examinava a

caderneta dos depsitos dos Correios.

- Toma a caderneta; tem muito dinheiro, mais do que tu ou eu jamais tivemos.

Ela abriu-a e deu um grito quando viu a quantia,

-  nosso? - exclamou.

-  nosso; foi um presente do melhor homem que at agora encontrei na vida.

- Tens de comprar roupa nova. Um fato novo,
282 colarinhos novos,  um chapu novo...

     - E tu tens de comprar tambm roupa nova para
ti e um fogo. Senta-te, que te quero falar de Msi-
jmangu e doutras coisas.

|    Ela sentou-se a tremer e balbuciou:

|   - Estou pronta a ouvir-te.

31

 Kumalo comeou a orar com regularidade na sua igreja pela restaurao de Ndotsheni. Mas ele sabia que isso no era suficiente. Era preciso que em qualquer parte,
na terra, se juntassem outros homens que pensassem juntos, agissem juntos. E lanando a vista pelos montes da regio, verificou que s dois homens podiam servir:
o chefe e o delegado escolar.

O chefe actual era um homem corpulento, que usava cales de montar e um barrete de pele igual aos que se usam nos climas frios e que se fazia acompanhar de um squito
de conselheiros, embora fosse difcil de imaginar o que eles poderiam aconselhar.

O delegado escolar era um homenzinho sorridente, com uns enormes culos redondos, que tinha o seu gabinete cheio de cartazes vermelhos, azuis e verdes. Por razes
de diplomacia, Kumalo decidiu ver primeiro o chefe.

Embora fosse ainda manh, o calor era j difcil de suportar. No cu sem nuvens no se via sinal de chuva. Nunca houvera tamanha seca na regio e os homens mais
velhos da tribo no se lembravam de calamidade igual. As folhas das rvores caam como se fosse Inverno, as crianas descalas corriam de sombra para sombra, tal
era o calor escaldante do cho. A erva pisada estalava como sucede depois de
 283
um incndio e em todo o vale no havia um s regato onde a gua corresse. At nos stios altos a erva estava amarela e em parte alguma se via lavrar os campos. O
sol dardejava dum cu impiedoso e o gado, esqueltico, vagueava sem cessar pela campina, procurando os regatos ressequidos, onde ripava os restos da erva j cortada.

Kumalo subiu o monte at  morada do chefe, onde lhe disseram que esperasse. No se admirou, pois um chefe, exactamente por o ser, pode <dizer aos outros homens
que esperem. Pode o chefe estar ocupado somente a palitar os dentes ou a olhar indolentemente para a paisagem, mas, desde que  chefe, tem autoridade para mandar
esperar. Mas Kumalo aproveitou a oportunidade para descansar um pouco. Tirou o casaco, sentou-se  sombra de uma cabana e ps-se a matutar na significao de ser
chefe. Pois quem quereria ser chefe nesta desolao?

Foram os Brancos que fizeram aquilo, que derrubaram estes chefes, que os levantaram de novo, para que eles mantivessem unido o que havia sido despedaado. Mas os
Brancos haviam levado com eles alguns dos pedaos mais importantes e alguns chefes ali estavam com olhos arrogantes e injectados de sangue, senhores de reinos mesquinhos
que nada significavam. No eram todos assim; alguns havia que se esforavam por ajudar o povo e que mandavam os filhos a escolas. A estes, por sua vez, o Governo
procurava prestar auxlio. Mas isto  como alimentar um velho a leite na esperana de que ele volte a ser menino.

Kumalo voltou a si em sobressalto e compreendeu

quanto tinha viajado desde a sua partida para Johan-
284  nesburg. A grande cidade abrira-lhe os olhos para
alguma coisa que tinha comeado e que devia agora ser continuada. Porque a, em Johannesburg, alguma coisa estava acontecendo que nada tinha que ver com qualquer
chefe. Mas ps-se rapidamente de p, porque o chamaram  presena do senhor da tribo.

Apresentou os seus cumprimentos, nos quais ps todo o respeito de que foi capaz, pois sabia que um chefe tem o ouvido sensvel para essas coisas.

- E que deseja, umfundisi?

- Inkosi, eu estive em Johannesburg.

- Sim, tive conhecimento disso.

- H l muitos dos nossos, inkosi.

- Sim, eu sei.

- E eu pensei, inkosi, que devamos conservar aqui no vale alguns deles.

- Ah! E como havamos de fazer isso?

- Cuidando  das nossas terras enquanto no  demasiadamente tarde.  Ensinando-os,  na escola,  a tratar da terra. E, assim, alguns, pelo menos, ficariam em Ndotsheni.

O chefe quedou-se silencioso, mergulhado nos seus pensamentos, e no  costume incomodar um chefe nestas circunstncias. Mas Kumalo percebia que ele no sabia o
que havia de dizer. Por mais de uma vez fez meno de falar, mas nada disse. Estava, por certo, naquela situao da pessoa a quem se dizem coisas srias, coisas
que j tinha perguntado a si prprio sem ter encontrado uma resposta. Por fim, falou e disse:

- J pensei muitas vezes nessas graves coisas.

- Sim, inkosi.

- E tenho pensado no que  preciso fazer.

- Sim, inkosi.

- Por isso muito me agrada saber que tambm
o senhor tem pensado nelas.
E, aps isto, novo silncio, durante o qual Kumalo via que o chefe lutava com as suas prprias palavras.

- Deve   saber,   umfundisi,   que   ns  ensinamos essas coisas na escola h bastantes anos. Eu e o inspector   branco   temos   falado   vrias   vezes   desse
assunto.

- Eu sei, inkosi.

- O inspector deve voltar em breve e ns abordaremos o assunto uma vez mais.

O chefe pronunciou as ltimas palavras num tom cheio de esperanas e optimista, falando como se os dois tivessem levado o assunto a uma feliz soluo.

Kumalo compreendeu que a entrevista estava prestes a terminar e, embora soubesse que no era muito prprio, chamou a si toda a coragem para prosseguir num tom que
significava ter ainda mais para dizer:

- Inkosi!

- Diga.

- Sim, inkosi,  verdade que se tm ensinado essas coisas durante anos. No entanto,  uma tristeza contemplar a terra onde isso se ensina. Nem erva nem gua l h.
E, quando vem a chuva, o milho no atinge sequer a altura de um homem. O gado morre e no h leite. O filho de Malusi morreu e o filho de Kuluse est a morrer. E
quantos mais morrero, s Tixo o sabe.

E Kumalo reconheceu que tinha dito uma coisa dura e amarga, que tinha destrudo a esperana e o optimismo e que por isso o assunto j no estava prximo de uma feliz
soluo. Na verdade, o chefe podia ter-se encolerizado, no porque estas coisas no fossem verdadeiras, mas porque Kumalo no o
286
 deixara pr termo  entrevista.

-  a seca, umfundisi; no se esquea de que  devido  seca.

- No esqueo isso - tornou o outro respeitosamente. - Mas, com seca ou sem ela, tem sido sempre a mesma coisa h muitos anos.

De novo o chefe ficou calado, sem palavras para dizer.

Sem dvida, tambm ele pensava que podia ter-se zangado e pr termo  conversa. Mas no era fcil fazer isso com um padre.

Por fim falou, embora com relutncia:

- Eu falarei com o curador dos indgenas. E acrescentou com energia:

- Porque tambm eu j tinha visto essas coisas que o senhor v.

Ficou-se por momentos perdido nos seus pensamentos e disse com dificuldade:

- Eu j falei nisso, h tempos, ao curador.

E   quedou-se,   embaraado,   de   testa   franzida.

Kumalo compreendeu que o outro nada mais diria e agitou-se ligeiramente para indicar ao chefe que estava pronto a retirar-se. Ao mesmo tempo mirava os conselheiros,
que, de p atrs do chefe, se mostravam embaraados e de testa franzida, como que desapontados por no lhes ocorrer conselho para a questo em debate. Sim, porque
os conselheiros de uma tribo despedaada tm sempre conselho para dar em muitos assuntos, mas no para o caso da tribo destruda.

O chefe ergueu-se, enfadado, e estendeu a mo ao padre.

- Eu falarei ao curador. V em bem, umfundisi.

- Fique em bem, inkosi.

Kumalo desceu o monte e s parou na igreja,
onde rezou pelo chefe e pela restaurao de Ndotsheni. O edifcio, de madeira e lata, era como um forno, O seu esprito deprimido, quebrantado por esse calor mortal,
via ruir toda a esperana. Por isso as suas preces foram breves: "Nas Tuas mos, Senhor, eu deponho Ndotsheni." Depois saiu novamente para o sol ardente, em procura
do delegado escolar.

Ali, todavia, no teve melhor xito. O delegado, polido e obsequioso por detrs dos grandes culos, mostrou-lhe vrios papis, a que chamou esquemas de trabalho,
desenhos de flores e de sementes e diferentes espcies de terra em tubos de vidro. Explicou-lhe que as escolas procuravam relacionar a vida das crianas com a vida
da comunidade e mostrou-lhe circulares da Direco de Pietermaritzburg, todas sobre este assunto. Levou Kumalo para fora, para o sol causticante, e mostrou-lhe os
jardins da escola, mas a lio era especiosa, porque no havia gua e tudo tinha morrido. Ou talvez nem sequer fosse especiosa, porque tudo em volta, no vale, tinha
tambm morrido; at as crianas morriam.

Kumalo perguntou ao delegado como podiam algumas das crianas ser retidas em Ndotsheni. O professor abanou a cabea e falou de causas econmicas e do pouco poder
que a escola tinha. E, assim, regressou Kumalo  sua igreja, desanimado e sucumbido. Onde estava a extraordinria viso que tivera em Ezenzeleni, a viso nascida
de uma grande dor? Como poderia um padre fazer da sua freguesia um verdadeiro lugar para a sua gente viver e para preparar o futuro das crianas? Estaria ele efectivamente
velho e gasto? Ou seria essa viso um engano, uma viso irrealizvel? Nenhum poder, seno
288
 o de Deus, podia realizar esse milagre, e ento ele

implorou de novo: "Nas Tuas mos, Senhor, eu deponho Ndotsheni."

Entrou em casa, onde, a despeito do calor sufocante, se ps a analisar as contas da igreja, at que ouviu o tropel dum cavalo, que pouco depois parou junto de casa.
Levantou-se da cadeira e saiu a ver quem se arriscava a andar a cavalo sob um sol to impiedoso. E, por um momento, ficou atnito, com a respirao suspensa, porque
o cavaleiro era um rapazinho branco montado num cavalo avermelhado, um rapazinho parecido com outro que costumava tambm passar ali a cavalo, em tempos idos.

O rapazinho sorriu a Kumalo e, tirando o barrete, disse:

- bom dia.

E Kumalo sentiu uma estranha vaidade ao ver tal atitude, uma estranha humildade ao ver-se assim tratado e um assombro enorme por o rapazinho no conhecer o costume.

- bom   dia,  inkosana - respondeu. - Est   um dia quente de mais para andar a cavalo.

- No acho que esteja quente.   esta a sua igreja?

- Sim,  esta.

- Eu ando numa escola de religiosos, a Escola de So Marcos.  a melhor escola de Johannesburg. Temos l capela.

- So Marcos?-exclamou Kumalo.-Esta igreja  tambm de So Marcos; mas a sua capela... sem dvida que  melhor que esta?

- Sim...  melhor-disse o rapaz, sorrindo.- Mas  na cidade, compreende. Esta  a sua casa?

- , sim.



283
- Posso v-la por dentro? Nunca estive em casa dum padre. Dum padre indgena, quero dizer.

- D-me muito prazer, inkosana.

O rapazinho deixou-se escorregar do cavalo e prendeu-o  viga onde era uso prender as montadas dos que vinham  igreja. Limpou as botas, esfregando-as na esteira
j puda  porta de Kumalo, e, tirando o chapu, entrou.

-    uma  bonita   casa - disse. - No  julgava que fosse to bonita.

- Nem todas as casas da nossa gente so assim
- disse Kumalo com brandura. - Mas um padre tem obrigao de possuir uma casa decente. J viu, por acaso, algumas outras casas da nossa gente?

- Sim, j, na quinta do av. No so to bonitas como esta. Estava a trabalhar na mesa?

- Estava, sim, inkosana.

- Parece aritmtica.

-  aritmtica; so as contas da igreja.

- No sabia que as igrejas tinham contas. Julgava que eram s as lojas.

E Kumalo ps-se a rir. Riu-se uma vez e continuou a rir-se, de sorte que o rapazito perguntou:

- De que se ri ?

Mas ele prprio ria tambm e no se mostrou ofendido.

- Rio-me por rir, inkosana.

- Inkosana? Quer dizer senhor pequeno, no ?

- , sim: senhor pequeno, pequeno chefe.

- Sim, bem sei. E como o tratam a si? Como lhe hei-de chamar?

- Umfundisi.

- Ah! Imfundisi.
290       - No. Umfundisi.

- Umfundisi. Que significa?

- Significa padre.

- Posso sentar-me, umfundisi?

E o rapazinho pronunciou a ltima palavra com cuidado e, logo em seguida, perguntou:

- Est bem dito assim? Kumalo reprimiu o riso.

- Muito bem dito. Quer um copo de gua? Deve ter calor.

- Eu preferia um copo de leite. Bem frio, da geladeira.

     - Inkosana, no h geladeiras em Ndotsheni.      O rapazinho corou e disse:

|    - Sim, um copo de gua, umfundisi.

    Kumalo trouxe-lhe a gua e, enquanto ele bebia,

perguntou-lhe:

- Quanto tempo se demora por c, inkosana?

- Desta vez pouco tempo, umfundisi. Bebeu mais uns goles e acrescentou:

- Agora no so frias;  viemos para c por razes especiais.

i     Kumalo, de p, contemplando-o, sentiu o corao gritar: " desamparada criana, bem sei que razes

po!"

I;    - gua  amanzi, umfundisi.

    E, como Kumalo no respondesse, chamou:
- Umfundisi!
- Meu menino!

- gua  amanzi, umfundisi. Kumalo voltou a si, sorriu  expresso interessada do rapazinho e disse:

- Exactamente, inkosana.
 291
- E cavalo  ihashi. ]

- Sim, senhor.

- E casa  ikaya.

- Exacto.

- E dinheiro  imali.

- Exacto.

- E rapaz  umfana.

- Muito bem.

- E vaca  inkomo.  Kumalo ria s gargalhadas. i

- Espere, espere um pouco, deixe-me respirar.    E fingiu ofegar, sentou-se numa cadeira e enxugou a fronte.

- O menino dentro em pouco fala zulu.

- O zulu  fcil. Que horas so, umfundisi?

- " meio-dia, inkosana.

- Valha-me Deus! Tenho de me ir embora. Muito obrigado pela gua, umfundisi.

O rapazito saiu e desprendeu o cavalo.

- Ajude-me a montar - pediu.

Kumalo ajudou-o a subir para a sela e o rapazito disse-lhe:

- Hei-de vir v-lo de novo, umfundisi, e falar

mais zulu consigo. Kumalo sorriu.

-  sempre bem-vindo. "

- Umfundisi!

- Inkosana!

- Porque  que no h leite em Ndotsheni? 

porque o povo  pobre?

- , sim, inkosana.

- E que fazem as crianas? Kumalo olhou-o e respondeu:

- Morrem, meu menino. Agora mesmo esto a
292  morrer algumas.

- Quem  que est a morrer?

- A pequenita do Kuluse.

- No veio c o mdico ?

- Sim, o mdico veio c.

- E que disse ele?

- Disse que a criana precisava de leite, inko-
Isana.
- E que disseram os pais ?
- Disseram-lhe: "Sr. Doutor, isso  o que toda a gente nos diz."

E o rapazito disse em voz baixa:

- Compreendo.

;   Depois tirou o barrete e disse gravemente:

- Passe bem, umfundisi.

Retirou-se com igual gravidade, mas havia espectadores ao longo do caminho e em breve ele galopa furiosamente pela estrada poeirenta e escalite.

A noite trouxe frescura e alvio. Quando Kumalo, lulher, a rapariga e o rapazito ceavam, ouviram om rudu de um carro e algum a bater  porta. Era o igo que ajudara
a levar a bagagem do padre.
- Umfundisi. Me.
- Meu amigo, quer comer?
- No, senhor. vou de caminho para casa. Trago recado para si.
- Para mim ?
- Sim, do Sr. Jarvis. O rapazinho branco no e v hoje aqui? Kumalo sentiu uma sombria vaga de medo, conemerando pela primeira vez o que tinha sucedido. - Sim, esteve
aqui.
 293
294

- Ns estvamos a trabalhar na mata - explicou o outro - quando o menino chegou a cavalo. Eu no entendo o ingls, umfundisi, mas ele e o av estiveram a falar da
filha do Kuluse. E agora venha ver o que eu trouxe para si.

L fora, junto da porta, estava o leite em vazilhas de lata muito brilhantes.

- Este leite - disse o homem com nfase -  s para as criancinhas, para as que ainda no vo  escola. E  para ser distribudo s pelo senhor. E estes sacos so
para pr em cima das vasilhas e deve mandar os garotos buscar gua e entorn-la por cima. Todas as manhs passo por aqui a buscar as vasilhas. E isto continua at
que venha a erva e haja leite aqui outra vez.

O homem pegou nas vasilhas e disse:

- Onde quer que ponha isto, umfundisi ?

Mas Kumalo estava mudo de espanto e foi a mulher quem disse:

- Vamos p-las no quarto que o umfundisi tem na igreja.

Ali as arrumaram e, quando voltaram, o homem perguntou:

- Naturalmente tem algum recado a mandar ao Sr. Jarvis, umfundisi?

Kumalo, tartamudeando, sem conseguir pronunciar uma palavra, levantou a mo e apontou para o Cu.

O homem traduziu:

- Tixo o abenoe!

E Kumalo abanou afirmativamente a cabea.

- S ainda l trabalho h uma semana - exclamou o outro-, mas se ele me disser: "Vai deitar-te a um poo", eu vou.

Subiu para o carro e empunhou as rdeas, mas estava entusiasmado e disposto a tagarelar.

- Quando chegar a casa de carro, a minha mulher h-de pensar que me fizeram juiz.

Riram-se todos e at Kumalo quebrou a mudez e se riu com eles, em parte pela ideia de um homem to humilde ser feito juiz, em parte pela ideia de ver um juiz em
to extraordinria carruagem. E riu-se por um homem daquela idade brincar assim, riu-se porque a filha do Kuluse podia viver, riu-se, enternecido, ao lembrar-se
do homem severo e de poucas falas da Quinta do Stio Alto. Entrou em casa cansado de tanto rir e a mulher olhou-o de olhos muito abertos.

32

Um garoto trouxe as quatro cartas da loja para a escola e o professor mandou-as a casa do umfundisi. Vinham todas de Johannesburg: uma de Absalo para a mulher e
outra para os pais, ambas com o timbre de "Servio de Sua Majestade", da priso de Pretria; a terceira era de Msimangu e a quarta do advogado Carmichael. Foi esta
que Kumalo abriu primeiro, tremendo de medo, pois vinha do advogado que tratara do caso por amor de Deus e devia dizer alguma coisa acerca do perdo.

E o advogado dizia, "em palavras repassadas de pesar e de tristeza, que fora negada a graa e que o filho seria executado no dia 15 desse mesmo ms. Por isso ele
no leu mais e deixou-se ficar imobilizado por uma longa hora, duas talvez. No viu nem ouviu nada at que a mulher se abeirou dele e lhe disse:

- Ento  certo, Stephen?
 295
Ele acenou a cabea e ela pediu:

- D-me a carta, Stephen,

Com as mos trmulas, ele entregou-lha e ela leu-a tambm e ficou a olhar no vcuo, com olhos terrveis, pois este era o filho do seu ventre e do seu peito. Mas
ela no se quedou imvel tanto tempo como ele, pois, aps alguns momentos, levantou-se e disse:

- Ficar assim parado nada remedeia. Acaba de ler as tuas cartas e vai ver a filha do Kuluse e aquela pequena, a Isabel, que est doente, que eu fico a dar as voltas
da casa.

- Est aqui outra carta - disse ele.

- De quem? Dele?

- Sim, dele.

Deu-lha, ela sentou-se de novo, abrindo-a com todo o cuidado, e ps-se a l-la. Nos olhos, na face, nas mos dela, percebia-se quanto sofria, mas ele no deu por
isso, pois tinha os olhos fixos no cho, sem nada ver, as feies marcadas pela mscara de sofrimento que abandonara ao voltar ao vale, de regresso de Johannesburg.

- Stephen - disse ela vivamente. Ele olhou para ela.

- L-a e acaba com isso - exclamou a mulher. Depois tratemos de fazer as nossas obrigaes.

Ele pegou na carta e leu. Era curta e singela e, salvo a primeira linha, vinha escrita em zulu, conforme o costume.

296

{ Queridos pais:

| Desejo que estejam de sade, que eu fico

 bem. Disseram-me esta manh que no me

: deram perdo por aquilo que fiz. Por isso
, nunca mais voltarei a v-los nem a Ndotsheni.
 Eu aqui no estou mal. Estou fechado e ningum pode falar comigo, mas posso fumar,
 ler e escrever cartas e os brancos no me tratam mal. Costuma c vir um padre para me
 ver, um padre preto de Pretria. Anda a preparar-me e tem boas palavras para mim. No tenho mais novidades, por isso vou terminar  esta carta. Penso muito em todos
e, se pudesse voltar para Ndotsheni, nunca mais da
|. saa. Vosso filho

Absalo

 J nasceu o menino? Se for um rapaz, gostaria que se chamasse Pedro. Souberam do
 caso do Mateus e do Joo? Fui testemunha no
 tribunal, mas no me deixaram ver o fim do
 julgamento. Meu pai, recebeu o dinheiro que
 eu tinha depositado nos Correios?

     --Vamos agora ao trabalho, Stephen?

- Sim,  melhor. Mas ainda no li a carta de
Msimangu e tambm aqui est uma para a nossa
filha.

     - Eu entrego-lha. L a tua, ento. E dize-me uma coisa: vais ou no a casa do Euluse?     -vou l, sim.

-   - no te importas de passar pela loja?      Ele olhou pela janela e exclamou:     -Olha, nuvens!
 297
Ela aproximou-se dele e ps-se a ver as nuvens negras que se amontoavam do outro lado do vale do Umzimkulu.

- Vai  chover - disse ele. - Queres  ento  que v  loja? Precisas de alguma coisa com urgncia?

- No preciso de nada, Stephen, mas pensei que podias ir  loja e pedir ao branco que, quando viessem essas cartas da priso com os  dizeres  "Servio de Sua Majestade",
as guardasse at irmos por elas. Para nossa vergonha, j  bastante.

- Sim, sim, tens razo. L irei.

- L ento a tua carta.

Kumalo abriu a carta de Msimangu, que lhe relatava os acontecimentos de Johannesburg, e ficou espantado ao sentir dentro de si uma vaga nostalgia pela grande e babilnica
cidade. Quando acabou, saiu a ver as nuvens, pois era um espectculo emocionante depois de semanas de sol impiedoso. J uma ou duas lhe passavam por cima da cabea,
lanando grandes manchas de sombra sobre o vale, movendo-se vagarosamente, mas sem pararem, na direco das vertentes, ultrapassando-as depois numa rpida corrida.
No corria ar e em breve ribombaria o trovo por todo o Umzimkulu. No havia dvida alguma de que o malefcio da seca seria hoje quebrado.

Ali permanecia quando viu vir um automvel descendo a estrada de Carisbrooke para o vale, acontecimento raro na aldeia. Vinha devagar, porque a estrada no fora
feita para automveis, mas para carroas e carros de bois. Viu tambm que junto  igreja estava um branco montado num cavalo. Devia estar  espera do automvel e,
um tanto surpreendido, Kumalo reconheceu Jarvis no cavaleiro.
298
 Desceu um branco do carro, no qual, com surpresa
maior, reconheceu o juiz-curador. E logo lhe veio ao esprito o gracejo da noite anterior. Jarvis apeou-se do cavalo e apertou a mo do curador e dos outros brancos
que saam do carro, trazendo estacas e bandeiras. Em seguida -  Cus! -, do lado oposto, aproximou-se a cavalo o corpulento chefe, com o barrete 3e pele e os cales
de montar, rodeado dos seus conselheiros. O chefe cumprimentou o juiz-curador, o juiz cumprimentou o chefe e outros cumprimentos se trocaram. Depois puseram-se todos
a conversar, sendo evidente que tinham combinado reunir-se ali com qualquer objectivo. Apontavam com as mos para lugares distantes e para as proximidades. Um dos
conselheiros cortou um arbusto de ramos direitos, que limpou das folhas, e em seguida cortou os ramos  mesma medida, aguando-os numa das extremidades, o que aumentou
o espanto de Kumalo. Os brancos tiraram do carro mais estacas e bandeiras e um deles colocou num trip uma caixa, como se fosse tirar uma fotografia. Jarvis pegou
nalgumas estacas e bandeiras, o mesmo fazendo o juiz, depois de tirar o casaco por causa do calor. Entretanto apontaram para as nuvens e at Kumalo veio a voz de
Jarvis:

- At que enfim, parece que  certo.

O chefe, no querendo ser diminudo pelos brancos, desceu do cavalo e pegou tambm em estacas, mas Kumalo via que ele no sabia bem o que devia fazer delas. Jarvis,
que parecia ser o dirigente, espetou uma das estacas no cho; o chefe deu uma a um dos conselheiros dizendo-lhe qualquer coisa. O conselheiro, por sua vez, espetou-a
no cho, mas o branco que manejava a caixa do trip gritou-lhe:

- A, no! A, no! Tire da a estaca!

299


O conselheiro ficou perplexo, olhando hesitante para o chefe, que disse, furioso:

- A, no! A, no! Tira isso da!

Depois o chefe, confundido, cada vez sabendo menos o que havia de fazer, voltou a montar no cavalo e ficou-se a ver os brancos a espetarem as estacas.

Passada uma hora, era quase um arraial de estacas e bandeiras, o que levou Kumalo ao cmulo da perplexidade. Jarvis e o juiz discutiam e apontavam para os montes
e depois para o vale. Depois comearam a falar para o chefe, ao lado do qual permaneciam os conselheiros, ouvindo gravemente a conversa. E Kumalo ouviu Jarvis dizer
para o juiz-curador:

- Isso  muito tempo.

E o outro encolheu os ombros, retorquindo:

-  a nica maneira de fazer as coisas. E Jarvis disse:

- Irei a Pretria; no se importa, pois no?

- No me importo nada; talvez seja o melhor processo de o conseguir.

E Jarvis tornou:

- Aprecio muito a sua companhia, mas, se quer chegar a casa enxuto,  melhor ir andando. Vem a uma grande trovoada.

Mas ele mesmo no seguiu o conselho dado, pois despediu-se do juiz e ps-se a caminhar atravs dos campos nus, medindo distncias s passadas. E at Kumalo chegou
um comentrio do juiz, que falava para um branco:

- Dizem que no est bom da cabea; pelo que ouvi, em breve estar sem vintm.

300
        Depois, dirigindo-se ao chefe, recomendou:

- Peo-lhe que d as suas ordens para que no mexam em nenhuma estaca.

E, cumprimentando o chefe, meteu-se no carro com os outros brancos e partiram em direco ao monte.

O chefe disse ento aos conselheiros:

- Dem ordem para que ningum toque nas estacas.

Os conselheiros viraram os cavalos em direces opostas para cumprirem a ordem e o chefe fez trotar o seu cavalo, passando junto da igreja e retribuindo o cumprimento
de Kumalo, mas sem se dignar parar para lhe explicar o significado das estacas.

Era efectivamente certo o que Jarvis dissera. Aquela trovoada no seria uma trovoada vulgar. Escurecera profundamente e j no havia sombras a moverem-se pelo vale;
todo o vale era uma s mancha escura. Do outro lado do Umzimkulu o trovo rugia continuamente e, de vez em quando, o relmpago feria os montes mais longnquos. Mas
era por isto que todos ansiavam, porque, enfim, era a chuva. Mulheres corriam pelos caminhos e da escola vinha o som do tropel das crianas a sarem, ouvindo-se
o delegado e os restantes professores gritarem:

- Vo depressa, no se demorem pelo caminho. Era digna de se ver uma trovoada como esta.

Uma grande massa de negras e pesadas nuvens movia-se sobre o Umzimkulu. Kumalo deteve-se a observ-las e viu sair delas um relmpago que feriu a terra, seguido dum
estrondoso trovo. No vale de Ndotsheni levantou-se a ventania e nuvens de p redemoinhavam nos campos e ao longo dos caminhos. A escurido acentuava-se e em breve
os montes alm do Umzimkulu seriam batidos pela chuva. Viu Jarvis
 301
 caminhar apressado para o cavalo, que se agitava junto do muro onde estava preso. Viu-o, em movimentos rpidos, prprios de quem est muito acostumado a faz-lo,
desaparelhar o cavalo, ao qual falou para o aquietar, deixando-o solto. Depois caminhou com rapidez na direco de Kumalo e disse-lhe em voz alta:

- Umfundisi!

- Umnumzana!

- D-me licena que ponha estas coisas no seu ptio e que entre na igreja?

- Com certeza! Eu vou consigo, umnumzana.

E, mal entraram na igreja, ouviram o ribombar dum enorme trovo e o rudo da chuva nos campos. Momentos depois o aguaceiro rufava no telhado de lata com tal fragor
que impossibilitava qualquer conversa. Kumalo acendeu uma lanterna e Jarvis sentou-se num banco, ficando ambos imveis e silenciosos. Mas no tardou que a chuva
penetrasse pelos buracos do telhado ferrugento, obrigando Jarvis a mudar de lugar.

Kumalo, nervoso, gritou-lhe como a desculpar-se:

- O tecto deixa passar gua. E Jarvis gritou tambm:

- Estou a ver isso.

E de novo a chuva escorreu do tecto e lhe caiu em cima, obrigando-o a mudar-se mais uma vez e a procurar, na semiescurido, novo lugar, apalpando os bancos com a
mo. Mas era difcil arranjar um stio seco, pois nos stios onde os bancos no estavam molhados pela chuva que caa de cima estava o cho alagado pela gua que
corria da porta.

- O tecto est roto em muitos stios - gritou
302 Kumalo.

- Tambm j vi isso - bradou o outro.

Por fim, Jarvis encontrou um lugar onde a gua caa menos. Kumalo encontrou outro e os dois quedaram-se em silncio. L fora, porm, no havia silncio; o rugido
do trovo e o estrondoso bater da chuva no telhado continuavam.

E assim estiveram por longo tempo, at perceberem pelo rudo dos regatos, que voltavam  vida, que a trovoada amainava. De facto os troves eram mais longnquos,
uma dbil claridade iluminou a igreja e a chuva batia mais branda no telhado.

E tinha quase acabado quando Jarvis se levantou e se aproximou de Kumalo. Junto dele, mas sem o encarar, perguntou:

- Concederam-lhe a comutao da pena?

O velho tirou a carta da carteira, com as mos trmulas, tremor devido em parte  sua pena, em parte ao facto inexplicvel de ficar sempre nervoso quando encontrava
Jarvis.

Este pegou na carta e desviou-se um pouco para aproveitar melhor a claridade baa que vinha de fora. Depois meteu-a no sobrescrito e devolveu-a a Kumalo.

- No compreendo nada dessas coisas - disse, por  fim - mas  compreendo  perfeitamente  todo o resto.

-  bom da sua parte, umnumzana.

Jarvis ficou calado por um pouco, olhando para o altar e para a cruz que o encimava.

- Quando o dia quinze chegar, eu me lembrarei. Fique em bem, umfundisi.

Mas Kumalo no correspondeu  despedida nem se ofereceu para ajudar a levar os arreios do cavalo, nem sequer pensou em agradecer o leite, ou lhe ocor-
 303
ru perguntar o que significava a cena das estacas. Quando se levantou e saiu, Jarvis tinha desaparecido. Chovia ainda, uma chuva mida, e o vale ressoava com o
rudo dos ribeiros e dos riachos, vermelhos com o sangue da terra.



Nessa tarde,  luz vermelho-plida do pr do sol, toda a gente saiu para ver as estacas, mas ningum sabia para que serviam. Os garotos fingiam arranc-las, agarrando-as
junto  terra e revirando os olhos como quem faz um esforo enorme. As pequenitas miravam-nas, meio divertidas, meio apreensivas. A brincadeira continuou sem consequncias,
at que o pequeno mais novo de Dazuma arrancou uma involuntariamente e ficou petrificado, atemorizado pelo que tinha feito. Um grande silncio se fez em volta. Os
garotos olhavam receosos para os adultos e as pequenitas corriam para as mes, umas chorando, outras rindo, com um riso assustado, outras dizendo: "Eu bem te avisei,
eu bem te avisei." O pequeno infractor foi levado pela me, que o sacudia pelo brao e lhe dizia: "S me ds desgostos, s me ds vergonhas." Mas os homens que se
encontravam no vale puseram-se a pesquisar o cho e um deles disse: "Aqui est o buraco." Colocaram l a estaca e, de joelhos, bateram a terra em volta para dar
ideia de que ningum lhe tinha mexido. Mas um disse: "No faam isso; o cho est molhado e v-se logo que estiveram a bater a terra." Ento os outros espalharam
erva e seixos para esconder a terra batida. Mas eis que chega o carro com o leite e as mulheres que tinham filhos pequenos correram para a
304 igreja a receber as suas raes.

- Para   que   so   estas   estacas ? - perguntou Kumalo ao seu amigo.

- No sei, umfundisi. Mas amanh hei-de tentar descobrir.

33

As estacas permaneceram dias e dias nos stios onde os brancos as colocaram, mas ningum voltou a aparecer no vale. Corria o boato de que iam ali fazer uma represa,
mas ningum sabia como a encheriam, pois o ribeiro que corre junto da igreja est frequentemente seco e, mesmo quando tem gua, nunca  um grande ribeiro. O amigo
de Kumalo disse-lhe que Jarvis tinha ido para Pretria e era de crer que o assunto que o levara l fosse o das estacas e que estas se relacionavam com a represa.

E assim se passou algum tempo, Kumalo rezando pela restaurao de Ndotsheni e o Sol nascendo e pondo-se na sua eterna regularidade.

A filha do Kuluse estava j boa e Kumalo saa para os arredores a cumprir as suas obrigaes paroquiais. Na escola continuava o trabalho, ensinando-se acerca de
sementes e de plantas, da erva mais apropriada para pastos, do que devia pr-se na terra, do alimento mais conveniente para o gado.

Kumalo sentia-se cada vez mais ansioso pela vinda de Jarvis, para que o povo soubesse o que se planeava; e cada vez mais se convencia de que seria jJarvis, e s
Jarvis, quem faria o grande milagre. ]     A rapariga sentia-se feliz na sua nova casa, pois era, por natureza, obediente e afectiva. O rapazinho brincava com os
outros da mesma idade e tinha perguntado pela me uma ou duas vezes, mas com
 305


o tempo esquec-la-ia. Por Absalo ningum perguntava e, se falavam nele nas cabanas, nem por isso diminua o respeito que tributavam ao velho umfun-
disi.

Um dia chegou, a galope, o rapazinho branco, que tirou o barrete como da outra vez, quando Kumalo se lhe dirigiu a cumpriment-lo. A visita do rapazinho causou ao
velho um grande prazer.

- Venho para falar zulu outra vez - disse o pequeno visitante.

Deixou-se escorregar do cavalo e prendeu as rdeas  viga. Entrou em casa com a gravidade de um homem, limpando os sapatos na esteira e tirando o bon ao transpor
a porta. Sentou-se  mesa e olhou em volta cheio de prazer, de modo que uma pessoa sentia que a sua presena tinha trazido qualquer coisa de luminoso quela casa.

- Esto acabadas as contas, umfundisi?

- Sim, esto acabadas, inkosana.

- Estavam certas?

Kumalo no pde reprimir o riso.

- Sim, estavam certas, mas no so nada boas.

- No so boas, hem? Est pronto para o zulu? Kumalo riu-se de novo e sentou-se na cadeira, do

outro lado da mesa, dizendo:

- Estou pronto para o zulu. Quando  que volta o seu av?

- No sei. Estou morto por tornar a v-lo. Kumalo ia rir-se de novo, mas considerou que

no era motivo para rir. Mas, como o rapazinho desatasse a rir, no se conteve. No se podia deixar de rir ao falar com o pequeno, tanta alegria se expandia
dele. SOB       - Quando regressa a Johannesburg, inkosana

- Quando o av voltar.

E Kumalo disse-lhe ento em zulu:

- Quando o menino se for, alguma coisa de b:lo se vai de Ndotsheni.

- Que disse, umfundisi ?

E, quando Kumalo ia a traduzir em ingls, o pequeno exclamou:

- No, no; diga outra vez em zulu! Kumalo, ento, repetiu a frase em zulu.

- Isso quer dizer:  "Quando se for embora" disse o rapazito. - Diga o resto outra vez.

- Alguma coisa de belo se vai de Ndbtsheni - repetiu Kumalo em zulu.

-  qualquer coisa acerca de Ndotsheni, mas  muito difcil para mim. Diga em ingls, umfundisi.

- Alguma coisa de belo se vai de Ndotsheni - repetiu o velho em ingls.

- Sim, compreendo: quando eu me for embora, alguma coisa de belo se ir de Ndotsheni.



O pequeno sorriu, deleitado, e depois disse em  zulu:       - bondade sua.

Kumalo bateu as palmas com admirao e exclamou:

- Oh! Mas o menino fala bem o zulu!

E o pequeno riu-se de novo, cheio de prazer. A porta abriu-se e a mulher entrou. Kumalo disse ao  rapazinho:

,;      - Esta  minha mulher.

      E  mulher, em zulu:

      - Este  o filho do homem ...

O rapazito levantou-se e fez uma vnia  mulher,
que se ficou a olhar para ele, cheia de medo e de tris-

307
teza. Mas ele, sem dar conta de tal atitude, dirigiu-se-lhe num cumprimento: i

- A senhora tem uma bonita casa.

Ela, sem lhe responder, virou-se para o marido e disse-lhe em zulu:

- Estou fora de mim! No sei o que diga. O rapazito replicou em zulu:

-  bondade sua.

E ela recuou, assustada, mas Kumalo disse-lhe, falando muito depressa:

- Ele no te compreendeu; disse aquilo porque so as nicas palavras que sabe na nossa lngua.

E, virando-se para o rapazinho, bateu de novo as palmas num gesto de admirao e exclamou:

- Oh! Como o menino fala bem zulu!

A mulher, no entanto, dirigiu-se para a porta, que abriu, e desapareceu.

- Est pronto para o zulu, umfundisi?

- Inteiramente s suas ordens.

- rvore  umuti, umfundisi.

- Exacto, inkosana.

- Mas remdio  tambm umuti.

E a criana disse isto com um ar de triunfo e fingida perplexidade, desatando ambos a rir.

-    porque - explicou   cumalo,  j si - os nossos remdios provm na maior parte das rvores. Eis a razo do emprego da mesma palavra.

- Compreendo - disse o rapaz, satisfeito com a explicao. - E caixa  ibokisi.

- Exacto, inkosana.  que ns no temos caixas e, por isso, essa nossa palavra deriva da vossa1.

-' Ah! compreendo. E motocicleta  isitututu.

308

1   Box em ingls.

- Exactamente. Vem do som que as motocicletas fazem: isi-tu-tu-tu. Mas, inkosana, vamos construir uma frase, porque a verdade  que o menino est a dizer-me todas
as palavras que sabe, mas no est a aprender nada novo. Ora como  que diz: Eu vejo um cavalo?

E assim continuou a lio, at que Kumalo disse ao aluno:

-  quase meio-dia; talvez sejam horas de se ir embora.

- Sim, tenho de ir, mas hei-de voltar de novo para o zulu.

- Deve voltar, inkosana. Em breve falar melhor que muitos zulus. Poder falar na escurido sem que algum perceba que no  um zulu.

O rapazinho ficou satisfeitssimo e, quando saram, pediu ao velho:      - Ajude-me a montar.

i Kumalo ajudou-o a subir para o cavalo e o rapazito tirou o barrete a despedir-se e disparou a galope pelo caminho acima. Um automvel subia o caminho. O pequeno
cavaleiro parou o cavalo e gritou :

- O meu av j voltou!

E, esporeando o cavalo, tentou, numa corrida louca, alcanar o automvel.

Junto da igreja estava um homem novo e simptico, de cerca de 25 anos, com os sacos da bagagem no cho, que tirou o chapu e perguntou em ingls:

-  o senhor o umfundisi?

- Sou eu prprio.

- Eu sou o novo prtico agrcola. Tenho aqui os meus papis, umfundisi. 309

310

Entre! Entre! - disse Kumalo, excitado.

Entraram em casa e o mancebo mostrou os papis a Kumalo. Alguns eram de recomendao, passados por padres, inspectores escolares, etc., nos quais se atestava que
o portador, Napoleo Letsitsi, era pessoa de hbitos sbrios e de bom comportamento. Um outro tinha sido passado por uma escola de Transkei, atestando que o mesmo
tinha o diploma de prtico agrcola.

- Muito bem! -disse  Kumalo.- Mas  diga-me uma coisa: porque veio para aqui? Quem o mandou ter comigo?

- Fui mandado pelo branco que me trouxe.

- Pelo Sr. Jarvis, no  verdade?

- No lhe sei o nome, umfundisi, mas  aquele branco que passou aqui agora mesmo.

- Sim,  ele, o Sr. Jarvis. Bem, agora conte-me

tudo.

- Vim para aqui para ensinar os agricultores a cultivar as terras, umfundisi.

- Aqui, em Ndotsheni?

- Sim, umfundisi.

A face de Kumalo iluminou-se, os seus olhos cintilaram.

- O senhor  um anjo enviado por Deus. Levantou-se e ps-se a passear na sala, batendo

com uma mo na outra, enquanto o rapaz o olhava com espanto. E, ao ver a sua estupefaco, deu uma gargalhada e repetiu:

- O senhor  um anjo enviado por Deus. Mas sentou-se novamente e perguntou:

Onde foi que o branco o encontrou?

-Foi a minha casa, em Krugersdorp, onde eu dava lies na escola. Perguntou-me se eu queria
dedicar-me a um grande trabalho e falou-me de Ndotsheni. Fiquei logo com vontade de vir.

- E o seu lugar de professor?

- Eu  no era professor diplomado e por isso no   me  pagavam  grande coisa.   Ora  esse  homem branco disse que o ordenado era de dez libras por ms, e por isso
vim. Mas no vim s por causa do dinheiro; o trabalho da escola no tinha interesse.

Kumalo sentiu feri-lo o espinho da inveja. Nunca, durante os sessenta anos da sua existncia, ganhara dez libras por ms. Mas logo repeliu o mau pensamento.

- O tal senhor perguntou-me se eu falava zulu e eu disse-lhe que no, mas que falava xosa to bem como a minha lngua materna, pois a minha me era de raa xosa.
Ele, ento, disse-me que no importava, pois o xosa  quase como o zulu.

A mulher de Kumalo abriu a porta e avisou:

- So horas de comer. Kumalo disse-lhe em zulu:

- Mulher, este  o Sr. Letsitsi, que veio para c para ensinar a nossa gente a cultivar a terra.

E virando-se para Letsitsi:

- O senhor come connosco.

Entraram para a sala de jantar e a Letsitsi foram apresentados a rapariga e o rapazito. Kumalo fez uma curta orao de graas antes de principiarem e depois perguntou:

- Quando chegou a Pietermaritzburg?

- Hoje de manh, umfundisi. E depois vim de l para aqui no automvel.

- Qual  a sua impresso do homem branco?

-  muito calado, umfundisi, no fala nada.

-  feitio dele. 311
- Parmos na estrada a contemplar um vale e ele perguntou-me:  "Que faria o senhor num vale como este?"  Foram as primeiras palavras que lhe ouvi durante a viagem.

- E o senhor disse-lhe o que faria?

- Disse-lhe, sim, umfundisi.

- E que respondeu ele?

-Nada, umfundisi. Tossiu como se tivesse pigarro e foi tudo.

- E depois?

- No tornou a falar at aqui chegarmos. S ento me disse: "V ter com o umfundisi e pea-lhe que lhe arranje acomodao; diga-lhe que me desculpe por no ir consigo,
mas estou ansioso por chegar a casa."

Kumalo e a mulher trocaram um olhar.

- Os compartimentos aqui so pequenos e a casa  uma casa de padre. Mas o senhor, se quiser, pode c ficar.

- A minha gente  tambm da igreja, umfundisi; terei muito prazer em ficar aqui.

- E que vai ento fazer neste vale? O prtico deu uma gargalhada.

-  o que vou tratar de ver - respondeu.

- Mas que faria o senhor no outro vale? Ento o rapaz explicou-lhes o que faria no outro

vale. Trataria de evitar que os camponeses queimassem o estrume, aconselhando-os a que o enterrassem, tentaria convenc-los a juntar as ervas ms e a destru-las,
em vez de as deixarem secar ao sol, ensin-los-ia a no lavrarem os montes de cima para baixo nem de baixo para cima, dir-lhes-ia que plantassem rvores para lenha,
rvores de crescimento r-
312 pido, como as mimosas, em stios onde no pudessem lavrar, nas ribanceiras escarpadas que marginam os rios, rvores que tambm atenuariam a fora da gua durante
as tempestades. Mas estas coisas eram difceis de fazer, porque o povo tem de aprender que  prejudicial que cada homem tenha de arrancar os meios de subsistncia
s do seu pequeno bocado de terra. Alguns teriam de ceder as terras para arvoredo, outros para pastagens. E o pior de tudo era o costume da lobola, segundo o qual
o homem compra a mulher com gado, pois eles mantinham demasiado nmero de cabeas para esse efeito, estimando em gado a sua riqueza, resultando que no havia possibilidade
de os pastos se desenvolverem.

- E   vai   haver   uma   represa? - perguntou Kumalo.

- Sim, vai haver uma represa para que haja sempre gua para o gado. E a gua da represa sair por uma portinhola e poder regar as terras e as pastagens.

- Mas donde vir essa gua?

- Vem do rio, por um cano; foi o que o homem  branco me disse.

      - Deve ser do rio dele - disse Kumalo. - E todas essas coisas que acaba de dizer podem ser feitas aqui, em Ndotsheni?

- Tenho de ver primeiro o vale - respondeu o outro, rindo-se.

- Mas o senhor atravessou-o quando veio - disse Kumalo vivamente

- Sim, vi-o, mas tenho de v-lo mais devagar. No entanto, julgo que todas essas coisas podem ser feitas em Ndotsheni.

Sentaram-se  mesa, nervosos e excitados, tal era 313
o poder do mancebo em pintar quadro to maravilhoso. E Kumalo olhou em roda e exclamou:

- Eu j tinha dito que este senhor era um anjo enviado por Deus.

E, no seu entusiasmo, levantou-se e ps-se a passear pela sala.

- Est ansioso por comear? - perguntou. O mancebo riu-se, um pouco embaraado.

- Sim, de facto estou - respondeu.

- Qual  a primeira coisa que vai fazer?

- Primeiro, tenho de falar com o chefe, umfundisi.

- Sim, isso  a primeira coisa que deve fazer.

Ouviu ento, na rua, o rudo do tropel dum cavalo. Levantou-se e saiu, perguntando a si prprio se seria o rapazinho que voltava de novo. E de facto era, mas o pequeno
no se apeou e, montado no cavalo, falou para Kumalo, com gravidade, como se se tratasse dum assunto srio:

- Foi por uma unha negra.

- Uma   unha? - perguntou    Kumalo. - Uma unha negra?

- Isto  calo - explicou o rapazito, que se conservou cheio de seriedade. - Quer dizer, foi s por um bocadinho.  que se o meu av no tivesse vindo to cedo,
eu no poderia vir aqui dizer-lhe adeus.

- Quer dizer que se vai embora, inkosana? Mas o rapazito no respondeu  pergunta. Notou

a perplexidade de Kumalo e apressou-se a explicar:

-  que se o meu av regressasse mais tarde, talvez no tivesse tempo de voltar c. Mas, como veio cedo, j tive tempo.

- Quer dizer que se vai embora amanh, inko-
314 sana?

- Sim, amanh, no comboio da linha estreita, sabe? No comboio pequenino.

- Oh, inkosana!

- Mas volto nas frias, e ento aprenderei mais zulu.

- Dar-me- um grande prazer.

- Ento adeus, umfundisi.

- Adeus, inkosana.

E acrescentou em zulu:

- V em bem, inkosana.

O rapazito ps-se a pensar, franzindo a testa em concentrao, e depois respondeu em zulu:

- Fique em bem, umfundisi. Kumalo exclamou, admirado:

- Ah! Ah!

E o rapazinho deu uma gargalhada, tirou o barrete e partiu no meio de uma nuvem de p. Galopou pelo caminho acima, mas, a certa distncia, parou, voltou-se e acenou
com a mo. Em seguida disparou de novo a galope. E Kumalo ali ficou, ao lado do jovem prtico, vendo sumir-se na distncia o pequeno cavaleiro.

- Este - exclamou   Kumalo   com   arrebatamento -  um anjo pequenino de Deus!

Voltaram para casa e foi Kumalo quem quebrou o silncio:

- Com que ento, o senhor pensa que se podem fazer muitas coisas?

- H muitas coisas que se podem fazer, umfundisi.

- Srio?

- Umfundisi -disse o outro com convico -, no h razo nenhuma para que este vale no volte
a ser o que era. Mas no se pode fazer tudo de repente ;  preciso tempo.

- Se for da vontade de Deus - tornou o velho com humildade-, que seja antes de eu morrer. Porque tenho vivido a minha vida na destruio.

34

Estava tudo pronto para a confirmao. As mulheres l estavam, vestidas de branco, com um pano verde  volta do pescoo, e os homens que no tinham abandonado a
terra e que pertenciam  igreja l estavam tambm, vestidos com os fatos domingueiros, que no eram seno os fatos de trabalho, agora remendados, lavados e escovados.
L estavam tambm as crianas que recebiam a confirmao, as raparigas de branco e com gorra, os rapazes com as roupas de ir  escola, remendadas, lavadas e escovadas.
Algumas mulheres afadigavam-se na casa, ajudando a mulher do umfundisi, pois, aps a confirmao, devia haver uma refeio ligeira, um ch fervido at que as folhas
no tivessem nada que dar e grandes bolos caseiros de farinha de milho. Era uma refeio simples, mas de que todos partilhariam.

E sobre o grande vale de novo se amontoavam nuvens de trovoada, com um calor opressivo, de modo que as pessoas no sabiam se deviam estar alegres ou tristes. Enormes
sombras negras perpassavam pela terra vermelha, atingindo os cimos dos montes nus. Todos olhavam para o cu e para o caminho por onde havia de vir o bispo e ficavam
perplexos, sem saberem se haviam de se alegrar ou de se entriste-
 cer, pois no havia dvida de que, antes do pr do
Sol, os relmpagos feririam os montes e o trovo ribombaria.

Kumalo contemplava ansiosamente o cu e o caminho por onde devia vir o bispo e ficou surpreendido ao ver o seu amigo guiando o carro que trazia o leite, pois nunca
acontecera ter vindo to cedo.

- Hoje veio cedo, meu amigo.

- Sim, vim cedo, umfundisi - disse o outro gravemente. - Hoje no se trabalhou; a inkosikazi morreu.
- Oh! No pode ser!

-  assim mesmo, umfundisi. Quando o Sol ia a esta altura - e apontou a cabea com o dedo - morreu ela.

- Que desgraa!

-  uma desgraa, umfundisi.

- E o umnumzana?

- Anda por l e no diz palavra. O senhor sabe como ele , mas agora o seu silncio  mais pesado. Umfundisi, tenho de ir lavar-me para vir  confirmao.

- Ento v, meu amigo.

Kumalo foi para casa e disse  mulher:

- A inkosikazi morreu.

E ela e as outras mulheres gemeram:
-   -Ah! Ah!

Algumas desataram a chorar e a recordar em alta voz a bondade da defunta.

Kumalo sentou-se  mesa, pensando no que devia fazer. Quando acabasse a confirmao, iria  casa do Stio Alto e falaria a Jarvis da consternao que havia no vale.
Mas veio-lhe ao esprito a imagem do que se estava a passar na casa agora de luto: auto- 317


mveis cheios de brancos, lavradores vestidos de preto, reunidos em grupos, conversando gravemente, tal como ele j vira antes em iguais circunstncias. Reconheceu
ento que no devia ir, pois tal no permitia o costume e porque, se fosse, a menos que Jarvis sasse ao seu encontro, l permaneceria sozinho, sem que ningum lhe
perguntasse ao que ia, sem que ningum soubesse a mensagem que levava. Deu um suspiro e tirou papel da gaveta. Resolveu escrever em ingls, pois embora os brancos
da regio, na sua maioria, falassem zulu, poucos sabiam l-lo ou escrev-lo. Escreveu ento muitas folhas que rasgou e ps de lado, mas, por fim, acabou.

Umnumzana:

Sentimos um grande desgosto ao sabermos nesta igreja do falecimento da me, facto que nos tocou e que nos aflige profundamente. Estamos certos, tambm, de que ela
tinha conhecimento de tudo quanto o senhor fez por ns e de que ela prpria participou no bem praticado. Ns rezaremos na nossa igreja pelo descanso da sua alma
e pelo senhor tambm, para alvio do seu desgosto.

Seu servo obediente,

Rev. S. Kumalo

Depois de terminar, ps-se a pensar se devia ou no mandar a carta. Sim, porque aquela mulher talvez tivesse morrido porque a morte do filho lhe despedaara o corao.
Devia pois, ele, o pai do homem que o matara, enviar tal carta? No sabia ele
318 que ela era doente e fraca? Resmungou, pensando na

dificuldade do assunto, e, no meio da sua incerteza, lembrou-se da oferta do leite, da vinda do prtico agrcola para ensinar a cultivar a terra e, acima de tudo,
recordou a voz de Jarvis, como se ele ali estivesse presente, a repetir: "Foi comutada a pena?" Sentiu ento a sensao de quem vai empreender uma jornada decidido
a lev-la at ao fim e, por isso, fechou a carta, saiu para a rua e perguntou a um garoto:

- Meu filho, queres ir levar esta carta?

- Quero, sim, umfundisi.

- Vai ento a casa de Kuluse, pede-lhe o cavalo e leva esta carta a casa do Sr. Jarvis. No vs incomodar o umnumzana, basta que entregues a carta a qualquer pessoa
da casa. E toma nota, meu filho, fala baixo e com respeito, no grites por ningum, no te rias nem digas disparates, porque a inkosikazi morreu. Ests a compreender?

-- Compreendo, umfundisi.

- Vai ento, meu filho. Custa-me muito que no possas assistir  confirmao.

- No faz mal, umfundisi.

Em seguida, Kumalo foi anunciar ao povo o falecimento da inkosikazi. Todos se quedaram silenciosos e, se at ento tinha havido gritos e risos, nada mais se ouviu.
Todos falaram em voz baixa, at que o bispo chegou.

Estava escuro na igreja, e por isso foi necessrio acender as velas. As grandes nuvens carregadas passavam sobre o vale e os relmpagos iluminavam os montes vermelhos
e descarnados. O trovo rugia sobre os vales de gente velha, de mes e de crianas. Os homens partiram, os rapazes e as raparigas partiram e a terra j no pode
prend-los. Algumas das

319
320

crianas esto na igreja para receber a confirmao e daqui a pouco tambm elas partiro, porque a terra j no pode prend-las.

Estava escuro na igreja e a chuva passava pelo telhado. No cho formavam-se poas de gua e os assistentes mudavam constantemente de lugar, fugindo da chuva que
escorria. J alguns vestidos brancos estavam encharcados e uma rapariga tremia com frio, pois a ocasio era solene e ela no ousava mudar de lugar. E a voz do bispo
ouvia-se:

- Protege, Senhor, esta criana com a Tua divina graa, para que ela continue Tua para sempre, para que nela cresa mais e mais o Teu esprito santo, at que ela
seja chamada para o Teu reino eterno.

E proferiu estas mesmas palavras a respeito de cada criana, e assim as confirmou a todas.

Depois 'da cerimnia reuniram-se todos na casa,  espera da frugal refeio. Kumalo teve de pedir aos que no receberam a confirmao ou que no eram parentes dos
confirmados que ficassem na igreja, visto que chovia ainda abundantemente, embora os troves e os relmpagos tivessem passado. Apesar disso, a casa estava cheia
a trasbordar: gente na cozinha, na sala que fazia de escritrio, na sala de jantar, no quarto de dormir e at no quarto do jovem prtico agrcola.

Por fim a chuva parou e Kumalo e o bispo ficaram ss no quarto que servia de escritrio. O bispo acendeu o cachimbo e principiou:

- Preciso de falar consigo, reverendo Kumalo. Kumalo sentou-se timidamente, receoso pelo que

ia ouvir.

- Lamento muito os desgostos que tem sofrido, meu amigo.

- Tm sido bastante pesados, senhor.

- Eu no quis incomod-lo, reverendo Kumalo, por saber o que tem sofrido; por isso decidi esperar at este dia de confirmao.

- Sim, senhor.

- O que tenho a dizer-lhe no prejudica de forma alguma a considerao que tenho por si, meu amigo; peo que me acredite.

- Sim, senhor.

-  que eu penso, reverendo Kumalo, que devia sair de Ndotsheni.

Sim, era isto mesmo que eu esperava ouvir e eis que ele o diz; era isto que eu receava. E, no entanto, tirarem-me daqui  matarem-me. Sou velho de mais para comear
outra vez. Sou velho e sou fraco. E, contudo, fiz o possvel para ser como pai desta gente. Se c tivesse estado, senhor, no dia em que regressei a Ndotsheni, veria
quanto esta gente me estima, apesar de eu estar velho. Se c estivesse, teria ouvido dizer quela criana: "Estamos muito contentes por ver o umfundisi de volta."
Teria ouvido aquele homem exclamar: "Ns no o compreendamos antes!" E quer tirar-me daqui, agora que novas coisas vo comear, agora que h leite para as criancinhas,
que veio o prtico, agora que as estacas para a represa esto enterradas no cho?

Os olhos arrasaram-se-lhe de lgrimas; fechou-os, mas as lgrimas brotaram-lhe das plpebras cerradas, caindo no seu fato preto novo, comprado para a confirmao
com o dinheiro do admirvel Msimangu. A cabea encanecida curvou-se; o ancio permaneceu como uma criana, sem dizer uma palavra.

- Reverendo  Kumalo! - chamou   o   bispo   com  321


322

doura. - Reverendo Kumalo! - repetiu mais alto.

- Senhor? Meu senhor?

- Sinto muito se o desgosto; sinto muito; mas no acha que seria melhor sair daqui?

- como Vossa Excelncia Reverendssima quiser.

O bispo inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

- Reverendo Kumalo, no  verdade que o pai do assassinado  seu vizinho  aqui, em Ndotsheni? O

Sr. Jarvis?

-  verdade, senhor.

- Basta essa razo para o senhor ter de sair daqui.

 motivo suficiente para eu me ir? Porqu? Pois no  certo que ele tem vindo aqui a cavalo para me ver? No  certo que o menino tem vindo a minha casa? No tem
ele mandado leite para as criancinhas e no enviou esse prtico para ensinar o nosso povo a cultivar a terra? No se me despedaou o corao com a notcia da morte
da inkosikazi? Mas como dizer estas coisas a um bispo, uma personagem to importante nesta regio? Sim, porque h coisas que se no podem dizer.

- Compreendeu-me,   no      verdade,   reverendo Kumalo?

- Compreendo, senhor.

- vou   mand-lo   para   Pietermaritzburg,   para junto do seu velho amigo Ntombela.  Ser-lhe- de grande auxlio e alivi-lo- de muitos afazeres. Ele tratar
da questo de edifcios, escolas e dinheiro e o senhor dedicar-se-  parte religiosa.  o projecto que tenho em mente.

- Compreendo, senhor.

- Se aqui ficar, reverendo Kumalo, ter muitas tarefas sobre os seus ombros. E no  somente o facto de o Sr. Jarvis ser seu vizinho. Mais tarde ou mais cedo ter
de fazer obras na sua igreja, e isso h-de custar muito dinheiro e preocupaes; o senhor sabe bem em que condies ela est.

- Sei, sim, senhor.

- E, segundo me consta, o senhor trouxe para aqui, para viver consigo, a mulher de seu filho, que est para ter uma criana. Acha decente que eles aqui continuem,
reverendo Kumalo? No lhe parece que  melhor irem para um stio onde essas coisas se no saibam?

- Sim, compreendo, senhor.

Ouviu-se bater  porta e apareceu o rapaz que tinha levado a carta e que trazia uma outra. Kumalo pegou na carta, que vinha endereada ao Rev. S. Kumalo, Ndotsheni.
Agradeceu ao portador, fechou a porta e voltou a sentar-se, disposto a continuar a ouvir o bispo.

- Pode ler a carta, reverendo Kumalo. O padre abriu-a e leu:

Umf undisi:

Agradeo-lhe a expresso do seu sentimento, bem como a promessa das oraes na sua igreja. O senhor tem razo: minha mulher sabia de tudo o que est a fazer-se e
ela prpria participava nisso. Tudo era feito em memria do nosso querido filho. Um dos ltimos desejos dela foi o de que se construsse uma igreja nova em Ndotsheni,
assunto a respeito do qual em breve falarei consigo.

Seu atento venerador,

James Jarvis        323
324

Deve saber que minha mulher j no andava bem de sade antes de termos ido a Johannesburg.

Kumalo levantou-se e exclamou numa voz que assombrou o bispo:

- Esta vem de Deus!

E, no mesmo estranho tom de voz, onde havia uma expresso de alvio e de angstia, de riso e de pranto, repetiu, olhando em volta para as paredes da sala:

- Esta vem de Deus!

- Pode-se ver a carta que vem de Deus? - perguntou o bispo friamente.

Kumalo entregou-lha, pressuroso, e ficou de p, cheio de impacincia, enquanto o bispo a lia. E este, quando acabou, disse gravemente:

- Seria uma brincadeira estpida.

Voltou a l-la, assoou-se e ficou-se com a carta na mo.

- Que coisas so essas que se esto a fazer? Ento Kumalo falou-lhe do leite, da represa e do

prtico agrcola.

O bispo assoou-se muitas vezes e por fim disse:

-  uma coisa extraordinria;  uma das coisas mais extraordinrias que tenho ouvido.

E Kumalo explicou a frase "Deve saber que minha mulher j no andava bem de sade antes de termos ido para Johannesburg". Explicou-lhe que estas palavras haviam
sido escritas por piedade e compaixo. Referiu ao bispo a pergunta "Houve

comutao de pena?" e contou-lhe as visitas do rapazinho, criana cheia de vida e de alegria. No fim o bispo disse-lhe:

- Vamos para a igreja rezar; se houver l um stio enxuto para isso. Depois vou-me embora, porque tenho ainda uma grande caminhada a fazer. Mas primeiro quero despedir-me
de sua mulher e da sua nora. E diga-me uma coisa: que h a respeito do outro caso... da sua nora e do filho que vai nascer?

- Temos rezado com todo o povo, senhor. Que mais poderemos fazer?

- Sim, era o que se fazia nos velhos tempos
- sentenciou o bispo -, nos tempos idos, quando os homens tinham f. Contudo, depois do que hoje aqui ouvi, no tenho razo para falar assim.

O bispo despediu-se da gente da casa e, acompanhado de Kumalo, dirigiu-se para a igreja.  porta do templo voltou-se para Kumalo e disse gravemente:

- Sei agora que no  vontade de Deus que o senhor deixe Ndotsheni.

Depois de o bispo partir, Kumalo sentou-se do lado de fora da igreja, na escurido crescente do fim do dia. Parara a chuva, mas o cu estava negro com promessas
dela. Fazia fresco, uma brisa suave soprava do lado do grande rio e um grande alvio inundava a alma do homem. E, estando ele a contemplar o grande vale sombrio,
ouviu-se, vinda do Cu, uma voz: "Consolai-vos, consolai-vos, meus filhos; tudo isso farei por vs e no vos abandonarei."

Simplesmente, isto no aconteceu da maneira como os homens em geral julgam, mas de outro modo. Sucedeu daquela forma a que os homens chamam ilu- 325
so, ou imaginao de quem se sente exausto, ou intimao divina.

Quando entrou em casa, foi encontrar a mulher, a rapariga, algumas mulheres da igreja e o amigo que lhe levou os sacos muito ocupados a fazerem uma coroa de flores.
Tinham um ramo de cipreste, cortado dum cipreste solitrio que crescia junto da cabana do amigo, o nico cipreste que havia em todo o vale de iNdotsheni e que ali
nascera no se sabe como. Dobraram o ramo num arco fechado, que ataram bem atado e no qual amarraram flores da campina, flores selvagens nascidas na nudez da terra.

- No me est a agradar isto, umfundisi. No sei porqu, mas no est bem; no parece uma coroa para gente branca.

- Eles usam flores brancas - disse a professora nova. - Reparei muitas vezes que em Pietermaritzburg usam flores brancas.

- Umfundisi - exclamou o amigo -, eu sei onde h flores brancas, lrios brancos.

- Sim, eles usam lrios brancos - tornou a professora com animao.

- Mas  longe;  ao p da linha do comboio, para alm   de  Carisbrooke,  perto  dum   ribeiro   que  eu conheo.

-  muito longe - disse Kumalo.

- Eu vou l - disse o homem. - No  longe para uma coisa destas. Empresta-me um lampio, umfundisi?

- Sem dvida, meu amigo.

- E tem de se arranjar uma fita branca - suge-
326 riu a professora.

- Tenho uma em casa - respondeu uma das mulheres. - vou j busc-la.

- E tu, Stephen, tens um carto para escreveres ?

- O carto tem de ter uma sarja preta - tornou a professora.

- Sim, eu arranjo um carto - disse Kumalo e fao-lhe uma sarja negra com tinta.

Foi ao quarto onde fazia as contas da igreja e voltou com um carto, onde escreveu:

Com muitos sentimentos do povo da Igreja de So Marcos

Ndotsheni

Em seguida, com o maior cuidado, no fosse sujar o carto, ps-se a pintar as bordas com tinta at a mulher o chamar para a ceia.

35

Estava no auge a faina da lavra em Ndotsheni e nas quintas vizinhas. Mas os trabalhos corriam devagar, porque o jovem prtico, e atrs dele o chefe, ensinavam que
no se devia lavrar de cima para baixo nem de baixo para cima. Faziam muros de terra e lavravam os montes em crculo, o que dava um aspecto  paisagem bem diferente
do dos tempos da velha lavra. Mulheres e crianas juntavam estrume, mas parecia to pouco quando o lanavam  terra que o chefe mandou que se construsse um kraal
onde pudesse permanecer o gado e juntar-se facilmente o estrume. No entanto, era um problema difcil de resolver, porque no havia no kraal nada para comer. 327
O prtico abanou a cabea com desagrado ao ver o estrume, mas disse que no prximo ano as coisas seriam melhores. Ferveu-se a semente da mimosa, facto nunca visto
no vale, mas aqueles que trabalhavam para os brancos disseram que sim, que assim  que estava certo, e toda a semente foi cozida. Para esta semente escolheram-se
um ou dois lugares desolados, onde o prtico teve outros gestos de desalento perante a pobreza da terra. Recomendou ento que se desfizessem do milho que guardavam
para semear, porque era de inferior qualidade e ele tinha boa semente dada pelo Sr. Jarvis. Mas eles no o deitaram fora, antes o guardaram para comer.

Tudo isto, porm, no foi feito por milagre. Houve numerosas reunies, muito mau humor e muito silncio. Apenas o medo do chefe fez com que sasse alguma coisa destas
reunies. Os mais descontentes foram os que tiveram de renunciar s suas terras. Um deles era o irmo de Kuluse, que no deu palavra durante dias, pois a represa
ia ocupar a sua terra e no estava contente com o pobre pedao de terreno que lhe davam. Teve o umfundisi de o convencer e era difcil contrariar o umfundisi, pois
devido a ele fora arranjado o leite que salvara a filha do irmo. O chefe j tinha dado a perceber que teria de pedir coisas mais duras e o prtico desesperava-se
por ele no as pedir imediatamente. Mas seria difcil convencer esta gente a concordar com tudo de uma vez. J nesse mesmo ano, dizia o prtico, todos veriam com
os prprios olhos alguma coisa nova, embora abanasse tristemente a cabea perante a pobreza do solo.

Dizia-se tambm que o Governo daria um touro
328 ao chefe e o prtico explicou a Kumalo que deviam

desfazer-se das vacas de produo escassa, mas no se atrevera a falar nisso nas diferentes reunies, pois era essa uma das coisas duras para um povo que avaliava
a sua riqueza pelo nmero de cabeas possudas, sem atender  qualidade dos animais.

Mas a grande maravilha foi a enorme mquina, que, segundo se dizia, combatera na guerra, que empurrava a terra do campo do irmo de Kuluse at junto da linha das
estacas e ali a amontoava, cada vez mais alta. E at o irmo de Kuluse, que observava o trabalho soturnamente, teve um ataque irreprimvel de riso, que s cessou
ao lembrar-se de novo de que a terra era sua. No entanto, h para ele alguma satisfao, porque, no prximo ano, quando a represa estiver cheia, as terras de Zuma
e do irmo, que ficam por baixo da represa, sero cedidas ao branco, que nelas semear erva para o gado do kraal. Sentia-se satisfeito, pois Zuma e o irmo troavam
agora do seu desapontamento e mau humor.

Havia, na verdade, alguma coisa de novo no vale, alguns ideais, alguma vida, coisas mais que suficientes para grandes conversas nas cabanas.

Embora nada de positivo tivesse ainda aparecido, alguma coisa havia j.

- J houve um outro Napoleo-disse Kumalo-, que foi um homem que tambm fez muitas coisas. Fez tantas coisas que at se escreveram muitos livros a seu respeito.

O prtico deu uma gargalhada, mas baixou os olhos para o cho e ps-se a esfregar as botas uma na outra. 329
- O senhor pode sentir-se orgulhoso - continuou o padre - porque no vale h uma vida nova. Vivo aqui h muitos anos e no me lembro de ver lavrar com tanto entusiasmo.
Est acontecendo qualquer coisa de novo; no  s a questo da chuva, que, alis, tambm veio  refrescar os  espritos.    uma questo de esperana, de uma esperana
como nunca at hoje notei.

- O senhor no deve ter demasiadas esperanas
- respondeu o prtico. - Eu no espero muito este ano. O milho ser um pouco mais, as colheitas um pouco maiores, mas a verdade  que o solo  pobre.

- Mas para o ano temos o kraal.

- Sim! - exclamou o outro vivamente. - Aproveitaremos muito estrume no kraal. Eles j me prometeram, umfundisi, que, ainda que este Inverno seja muito frio, no
queimaro nenhum estrume.

- Quanto tempo levaro as rvores para estarem em condies?

- Uns poucos de anos - respondeu o prtico com tristeza. - Diga-me uma coisa, umfundisi:   o senhor pensa que aguentaro o Inverno durante sete anos?

- Tenha f, meu amigo; o chefe e eu trabalharemos para isso.

- Estou cheio de impacincia por causa da represa.   Quando  estiver  pronta,   haver   gua  para as pastagens. E ento, umfundisi, haver leite neste vale e j
no teremos preciso do leite do branco.

Kumalo fitou-o longamente e disse:

- Que seria de ns sem o leite do branco? Que seria de ns sem tudo o que o branco tem feito ? Que seria tambm do senhor? No  certo que est a

330
 trabalhar aqui por conta dele?

- verdade que  ele quem me paga - tornou o outro, amuado. - Eu no sou ingrato.

- Ento no devia falar assim - retorquiu friamente Kumalo.

Um silncio de constrangimento se fez entre ambos, at que o jovem prtico perguntou com serenidade:

- Umfundisi, no  verdade que tenho trabalhado aqui com toda a boa vontade?

- Sim,  verdade.

- Pois eu trabalho assim porque trabalho para a minha terra e para a gente da minha raa. Compreenda bem isso, umfundisi;  eu  no  trabalharia assim para nenhum
patro.

- Se o senhor no tivesse patro, no estaria aqui.

- Sim, sei bem o que quer dizer - tornou o outro. -Esse homem tem bom corao e merece o meu respeito. Mas isto no  maneira de fazer as coisas, fique certo.

- Ento qual seria a maneira de as fazer?

- No desta maneira-continuou o prtico, com rancor.

- De que maneira ento ?

- Umfundisi, foram os Brancos que nos deram as terras de to reduzido tamanho; foram os Brancos que nos vieram tirar das terras para irmos trabalhar para eles. Ns,
alm disso, ramos ignorantes. Todas essas coisas juntas  que tornaram este vale numa desolao. Por consequncia, todo o bem que este branco nos faz no  seno
uma compensao.

- No me agrada esta conversa.

     - Eu   compreendo-o,   umfundisi;   compreendo-o perfeitamente. Mas deixe-me fazer-lhe uma pergunta. 331
- Faa, ento.

- Se o vale for restaurado, como o senhor tem pedido nas suas oraes, pensa que comportar toda a gente da tribo que porventura para aqui volte?

- Na verdade, no sei.

- Mas sei eu, umfundisi. Ns podemos recompor o vale para os que c esto, mas, quando as crianas de agora se fizerem homens, haver de novo gente a mais e alguns
tero ento de partir.

Kumalo ficou calado e suspirou. Depois disse:

- O senhor  inteligente de mais para que eu possa discutir consigo.

- Desculpe-me, umfundisi.

- No tem que pedir desculpa. Vejo que o senhor tem o culto da verdade.

- Fui assim ensinado, umfundisi; foi um branco que me educou assim. No pode haver progresso, nem mesmo na agricultura, sem se dizer a verdade.

-- Esse homem era avisado.

- Foi ele tambm quem me ensinou que no devemos trabalhar para homens, mas sim para a terra e para o povo. Nem sequer devemos trabalhar por dinheiro, dizia ele.

Kumalo sentia o esprito abalado e perguntou: --H muitos que pensam como o senhor?

- No sei, umfundisi, no sei se h muitos, mas sei que h alguns.

E o jovem, entusiasmado, continuou:

- Ns trabalhamos para a frica; no para este ou para aquele homem; no para um branco ou para um preto, mas para a frica.

- Porque no dizem para a frica do Sul ?

- F-lo-amos se pudssemos - respondeu o jo-
332 vem com serenidade.

Reflectiu por um instante e tornou:

- Falamos como cantamos, pois cantamos Nkosi Sikelel' iAfrica.

- Est a fazer-se noite - disse o padre. -  altura de nos irmos lavar.

- No me compreenda mal, umfundisi - rogou o prtico vivamente. -Eu no sou homem de poltica, no sou pessoa que venha trazer complicaes para o seu vale. Desejo
restaur-lo e  tudo.

- Possa Deus favorecer o seu desejo - respondeu Kumalo, tambm com entusiasmo. - Meu filho, uma palavra.

- Diga, umfundisi.

- Eu no posso evitar que o senhor pense assim e acho que  belo um rapaz ter pensamentos profundos, mas peo-lhe que no tenha dio a ningum nem deseje ter poder
sobre homem algum, pois tenho um amigo que me demonstrou que o poder corrompe.

- No odeio ningum, umfundisi, e no desejo mandar em ningum.

- Assim est bem, porque j h dios de mais na nossa terra.

O prtico entrou em casa para se lavar e Kumalo ficou por uns momentos na escurido da noite, mirando as estrelas que apareciam sobre o vale, o vale que ia ser restaurado.
Para si era j bastante, porque a sua vida estava quase no fim. Era velho de mais para novas e perturbadoras ideias, que o incomodavam, pois atingiam muitas outras
coisas. Sim, atingiam o homem grave e silencioso do Stio Alto, o homem que to incomparvel generosidade tinha patenteado depois do golpe profundo que lhe despedaara
 333
 o corao. Era velho de mais para essas novas e perturbadoras ideias. Co do homem branco, era o que lhe chamavam, a ele e aos da sua raa. Deix-lo! Fora este
o modo por que vivera a vida, seria este o modo por que morreria.

Voltou-se e entrou em casa atrs do jovem.

36

Veio o dia 14. Kumalo disse  mulher que ia para a montanha. E ela volveu-lhe: "Compreendo." Porque duas vezes j ele fizera tal jornada: uma, quando o filho Absalo
era pequenino e estava a morrer duma grave doena, e outra, quando estivera prestes a abandonar a igreja para ir gerir em Donnybrook um armazm para indgenas, por
conta de um branco chamado Baxter, na esperana de ir ganhar mais do que nunca ganharia como padre. E houve ainda uma terceira vez, mas esta sem conhecimento da
mulher, quando ela estivera ausente e ele tivera uma poderosa tentao de a atraioar com uma das professoras de Ndotsheni que era fraca e s.

- Podias vir comigo, pois no me agrada deixar-te s.

A mulher sentiu-se comovida, mas descUlpou-se:

- No posso ir, bem sabes; a rapariga est no fim do tempo e, de um momento para o outro, pode acontecer alguma coisa. Mas tu podes ir,  claro.

Arranjou-lhe uma garrafa de ch, uma daquelas

garrafas onde se podem fazer ferver as folhas, e

bolos de milho. E ele pegou no casaco e na bengala

e ps-se a subir o caminho que levava ao stio onde

334 morava o chefe. Na primeira bifurcao, porm, to-

mase o caminho do lado da mo com que se come e trepa-se por outro monte at se encontrarem outras cabanas no sop da montanha. Ali muda-se de rumo e caminha-se
para nascente, na direco do vale de Empayeni, que  outro vale onde os campos so vermelhos e nus, vale de velhos, de mulheres e de crianas. E quando a vereda
que contorna o monte se quebra e desce para esse vale, comea-se ento a subir a prpria montanha. Chama-se a montanha Emoyeni, que quer dizer ao vento, e fica sobranceira
a Carisbrooke e aos seus cimos, a grande altura dos vales de Ndotsheni e Empayeni. De facto,  como uma muralha do grande vale, o vale do Umzimkulu, da qual se pode
observar uma das mais belas paisagens africanas.

Era agora quase noite cerrada, mas ele sentia-se bem na escurido, porque no queria que a sua jornada desse nas vistas. Porm, logo que iniciou a subida pelo carreiro
estreito, entre as rochas altas, deu com um homem a cavalo e ouviu uma voz dizer-lhe:

-  o senhor, umfundisi ?

- Sim, sou eu, umnumzana.

- Ento ainda bem que o encontro, umfundisi, porque tenho aqui uma carta para a gente da sua aldeia.

Fez uma pausa breve e acrescentou:

-- As flores eram muito lindas, umfundisi.

-  bondade sua, umnumzana.

- E a igreja, umfundisi? Acho que o senhor gostava de ter uma nova?

Kumalo s pde sorrir e abanar a cabea, pois nada foi capaz de dizer. E, embora abanasse a cabea como numa recusa, Jarvis compreendeu-o.

33
- Em breve lhe mando o projecto e depois diga-me se lhe agrada.

- Eu o enviarei ao bispo, umnumzana.

- O senhor l sabe o que tem a fazer, mas eu tenho  pressa no  assunto,  porque  me  vou  embora daqui.

Kumalo sentiu um choque ao ouvir notcia to desconsoladora. Apesar de escuro, Jarvis percebeu o seu desapontamento, pois acrescentou rapidamente:

- Mas virei por c muitas vezes, pois o senhor sabe bem que tenho aqui que fazer. E, a propsito, com vai o rapaz, o prtico agrcola?

- Trabalha dia e noite, no tem um momento de descanso.

O branco riu-se, satisfeito:

- Ainda bem!

E continuou depois, num tom grave:

-  que vivo aqui sozinho, e por isso vou para Johannesburg, para junto da minha filha e dos netos. O senhor conhece o petiz?

- Conheo, umnumzana, conheo.

- E parece-se com ele ?

-  o seu retrato, umnumzana. E Kumalo acrescentou:

- Na verdade, nunca vi uma criana como ele. Jarvis voltou-se mais no cavalo e perguntou ansioso:

- Que quer dizer com isso?

- Umnumzana, todo ele irradia luz.

- Sim, sim, isso  verdade; o outro tambm assim era.

E, depois de um breve silncio, num tom que-
336 brado de saudade, perguntou:

-Lembra-se?

Kumalo, embora no se recordasse bem, comoveu-se com a pergunta e disse:

- Sim, lembro-me.

Ficaram calados por algum tempo e Jarvis tornou depois:

- Umfundisi, tenho de ir. Mas no se moveu e perguntou:

- Onde  que o senhor vai a esta hora? Kumalo atrapalhou-se, sem poder dizer palavra,

mas por fim respondeu:

- vou para a montanha.

E como Jarvis nada retorquisse, tentou explicar-se, procurando as palavras. Porm, antes que dissesse alguma coisa, foi Jarvis quem falou:

- Compreendo, compreendo perfeitamente.

E o velho, ao ouvir estas palavras to repassadas de compaixo, ps-se a chorar, enquanto Jarvis permanecia confuso, enleado, hesitando se devia ou no apear-se
do cavalo. No se decidiu a tal, mas, estendendo a mo sobre o vale nas trevas, exclamou:

- Uma coisa est prestes a acabar, mas h aqui outra que comea agora. E enquanto eu viver, h-de continuar. V em bem, umfundisi.

- Umnumzana!

- Diga.

- No quero que se v sem lhe agradecer. Agradecer-lhe por causa do prtico e do leite e agora pela igreja.

- Eu conheci um homem - disse Jarvis com dorida jovialidade - que vivia nas trevas at   o senhor o encontrar. Se  isso o que o senhor faz, eu tambm fao aquilo
de boa vontade. 337


338

E Kumalo, avassalado pela profundeza do momento ou encorajado pela escurido, exclamou:

- Verdadeiramente, de todos os brancos que at hoje conheci...

- Eu no sou santo - atalhou Jarvis com dureza.

- Isso no sei, mas o certo  que Deus o tocou com as Suas divinas mos.

- Pode ser, pode ser - tartamudeou o outro.

E, voltando-se subitamente para Kumalo, concluiu :

- V em bem, umfundisi. Passe bem a noite.

- V em bem! V em bem! - gritou Kumalo ao v-lo afastar-se.

Havia outras coisas, coisas profundas que ele queria gritar, sem o conseguir. Esperou at deixar de ouvir o rudo do cavalo, que se afastava, e depois ps-se a subir
penosamente a encosta da montanha, agarrando-se s rochas, porque, ai dele!, j no tinha a energia da mocidade. Cansado, ofegante, atingiu o cimo da montanha e
sentou-se numa pedra a descansar, lanando os olhos para o grande vale at s montanhas de Ingeli e do East Griqualand, recortadas a negro no cu. Recobradas as
foras, caminhou mais um pouco, at ao lugar onde tinha estado noutras duas  ocasies. Era um recanto na rocha, abrigado dos ventos, com um lugar onde um homem se
podia sentar lanando as pernas para fora.

Lembrou-se nitidamente da primeira vez que ali viera, talvez por ser precisamente a primeira vez, ou ento porque se tratava tambm do filho que j nenhumas oraes
podiam salvar. Ento o filho no sabia escrever, mas agora tinha dele trs cartas e em todas dizia: "Se eu pudesse voltar a Ndotsheni,

nunca mais de l saa." E dentro de um dia ou dois receberia dele a derradeira carta.

Inundou-se-lhe o corao de uma compaixo infinita pelo filho, que devia morrer e que prometia, agora que j no havia perdo, no tornar a pecar. Se ele tivesse
l ido mais cedo, quem sabe? Franziu as sobrancelhas ao recordar o intil e terrvel interrogatrio e as inteis e terrveis respostas: "Como o pai quiser", " como
o pai diz". E de que valeria se ele antes tivesse dito: "Meu pai, no sei"?

Fez um movimento como que para expulsar to inteis recordaes e tentou acomodar-se para a sua viglia. Confessou os seus pecados, recordando-os desde o tempo em
que pela ltima vez estivera na montanha. Dalguns lembrava-se bem: a mentira no comboio, a mentira para o irmo, quando este o pusera fora de casa e trancara a-
porta, a perda da f em Johannesburg e o desejo de ferir a rapariga, a criana pecadora e inocente. Confessou tudo numa confisso plena e rezou, pedindo a absolvio.

Depois rendeu graas, recordando, com meticulosa exactido, que tinha numerosos motivos para exprimir gratido por inmeras graas recebidas. Examinou uma por uma,
rendendo-lhes graas e orando por todas as pessoas de quem se lembrava. Acima de todos estava o incomparvel Msimangu e a sua generosa oferta. Havia tambm o moo
branco do Reformatrio, dizendo, encolerizado: "Desculpe, umfundisi, as minhas palavras cheias de ira." Havia a Sr.a Lithebe, dizendo sempre: "Para que viemos ns
a este mundo seno para nos ajudarmos uns aos outros?" E o padre Vicente, agarrando-lhe as mos e dizendo: "Qualquer coisa, qualquer coisa; no tem seno que pedir;
estou ao seu dispor para qualquer
 339"

coisa." E o advogado que tomou conta da causa por amor de Deus e que lhe tinha escrito palavras to amigas quando lhe comunicou que no houvera perdo.

Depois o regresso a Ndotsheni, com a mulher e o amigo a esper-lo; e a mulher que ps o avental por cima da cabea; e as mulheres que se juntaram na igreja,  espera;
e a grande alegria pelo seu regresso, alegria que lhe fez esquecer a sua dor.

Meditou longamente sobre isto. Pois no podia acontecer que um outro homem, de regresso a um outro vale, no encontrasse nada destas coisas? Porque se concedia a
um homem o privilgio de ver a sua dor transformada em alegria? Porque se dava a um homem o dom da certeza de Deus? No podia haver um outro homem, sem a graa daquela
certeza, a viver na dor interminvel? Porque sentia ele esse impulso de rezar pela restaurao de Ndotsheni e porque havia um branco alm, nos cimos, que fazia no
vale o que nenhum outro fizera? E porque, dentre todos os homens, era esse o pai daquele que o seu filho assassinara? Haveria um outro que tivesse sentido aquele
impulso e que rezasse dia e noite pela restaurao de um outro vale sem que as suas preces fossem atendidas?

Mas o seu crebro no suportava tais congeminaes, porque isso no  para o conhecimento do homem. Repeliu esses pensamentos, porque tudo era segredo.

E depois o branco Jarvis e a inkosikazi que desaparecera e o rapazinho que irradiava luz! Mas tambm isto o seu crebro se negava a suportar. Somente preces podia
um homem fazer, preces de gratido,
340 at ao fim dos seus dias. E diligenciou ento faz-las.

Acordou sobressaltado. Fazia frio, embora no muito intenso. Nunca tinha adormecido nestas viglias, mas agora estava velho, embora ainda no no fim, mas bem perto
dele. Pensou em todos os que sofriam, em Gertrudes, essa louca e fraca mulher, na gente da Cidade das Barracas e de Alexandra e em sua mulher. Mas, acima de todos,
em seu filho Absalo. Estaria acordado? Fora capaz de dormir nesta noite de fatal madrugada? E gemeu alto: "Meu filho! Meu filho!"

Ao lamentar-se, recobrou-se por completo d.a modorra por que passara. Olhou para o relgio e viu que era uma hora da madrugada. O Sol levantar-se-ia cedo, s cinco
da manh, e seria ento que aquilo sucederia, conforme lhe tinham dito. Se ele tiver adormecido, deixaio dormir, ser melhor. Mas se ele estiver acordado, ento,
 Cristo de misericrdia infinita, s com ele! E, pedindo isto, rezou longa e fervorosamente.

Estaria sua mulher de viglia, pensando nisto? Devia ter vindo com ele, deixar a rapariga. E a rapariga? Porque a tinha ele esquecido? Naturalmente dormia; ela amava-o
muito, sem dvida, mas o marido dera-lhe to pouco! Nada mais do que os outros lhe tinham dado!

E eis Jarvis despojado da mulher e do filho, e a nora despojada do marido, e as crianas despojadas do pai, principalmente o rapazinho das risadas luminosas, que
agora estava ali na sua frente a dizer-lhe: "Quando eu me for embora, alguma coisa de belo se vai de Ndotsheni. Sim, compreendo, sim, bem sei." E sem timidez, sem
acanhamento, continuava: "Sim, compreendo", e ria-se cheio de prazer.

E agora por todo o povo da frica, a terra adorada.
 341
 Nkosi Sikelel' iAfrika, Deus salve a frica. Mas ele no veria essa salvao, que estava muito longe, porque os homens tinham medo dela. Porque, para dizer a verdade,
eles tinham medo de si, de sua mulher, de Msimangu, do jovem prtico. E que mal havia nos seus desejos, nos seus anseios? Os da sua raa queriam percorrer de cabea
erguida a terra onde nasceram, queriam utilizar os frutos da terra. Que mal havia nisso? E, contudo, os homens tinham medo, um medo profundo nos seus coraes, um
medo to profundo que os fazia esconder a bondade ou a fazia aparecer impregnada de ferocidade e clera, por detrs de um semblante carregado e hostil. Tinham medo
porque eram poucos. E esse medo no podia ser aniquilado seno pelo amor.

Fora Msimangu, que no odiava homem algum, quem dissera: "O medo que sinto no corao  o de que um dia, quando eles se voltarem para o amor, venham a encontrar
somente o dio."

Oh, graves e sombrias palavras!

Quando novamente despertou, havia uma ligeira mudana do lado do nascente. Consultou receoso o relgio, mas viu que eram somente quatro horas e sossegou ento. Mas
era altura de ficar acordado, pois bem podia ser que j tivessem despertado o filho e o tivessem mandado aprontar. Levantou-se, mas mal se podia suster de p, com
os ps gelados e entorpecidos. Escolheu outro stio, donde podia observar melhor o despontar da aurora, e, se era verdade o que lhe disseram, mal assomasse o Sol
no horizonte
342 tudo estaria acabado.

i

Ouvira dizer que os condenados podiam comer o que quisessem na ltima madrugada. Estranho seria que algum pedisse de comer em tal momento. Teria fome o corpo estimulado
por um incompreensvel e sombrio poder, no sabendo que ia morrer? Estaria ele sereno, vestindo-se calmamente, pensando pela ltima vez em Ndotsheni? Teria lgrimas
nos olhos, que sacudiria para assumir a sua atitude viril? Teria ele dito: "No quero comer, quero rezar" ? Estaria l Msimangu, ou o padre Vicente, ou outro padre
qualquer, com a misso de o confortar e de lhe incutir coragem, a ele, to cheio do pavor da forca? Toca-o o arrependimento ou somente o avassala o medo? Nada mais
h que se possa fazer? No h um anjo que chegue l e que brade: "Isto  para Deus, no  para os homens! Vem, meu filho, vem comigo"?

Olhou, com os olhos nublados, para a palidez do nascente, que se tingia rapidamente. Mas conseguiu recobrar a calma e tirou os bolos e a garrafa do ch, que colocou
em cima duma pedra. E, depois de render graas, partiu os grosseiros bolos de milho, que comeu, e bebeu o ch. Em seguida mergulhou numa profunda e fervorosa orao,
erguendo os olhos para o oriente de cada vez que fazia uma splica. E o cu no nascente iluminava-se, iluminava-se, at que ele reconheceu que o momento j no estava
longe. E quando sups que ele chegara, tirou o chapu, que deitou por terra, e juntou as mos, que enclavinhou. Enquanto assim permanecia o Sol ergueu-se no horizonte.

343
Sim, a manh rompera. A titihoya despertou do sono e vagueia, chorando ao desamparo. O Sol pincela de luz as montanhas de Ingeli e do East Griqualand. O grande vale
do Umzimkulu continua ainda na penumbra, mas a luz o inundar. Ndotsheni est ainda s escuras, mas a luz a inundar tambm. Porque a manh vem nascendo, como nasce
h milhares de sculos, sem nunca faltar. Mas quando vir a aurora da nossa emancipao do medo da escravido e da escravido do medo, isso  um segredo.

GLOSSRIO

Afnkaans - Uma das lnguas oficiais da frica do Sul, derivada do holands e falada pelos Africnderes.

Ber - Termo que significa lavrador e se aplicava aos emigrados holandeses, franceses e alemes que se estabeleceram na frica do Sul, fugidos s perseguies religiosas
da Europa, no sculo XVII.

Donga - Rego feito na terra pela agua das enxurradas.

fnkosana - Palavra  indgena   que  significa   pequeno   chefe,  patrozinho.

Inkosi - Termo  que  significa,   na lngua indgenai,   chefe,  patro.

Kafferboetie - Palavra primitivamente usada para depreciar o branca que confraternizava* com o indgena; hoje aplica-se ao branco que se dedica a promover o bem-estar
do negro.

Kraal - Recinto onde o gado  recolhido e ordenhado; pequena aldeia indgena.

Siyafa- Termo  que  significa morremos.

Titihoya - Nome onomatopaico dado a uma espcie de tarmtola.

Tixo - Termo da lngua xosa que significa Deus, Ente Supremo.

Umfundisi - Padre.

Umnumzana - Senhor.

Yeld - Campina.

fim
